01 de novembro de 1999
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Música

Ivete Sangalo comanda a massa e os negócios
A cantora fatura até R$ 40 mil por show e cuida pessoalmente dos negócios, como um trio elétrico e a carreira de quatro artistas

Paula Quental
de Salvador (BA)

Foto: Edu Lopes

Ivete Sangalo é mestre em desconcertar qualquer platéia. Há um mês, num show fechado para 2 mil participantes de um congresso de ginecologistas em Salvador, ela incitou comportados médicos a balançar o esqueleto: "Vocês que fazem exame de toque na mulherada, põem a mão no peito delas, vão me dizer que estão com vergonha de dançar?". Para 50 mil pessoas, ela não faz diferente. Entre remelexos, conta piadas e estimula desconhecidos a trocarem beijos. Fora do palco ou do topo de seu trio elétrico, o Maderada, Ivete chega a sua empresa em Lauro de Freitas, município vizinho a Salvador, e assume outro papel: o de mulher de negócios. O furacão que põe para pular milhares de pessoas é firme nas decisões que envolvem shows, fotos, entrevistas, o bloco carnavalesco que administra e a carreira de outros músicos.

Assediada pelos assessores, ela dá as ordens na Caco de Telha - nome singelo dado à grandiosa produtora que funciona num galpão de mais 800 metros quadrados, com estúdio de gravação e garagem para trio elétrico. Enquanto assina papéis, recomenda no tom de profissional de marketing: "Não esqueçam de enviar o CD para Ana Maria Braga". A voz grave e decidida contrasta com a blusa cor-de-rosa, as bruxinhas ladeando o computador e o decalque de coração no celular. À moda dos executivos, interrompe a entrevista a Gente a cada cinco minutos para atender ligações. Ivete, 28 anos, tem em mente que, além da dedicar-se à carreira musical, precisa saber como divulgá-la. "Que artista não gosta de abrir uma revista e ver que está lá? Quem diz que não, está mentindo!", afirma, enquanto decide a foto que vai ilustrar o cartão de Natal a ser enviado aos fãs. Na sessão de fotos, a preocupação com a imagem, num tom bem-humorado, é evidente. "Dá para tirar as veias do meus pés no computador?", perguntava ao fotógrafo.

Ela sabe que exposição na mídia alavanca os negócios. Há poucos dias, por exemplo, foi fotografada com o namorado, Luciano Huck, no aniversário de Miguel Falabella, também em São Paulo. "Tem coisinhas que a gente tem que ir, prestigiar", diz. Mas nem sempre há brechas na turnê, com até 18 shows por mês. Em sete anos à frente da Banda Eva, Ivete vendeu 4 milhões e meio de CDs, mas ainda engatinha na carreira-solo. Os resultados de venda estão aquém da expectativa. O último CD que Ivete gravou com o grupo, em 1998, teve 2 milhões de cópias vendidas e uma tiragem inicial de 250 mil. O primeiro CD que fez sozinha, com tiragem inicial de 100 mil cópias, vendeu 150 mil desde que foi lançado, há dois meses. "A carreira-solo é sempre difícil, mas há uma crise no mercado fonográfico", diz o empresário da Banda Eva, Jorge Sampaio. O CD mais recente da banda, com Emanuelle Araújo, vendeu 100 mil cópias, mesmo número de sua tiragem inicial. A fase solitária de Ivete, iniciada no Carnaval deste ano, foi preparada 12 meses antes. "Eu avisei ao grupo: gente, não dá mais para conciliar dois nomes, o de Ivete Sangalo e o da Banda Eva", conta. "Toda a responsabilidade era minha, mas eu só ia pôr a voz, não sabia dos arranjos, não tinha gerência sobre nada."

A produtora Caco de Telha, na qual trabalha quase toda a família de Ivete, foi criada em 3 de fevereiro. Os irmãos Jesus, 34, e Ricardo Sangalo, 33, são seus empresários, e a irmã Cynthia, 29, produtora. Lá ainda estão uma cunhada, Fátima, e uma prima, Carolina, entre 30 pessoas. Economista formado, Jesus é o responsável pela venda dos shows - que custam de R$ 30 mil e R$ 40 mil. Ele assumiu a distribuidora de jóias e o sustento da família há 11 anos, com a morte do pai, o espanhol Alsus San Galo. Meses depois, mal refeita da perda, a família enfrentou a morte, por atropelamento, de um dos seis irmãos, Marcos, aos 21 anos. A tragédia, ainda uma ferida aberta, sem dúvida estreitou a união dos irmãos.

Pequena, Ivete acompanhava, fazendo a percussão, as canções tocadas pelo pai e a irmã mais velha, Mônica, ambos violonistas. Alsus San Galo foi garimpeiro em Serra Pelada, vendedor de móveis e ourives em Salvador, para onde se mudou, vindo de Juazeiro, a 510 quilômetros da capital baiana, onde nasceu a caçula Ivete. O pai fazia serestas pelas ruas da capital com a mulher, também Ivete, pernambucana de Petrolina. "Minha voz era mais bonita que a de minhas filhas", diz a mãe, 61 anos. Cantora e compositora, Mônica, 36, sempre se apresenta com casa cheia em Salvador. Tem um repertório mais intimista, mas é autora de dois sucessos da Banda Eva. Ela grava o primeiro CD em 2000 e é um dos quatro artistas baianos empresariados pela Caco de Telha. Os outros são a banda Doutor Cevada, a vocalista da banda Couro de Gata, Ivana Pontes, e o cantor Tito Bahiense, todos da Bahia. Ivete conta que Mônica é vital na sua formação. "Foi ela quem me mostrou Stevie Wonder, Gil, Caetano, Djavan. É minha professora", diz. "Ela fala, eu obedeço."

