01 de novembro de 1999
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Fernando Morais - Paris

Foto Pio Figueiroa

O comunista que livrou Pitta do impeachment
Abelardo Blanco, brasileiro de origem argentina e idéias de esquerda, salvou o prefeito de São Paulo para acabar com a carreira de Paulo Maluf


Seis meses depois do terremoto que abalou a política paulista, sai das sombras o homem que salvou o prefeito Celso Pitta de ser decapitado pela Câmara Municipal de São Paulo. O salvador da pátria não foi um marketeiro político estrangeiro, como o norte-americano James Carville ou o "bruxo" espanhol Jesús Pedregal. O Rasputin dessa operação saiu da Vila Madalena, em São Paulo. No auge da crise e à beira do precipício, no começo deste ano, Pitta percebeu que estava cercado de capitães - mas que aquela parecia ser uma tarefa para general. Ele estava precisando de um estrategista. Em menos de 24 horas, Pitta foi colocado diante do escolhido.

Era Abelardo Blanco, um homem próximo dos 50 anos, magro, discretamente elegante e de modos educados, dono de cavanhaque e bigodes que lhe emprestam um perfil renascentista, levemente florentino. Mas Blanco - ou "Abê", como o chamam os amigos - é brasileiro. Nascido na Argentina, mas brasileiro. E, há poucos meses, também cidadão espanhol, como seus avós imigrantes. Quase arquiteto, foi contemporâneo na FAU-USP, nos anos 60, de gente como Chico Buarque e os irmãos (Chico e Paulo) Caruso. Muita política e pouca freqüência às aulas de concreto protendido mataram o arquiteto, mas deram à luz o militante. Em pouco tempo Blanco já gravitava na órbita da ALN - Ação Libertadora Nacional, o grupo guerrilheiro comandado por Carlos Marighella. Seus companheiros daquela época juram que ele nunca deu um tiro na vida. "O Abê sempre pareceu alguém seduzido pelo jogo de xadrez da política", relembra um amigo da luta armada. "Sem perder de vista os objetivos, ele sempre deu a impressão de que isso, a articulação, era o que lhe dava prazer." Mas na hora da onça beber água, a repressão não via diferenças essenciais entre Gramsci e Molotov.

E foi assim, provavelmente sem jamais ter visto uma reles garrucha, que Blanco rumou para o exílio parisiense. Lá, estudou ciência política e aprofundou-se na militância, agora no "Grupo Debate", um micropartido comunista de intelectuais brasileiros. E aprendeu a apreciar vinhos (refinamento que deve ter chegado aos ouvidos de Pitta, que no segundo encontro o recebeu armado com uma garrafa de Brunello de Montalcino).

Com a anistia, ele voltou ao Brasil e logo se converteu em conselheiro político da bancada de esquerda eleita sob o guarda-chuva do MDB. Uma busca minuciosa nos arquivos da política dos anos 70 e 80 em São Paulo revelará impressões digitais de Blanco em célebres CPIs paulistas (como a da "Freguesia do Ó" e a que cassou por corrupção o mandato do deputado Jacob Lopes) e em ações como o "Movimento de Solidariedade aos Grevistas", que assegurou alimento para as famílias dos metalúrgicos do ABC durante a famosa greve de 1980. No dia da votação da emenda das "Diretas Já", Blanco montou em Brasília um até hoje inexplicável sistema que permitiu que ele, de dentro do plenário do Congresso, "cantasse" voto por voto, por telefone, para as monumentais caixas de som espalhadas pela praça da Sé, para que o povão pudesse patrulhar seus deputados (e isso aconteceu dez anos antes de nascerem os telefones celulares).

Blanco foi "lua preta" e guru de gente como Almino Affonso, José Dirceu e o ex-ministro João Santana. Criador e ex-proprietário de dois restaurantes em São Paulo (apropriadamente batizados com os nomes de "Danton" e "Macchiavelli"), nos últimos anos Blanco montou uma produtora de vídeo, com a qual realizou as campanhas eleitorais para governador de Almino Affonso, em 1990, de José Dirceu, em 1994, e parte da campanha de Marta Suplicy no ano passado. Em 1997, dirigiu a vitoriosa campanha da coalizão de esquerda liderada pelo ex-presidente da Bolívia Jaime Paz Zamora.

Só depois de se inteirar do cipoal em que o prefeito estava metido é que Blanco percebeu que o grande beneficiário do processo de "impeachment" contra Pitta seria ninguém menos que seu criador e padrinho Paulo Maluf. Com a popularidade em baixa e a carreira ameaçada pelo mau desempenho do sucessor, Maluf preferia livrar-se dele o mais rápido possível. E para isso tinha um grande aliado, o PFL, que pretendia trazer de volta às suas hostes o vice-prefeito Régis de Oliveira, em cujo colo a Prefeitura pousaria de graça, caso Pitta fosse derrubado.

"Decidi aceitar o convite para entrar nessa briga", confessou a um amigo, "quando percebi que segurar Pitta na Prefeitura significava quebrar as asas de Maluf naquele que poderia ser seu último vôo político." Blanco disse a Pitta que a única saída era ele ganhar a opinião pública para essa tese: a de que seu impeachment só interessava a Maluf.

Mas a operação passava obrigatoriamente por dois obstáculos: os grandes jornais e as bancadas do PT e do PSDB na Câmara Municipal tinham que ser convencidos disso. O prefeito teria que dar sinais claros de que aquela não era uma jogada ensaiada com Maluf. Quando Pitta quis saber que sinais eram esses, Blanco chutou de bate-pronto: romper ruidosamente com Maluf, demitir todos os malufistas de seu secretariado e desfiliar-se do PPB.

Cumprida à risca a cartilha, em poucas semanas Pitta pôde respirar aliviado e festejar a certeza de que exercerá seu mandato até o último dia. Admirando a distância a operação, um cacique da política paulista só lamentou que no receituário prescrito por Blanco tenha faltado uma medida: um flagrante policial de vereadores pondo a mão na... massa, digamos. Para esse político, se fizesse isso Pitta sairia da refrega como herói.

Contabilizados os mortos e feridos resultantes da razia contra o malufismo, pelo menos um sobrevivente é identificável. Sob o convincente argumento de que "brigar com a classe artística agora significará abrir uma nova frente de batalha", Blanco conseguiu segurar na cadeira o secretário da Cultura, Rodolfo Konder, cuja cabeça era exigida por todo o entourage do prefeito. Passados seis meses, a quem lhe pergunta sobre toda essa história, Blanco nega com um peremptório "nunca vi o Pitta em minha vida".

 

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