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Fernando
Morais - Paris
Foto
Pio Figueiroa

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O
comunista que livrou Pitta do impeachment
Abelardo
Blanco, brasileiro de origem argentina e idéias de
esquerda, salvou o prefeito de São Paulo para acabar
com a carreira de Paulo Maluf
Seis meses depois do terremoto que abalou a política
paulista, sai das sombras o homem que salvou o prefeito Celso
Pitta de ser decapitado pela Câmara Municipal de São
Paulo. O salvador da pátria não foi um marketeiro
político estrangeiro, como o norte-americano James
Carville ou o "bruxo" espanhol Jesús Pedregal.
O Rasputin dessa operação saiu da Vila Madalena,
em São Paulo. No auge da crise e à beira do
precipício, no começo deste ano, Pitta percebeu
que estava cercado de capitães - mas que aquela parecia
ser uma tarefa para general. Ele estava precisando de um estrategista.
Em menos de 24 horas, Pitta foi colocado diante do escolhido.
Era Abelardo
Blanco, um homem próximo dos 50 anos, magro, discretamente
elegante e de modos educados, dono de cavanhaque e bigodes
que lhe emprestam um perfil renascentista, levemente florentino.
Mas Blanco - ou "Abê", como o chamam os amigos
- é brasileiro. Nascido na Argentina, mas brasileiro.
E, há poucos meses, também cidadão espanhol,
como seus avós imigrantes. Quase arquiteto, foi contemporâneo
na FAU-USP, nos anos 60, de gente como Chico Buarque e os
irmãos (Chico e Paulo) Caruso. Muita política
e pouca freqüência às aulas de concreto
protendido mataram o arquiteto, mas deram à luz o militante.
Em pouco tempo Blanco já gravitava na órbita
da ALN - Ação Libertadora Nacional, o grupo
guerrilheiro comandado por Carlos Marighella. Seus companheiros
daquela época juram que ele nunca deu um tiro na vida.
"O Abê sempre pareceu alguém seduzido pelo
jogo de xadrez da política", relembra um amigo
da luta armada. "Sem perder de vista os objetivos, ele
sempre deu a impressão de que isso, a articulação,
era o que lhe dava prazer." Mas na hora da onça
beber água, a repressão não via diferenças
essenciais entre Gramsci e Molotov.
E foi
assim, provavelmente sem jamais ter visto uma reles garrucha,
que Blanco rumou para o exílio parisiense. Lá,
estudou ciência política e aprofundou-se na militância,
agora no "Grupo Debate", um micropartido comunista
de intelectuais brasileiros. E aprendeu a apreciar vinhos
(refinamento que deve ter chegado aos ouvidos de Pitta, que
no segundo encontro o recebeu armado com uma garrafa de Brunello
de Montalcino).
Com a
anistia, ele voltou ao Brasil e logo se converteu em conselheiro
político da bancada de esquerda eleita sob o guarda-chuva
do MDB. Uma busca minuciosa nos arquivos da política
dos anos 70 e 80 em São Paulo revelará impressões
digitais de Blanco em célebres CPIs paulistas (como
a da "Freguesia do Ó" e a que cassou por
corrupção o mandato do deputado Jacob Lopes)
e em ações como o "Movimento de Solidariedade
aos Grevistas", que assegurou alimento para as famílias
dos metalúrgicos do ABC durante a famosa greve de 1980.
No dia da votação da emenda das "Diretas
Já", Blanco montou em Brasília um até
hoje inexplicável sistema que permitiu que ele, de
dentro do plenário do Congresso, "cantasse"
voto por voto, por telefone, para as monumentais caixas de
som espalhadas pela praça da Sé, para que o
povão pudesse patrulhar seus deputados (e isso aconteceu
dez anos antes de nascerem os telefones celulares).
Blanco
foi "lua preta" e guru de gente como Almino Affonso,
José Dirceu e o ex-ministro João Santana. Criador
e ex-proprietário de dois restaurantes em São
Paulo (apropriadamente batizados com os nomes de "Danton"
e "Macchiavelli"), nos últimos anos Blanco
montou uma produtora de vídeo, com a qual realizou
as campanhas eleitorais para governador de Almino Affonso,
em 1990, de José Dirceu, em 1994, e parte da campanha
de Marta Suplicy no ano passado. Em 1997, dirigiu a vitoriosa
campanha da coalizão de esquerda liderada pelo ex-presidente
da Bolívia Jaime Paz Zamora.
Só
depois de se inteirar do cipoal em que o prefeito estava metido
é que Blanco percebeu que o grande beneficiário
do processo de "impeachment" contra Pitta seria
ninguém menos que seu criador e padrinho Paulo Maluf.
Com a popularidade em baixa e a carreira ameaçada pelo
mau desempenho do sucessor, Maluf preferia livrar-se dele
o mais rápido possível. E para isso tinha um
grande aliado, o PFL, que pretendia trazer de volta às
suas hostes o vice-prefeito Régis de Oliveira, em cujo
colo a Prefeitura pousaria de graça, caso Pitta fosse
derrubado.
"Decidi
aceitar o convite para entrar nessa briga", confessou
a um amigo, "quando percebi que segurar Pitta na Prefeitura
significava quebrar as asas de Maluf naquele que poderia ser
seu último vôo político." Blanco
disse a Pitta que a única saída era ele ganhar
a opinião pública para essa tese: a de que seu
impeachment só interessava a Maluf.
Mas a
operação passava obrigatoriamente por dois obstáculos:
os grandes jornais e as bancadas do PT e do PSDB na Câmara
Municipal tinham que ser convencidos disso. O prefeito teria
que dar sinais claros de que aquela não era uma jogada
ensaiada com Maluf. Quando Pitta quis saber que sinais eram
esses, Blanco chutou de bate-pronto: romper ruidosamente com
Maluf, demitir todos os malufistas de seu secretariado e desfiliar-se
do PPB.
Cumprida
à risca a cartilha, em poucas semanas Pitta pôde
respirar aliviado e festejar a certeza de que exercerá
seu mandato até o último dia. Admirando a distância
a operação, um cacique da política paulista
só lamentou que no receituário prescrito por
Blanco tenha faltado uma medida: um flagrante policial de
vereadores pondo a mão na... massa, digamos. Para esse
político, se fizesse isso Pitta sairia da refrega como
herói.
Contabilizados
os mortos e feridos resultantes da razia contra o malufismo,
pelo menos um sobrevivente é identificável.
Sob o convincente argumento de que "brigar com a classe
artística agora significará abrir uma nova frente
de batalha", Blanco conseguiu segurar na cadeira o secretário
da Cultura, Rodolfo Konder, cuja cabeça era exigida
por todo o entourage do prefeito. Passados seis meses, a quem
lhe pergunta sobre toda essa história, Blanco nega
com um peremptório "nunca vi o Pitta em minha
vida".
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