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| JOÃO
MARCELLO BÔSCOLI |
21/01/2002
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“Sei
o que Chicão
está passando”
O primogênito de Elis Regina, que tinha 11 anos quando ela morreu,
não aceita a morte da mãe por overdose de cocaína e diz que se identifica
com a dor do filho de Cássia Eller
Tiago
Ribeiro
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Claudio Gatti
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| “Elis
sempre foi careta. No dia em que ela morreu, tomamos café da
manhã juntos. