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| ALEXANDRE
PIRES |
25/02/2002
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“Vocês
vão ter de me engolir”
- CONTINUAÇÃO
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Claudio Gatti
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| “O
preconceito existe. Uma prova é o meu compadre Taiguara, que
participou da Casa dos Artistas, e até hoje não recebeu
nenhum convite para fazer nada” |
Houve
cobrança dos pais quando largou o trabalho e os estudos?
Eles cobravam estudo. Meu pai queria que eu estudasse, minha mãe
não falava nada. Ele é baterista, ela cantora e eles
ainda tocam. Eles ensaiavam na varanda de casa. Beatles, Golden
Boys, Roberto Carlos, Jovem Guarda, Fevers, Renato e seus Blue Caps
estão na minha memória. Quando nos reunimos em casa,
canto esses sucessos. Por saberem da vida dura de músico,
achavam que dificilmente eu conseguiria algo com música.
Eu era o ovelha negra. Pulava o muro para curtir pagodes na vizinhança.
Quando
descobriu o samba?
Comecei a gostar por causa das minhas tias, que adoravam. Um amigo
do meu pai, que tocava cavaquinho, esqueceu o instrumento em casa
por um mês, depois de tomar uns gorós. Aí comecei
a tocar, gostar de sambar e surgiu o Só Pra Contrariar. Com
14, 15 anos, fugia de casa para tocar. Uma vez meu pai estraçalhou
o cavaquinho, quando voltei de madrugada pra casa. Foi o pontapé
inicial para minha insistência na música.
Incomoda-se
com críticas?
Às vezes, sim. Mas hoje leio e a crítica me fortalece.
Nessas críticas, você vê a hipocrisia de alguns.
Falaram que o mal da globalização era o Alexandre
Pires em Veneza. Por quê? Se fosse a Cássia Eller,
que é maravilhosa, iriam dizer o mesmo? Ainda tem esse tipo
de preconceito. Também ficou aquela imagem antiga de que
artista brasileiro só faz sucesso em churrascaria lá
fora. Não é por aí. Muito gente grava disco
em outra língua só pra ter status e enrolar a língua.
A minha concepção é chegar lá, fazer
sucesso. Quero aproveitar essa oportunidade, que não caiu
do céu. É só o começo de uma batalha,
de um trabalho verdadeiro e sacrificante.
Você
disse certa vez que negro que faz sucesso no Brasil incomoda. Já
sofreu preconceito?
Vários. Não vou contar histórias específicas,
não quero levantar bandeiras. Se for falar sobre preconceito,
vou tomar pancada. Mas ele existe. Uma prova é o meu compadre
Taiguara, que participou da Casa dos Artistas, e até hoje
não recebeu nenhum convite para fazer nada. O preconceito
está no cotidiano. Seja a pessoa famosa ou não. Se
é famoso, são obrigados a engolir você. Sou
um negro privilegiado, faço sucesso. E pessoas falam como
se eu estivesse assaltando, como se não merecesse o que estou
conquistando. É preconceito.
No
Brasil, há muita pirataria de discos. Acha o preço
do CD caro?
Acho. Quando estourou a vendagem de CDs piratas, colocaram a culpa
nos grupos de pagode e de samba, mas aconteceu com todos os artistas.
Hoje é difícil vender um milhão de cópias
como se vendia há cinco anos.
Já
propôs à gravadora baratear seu CD?
Não. Se entrar sozinho nessa eu morro, levo um tiro na cabeça.
Se tem alguma campanha, estou dentro. Mas meia dúzia não
vai adiantar. Os artistas teriam de ser mais unidos e esquecer isso
de eu toco guitarra distorcida e eu toco cavaquinho
e não se misturar. Se falar, tomo pancada sozinho.
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