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Moreira da Silva
A face boa
da malandragem
"Rodador de manivela" de carro
e motorista de ambulância, ele ganhou fama com a apologia do trambique
no samba de breque
Rosângela Honor
Foto:
Leandro Pimentel
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No início
dos anos 80, Moreira da Silva deixou estupefato o amigo Carlos Roberto
de Oliveira, o Dicró, com quem fazia turnê pelo Brasil.
O sambista pediu a ele que passasse henê em seus cabelos,
pois esperava a visita de uma namorada vinda do Rio. No meio da
tarde, uma jovem muito bonita e aparentando pouco mais de 20 anos
chegou ao hotel onde estavam hospedados. Boquiaberto, Dicró
fez uma aposta com os outros músicos. Se a moça amanhecesse
de cara emburrada, o velho malandro não teria dado conta
do recado. No dia seguinte, para surpresa de todos, a moça
era só sorrisos.
A história
é apenas uma das muitas que ilustram a trajetória
do malandro Moreira da Silva, o Kid Morengueira, 97 anos. Ele é
o representante de uma geração que vestia terno de
linho branco, calçava sapatos bicolores e usava chapéu
panamá. O cantor de sucessos como "Acertei no Milhar!",
"Amigo Urso", "Arrasta a Sandália" e
"Risoleta" é considerado a personificação
da malandragem que imperava nos morros e no centro do Rio na década
de 20. Naquela época, os bons malandros gabavam-se de não
terem que enfrentar os dissabores de um dia de trabalho e do sucesso
que faziam com as mulheres. "Hoje não existem mais malandros,
só bandidos", diz.
Antônio
Moreira da Silva nasceu no dia 1.º de abril de 1902, na Tijuca,
zona norte do Rio, época em que só existiam seis automóveis
circulando pelo Rio de Janeiro. Filho do músico Bernardino
da Silva Paranhos e da cozinheira Polodina de Assis Moreira, ele
ficou órfão de pai aos 2 anos. Criado no morro do
Salgueiro, Moreira arrumou seu primeiro emprego, aos 10 anos, numa
fábrica de meias. Ele teve duas irmãs, Rosália
e Ruth. Aos 17, Moreira da Silva se mudou para o Morro da Babilônia,
na Tijuca. Foi nesta época que ele levou muitas surras da
mãe, que não gostava de vê-lo ao lado dos malandros
do morro. Também foi nesse período que Moreira revelou
seu lado mulherengo. Surpreendeu a mãe com a notícia
de que Jandira, uma de suas namoradas, estava grávida. A
moça morreu no parto e o bebê, poucos dias depois.
Em 1921, Moreira da Silva conseguiu emprego como ajudante de chofer
de táxi da Central do Brasil. Sua função era
rodar as manivelas dos veículos para o motor, já que
naquela época ainda não existia o motor de arranque
automático, o que só aconteceria em 1926. Rodou manivelas
de automóveis durante quatro anos. Só parou quando
conseguiu emprego de motorista de ambulância no serviço
público.
Dois anos mais
tarde, aos 25 anos, casou-se com Maria de Lourdes, a Mariazinha,
com quem viveu durante 56 anos, até sua morte, em 1983.
O malandro ganhava
alguns trocados a mais fazendo serestas nos morros. Foi quando conheceu
o compositor baiano Getúlio Marinho da Silva, que se encantou
com sua voz. Em novembro de 1931, Moreira entrou pela primeira vez
num estúdio para gravar a música "Ererê",
ainda em disco de 78 rotações - o LP só seria
lançado no Brasil em 1951. Naquela época o sistema
de gravação mecânica fora substituído
pelo elétrico, o que facilitou a tarefa de gravação.
Deixou, então, os botequins improvisados de jogos de bilhar
nos morros e passou a freqüentar os bilhares da Praça
da República, hoje Campo de Santana, próximo à
Lapa, reduto da malandragem carioca.
Moreira da Silva
inventou o samba de breque - pausas reservadas durante as músicas
para a inserção de frases engraçadas e cheias
de gírias - por acaso. Durante a gravação da
música "Jogo Proibido", surpreendeu os músicos
que o acompanhavam improvisando frases fora da letra da música.
O estilo estourou nas paradas de sucesso de rádio. Moreira
da Silva foi contratado, em 1937, pela rádio Mayrink Veiga,
um dos melhores meios de divulgação dos artistas na
época - a televisão só chegaria ao Brasil em
1950. Mas em nenhum momento o sambista largou o serviço público.
Para conciliar os empregos, abonava os bolsos de seus subordinados
para não ser delatado quando se ausentava. Chegou a gastar
um salário inteiro da Prefeitura para pagar quem o substituía
nos dias em que faltava. Em 1939, embarcou para Portugal para participar
do filme A Varanda dos Rouxinóis. A viagem, de navio, durou
15 dias. Esta não seria a única incursão do
sambista no cinema. Ele também foi ator nos filmes Sem Essa
Aranha, de Rogério Sganzerla, em 1969, e no documentário
Moreira da Silva, o Filme, de Ivan Cardoso, em 1972.
O malandro voltou
a ganhar a manchete dos jornais em 1971, quando gravou a música
"No Clã dos Imortais". A letra criticava a proibição
do ingresso de mulheres na Academia Brasileira de Letras. O velho
malandro, de fardão, foi até a porta da ABL, mas não
conseguiu entrar. Foi barrado pelo então presidente da instituição,
Austregésilo de Athayde. Embora nunca tenha sido preso, Moreira
chegou a entrar num camburão, em solidariedade ao amigo Jards
Macalé, que foi detido pela ditadura, em 1976. Malandro,
o sambista tratou de cantar logo um de seus maiores sucessos, "Olha
o Padilha". Para aproveitar a canja, os policiais deram várias
voltas no quarteirão. Mas nem assim Moreira conseguiu evitar
a prisão do amigo.
Hoje
Moreira da Silva vive sozinho em um apartamento de quarto e sala
no bairro do Catumbi, no centro do Rio, desde que sua mulher morreu.
"Ainda sinto saudades dela." A filha adotiva, Marli Correa
Gomes, 57 anos, e os netos, Jorge Antonio e Juliana, estão
sempre por perto. Moreira passa as manhãs na cama e só
sai de casa uma vez por mês para ir ao banco receber sua aposentadoria,
de R$ 1,2 mil. Mesmo depois de se submeter, em 1994, a uma operação
de catarata, e outra, em 1995, na uretra, ele ainda faz shows, pelos
quais cobra R$ 5 mil. Ainda encontrou energia para gravar, em 1995,
o CD Três Malandros in Concert, ao lado de Dicró e
Bezerra da Silva. "Ganhei muito, mas gastei tudo com as mulheres",
conta o sambista, que manteve um caso de 20 anos com a prostituta
Estela, entre dezenas de outras. "Eu era espada", justifica
o eterno malandro.
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