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25/02/2002
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SUCESSO
WOLNEY
ATALLA JÚNIOR
A cana pela lente do usineiro
Filho de usineiro ganha prêmio em Hollywood
com documentário sobre cortadores de cana, rodado na fazenda de
sua família
Mariane
Morisawa
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Claudio
Gatti
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| “Se
eu falasse que era o patrão deles, não ia dar certo. Os cortadores
tinham receio de falar’’ Wolney Atalla |
Parecia
coisa de garoto mimado. Depois de nove anos morando fora do Brasil
e dois trabalhando nas empresas da família, que vão
de usina de açúcar a fábrica de café
orgânico, Jorge Wolney Atalla Junior resolveu estudar cinema.
Sempre gostei de criticar filme, ângulo, plano. Devolvi
o apartamento e fui para Nova York com minha mulher, conta.
Claro que meu pai achou que eu estava viajando, mas me apoiou,
afirma. Foram 12 meses de curso intenso. No retorno, o sonho de
filmar um longa-metragem veio em forma de documentário. Queria
filmar pessoas simples do interior, e aproveitei a fazenda do meu
pai, conta.
O
que Wolney não imaginava era o sucesso que A Vida em Cana
ia ter. O documentário sobre cortadores de cana participou
de mais de 20 festivais no mundo todo. Em janeiro, recebeu em Hollywood
o prêmio Satélite de Ouro, batendo até Martin
Scorsese.
Mas
quem pensa que tudo foi fácil para o herdeiro tornado diretor
se engana. Como não queria captar dinheiro pelas leis de
incentivo, comprou uma câmera digital, por US$ 5 mil, do próprio
bolso. Depois de gravar tudo, transferiu o material para um computador
adquirido a prazo e vendeu a câmera. Somente na hora de transformar
o vídeo em película cinematográfica apelou
para amigos e o pai. No total, A Vida em Cana custou US$
30 mil.
O
cineasta estreante, 32 anos, gastou mais em tempo. Tirou licença
das empresas e ficou seis meses filmando. Ia todos os dias,
porque senão sentia que estava perdendo algo. Chegava às
6h da manhã e saía às 17h, conta. Como
não podia revelar a identidade, apresentava-se como Junior.
Se eu falasse que era o patrão deles, não ia
dar certo, diz. Os cortadores tinham receio de falar.
Levei duas semanas para começar a entrevistá-los.
O fiscal Romildo, que trabalha há 15 anos para a família,
deu a ajuda fundamental. Ele fazia as perguntas. Eu deixava
a câmera debaixo do braço, 99% das vezes eles não
sabiam que eu estava filmando, revela Wolney.
Mesmo
tendo contato anterior com as pessoas do interior quando
menino, se enfiava nas casas de colonos, de onde só saía
buscado pela mãe , ele se surpreendeu. Não
sabia que eles acordavam às 2h e cortavam até 20 toneladas
por dia, conta. É impossível não
sentir pena dessas pessoas. Quis mostrar que é um trabalho
sofrido, que eles trabalham desde os 10 anos, mas que preferem ser
cortadores porque ganham mais do que em outras atividades. Dependendo
de quanto cortam, chegam até 700 reais por mês,
diz.
Volta
à vida normal O filme só ficou pronto um ano e
dois meses depois. Na estréia, em Recife, levou três
prêmios. Então foi recusado em vários festivais
nacionais. Fiquei triste, mas acho que é porque sou
novo na área, diz. Frustrado, Wolney resolveu se voltar
para o exterior e exibiu A Vida em Cana em diversos países.
Realizado
o sonho, veio a hora de voltar a ser patrão. Wolney trabalha
11 horas por dia e sobra pouco tempo para filmar. Pensei em
não fazer mais nada. Falava: Tenho que trabalhar.
Então ganhei o Satélite, recebi convites para festivais...,
conta animado. Ele espera fazer seu segundo filme após o
expediente ou nos fins de semana: Acho difícil ser
cineasta em tempo integral no Brasil.
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