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Recém-convertido à Igreja Universal, o pernambucano
Bezerra da Silva começou cantando cocos, mas, desde que abraçou
o samba, em 1977, se tornou o cronista dos morros e favelas. Zeca
Pagodinho é cria dos quintais cariocas e foi um dos talentos
revelados com o estouro do (bom) pagode, em meados dos anos 80.
Ambos têm em comum uma saudável malandragem e a disposição
de sempre gravar compositores populares, sem trânsito na mídia
cumplicidade evidenciada com o lançamento simultâneo
de seus novos discos, Deixa a Vida me Levar (de Zeca) e A
Gíria É Cultura do Povo (de Bezerra).
Zeca mantém o alto nível de sua discografia com Deixa
a Vida me Levar, obra-prima de repertório irretocável.
O sambista canta os partidos mais altos (Tá Ruim, mas
tá Bom, Letreiro e a deliciosa faixa-título),
incursiona por um pagode de sotaque mais ruralista (Calangueei)
e, como sempre, reverencia a velha guarda do samba, seja cantando
uma pérola de Wilson Moreira (Belo Encontro)
ou regravando o ufanista samba-enredo Riquezas do Brasil,
composto por Candeia para o desfile da Portela no Carnaval de 1956.
Se Zeca mantém o pique em disco contagiante, Bezerra deixa
entrever o desgaste de sua fórmula em A Gíria É
Cultura do Povo. Em vez das espirituosas crônicas que
revelavam o cotidiano dos morros, com moradores hábeis no
trato com cagüetes e traficantes, há lugar para um deslocado
romantismo em músicas como Toda Noite Sonho e
Eu Menti. A verve do partideiro já não
é a mesma de quando ele satirizava a ambição
dos pastores de sua nova igreja.
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