Ivete cursou um ano de Administração e Secretariado Executivo e trabalhou como vendedora de roupas e de marmitas. "Ela improvisava percussão no balcão da loja", recorda Jamil Moreira Castro, seu amigo e assessor de imprensa. A carreira começou numa noite em que Mônica, próxima de ter o primeiro filho, chamou Ivete para cantar com ela num bar, em Salvador. "Lá nos convidaram para abrir um show em Juazeiro. Minha irmã estava parindo e eu fui sozinha", conta. Em 1992, formou uma banda de samba e funk e em seguida foi para a Banda Eva. "Desde o início vi que ela ia longe", elogia a cantora baiana Margareth Menezes, que navega há mais tempo na sonoridade que vem da Bahia. "Ivete é muito autêntica com o público." No início, foi acusada pela imprensa baiana de se vender à axé music. "Ivete Sangalo não precisa da axé music, a axé music é que precisa dela", diz o crítico musical Zuza Homem de Melo.

Por seu carisma, a empresária de Xuxa, Marlene Mattos, não hesitou em chamá-la para apresentar o Planeta Xuxa, da Rede Globo, por duas vezes, durante a licença-maternidade da apresentadora. Marlene até quis fazer um piloto de um novo programa comandado por ela. "Ivete é gente da melhor qualidade, não é mascarada e é espontânea", elogia Marlene. "Aquelas duas, Xuxa e Marlene, são duas loucas, iguais a mim. Foi um tesão, mas eu não teria tempo, tenho o meu trabalho", diz. A cantora integra o elenco do filme Simão, o Fantasma Trapalhão, de Renato Aragão, lançado em 1998. "Na verdade não sou atriz, sou é cara-de-pau", diz.

Na espontaneidade, ela tem a quem puxar. A mãe, Ivete, arranca risadas de todos. Ao encontrar-se com o paulista Luciano Huck, ela não se conteve: "Menino, como você é alvo!". Luciano a abraçou e mostrou o presente que recebera de Ivete, um livrinho encomendado ao desenhista Maurício de Souza, no qual os personagens Mônica e Cebolinha narram a história do namoro dos dois.

Há três meses, Ivete e Luciano, apesar de morarem em cidades diferentes, são vistos sempre juntos. "Me apaixonei por ele e decidimos assumir. O namoro ficou falado porque ele também é famoso. Ninguém sabe o nome dos meus ex", diz Ivete, que o chama de "meu príncipe". O romance começou em Miami, quando Luciano entrevistou a cantora para o programa H, da Bandeirantes. Na ocasião, era namorado da apresentadora Eliana, que o acusou de infidelidade. "Ivete é maravilhosa, consegue bagunçar até congresso de ginecologista", diz Luciano. Dias atrás, ele conseguiu espaço na superlotada agenda da namorada para levá-la ao cinema num shopping em Salvador. Assistiram a Um Lugar Chamado Nothing Hill, com Julia Roberts e Hugh Grant.

A fama de Ivete tem lá o seu ônus. Até nas corridas para manter a forma tem um segurança. Está aprendendo a atirar para se defender, embora não pretenda andar armada. Mas continua se apresentando em cima do trio elétrico. E faz disso um negócio. Seu bloco, o Cerveja & Cia., é uma empresa rentável e independe da presença da dona. Cem pessoas, em Salvador e outras dez capitais, cuidam dos negócios do bloco para as micaretas, os carnavais fora de época. A cada apresentação vendem cerca de 3,5 mil abadás por até R$ 200.

Envie esta página para um amigoO nome do trio, Maderada - um caminhão de 30 toneladas com dois camarins e três banheiros - é uma alusão ao grito de Ivete quando comanda a massa: "Lá vai madeiraaa!". "O faturamento do bloco é quase igual aos dos shows de Ivete", diz Marcelo Rangel, sócio da cantora. Em breve, o Cerveja & Cia., bloco baiano que estava quase falido quando Ivete o comprou, será o primeiro a ter dois caminhões de trio elétrico. Nesse assunto, Ivete virou referência. "Liguei dizendo que precisava fazer um trio elétrico e ela se prontificou", diz Flora Gil, mulher e empresária de Gilberto Gil. Para Ivete, carreira e bloco se completam. "O disco, o Carnaval, os shows, a divulgação, tudo está ligado", diz ela, com o tino de negociante.

Colaborou Rosângela Honor
Produção: Luciane André e Luciana Ávila; Maquiagem: Henrique Melo e Marcelo Sath; Agradecimentos: Empório Armani, Spezzato, Arezzo, Ecletic, Cavendish, Lellis Blanc e U-Turn

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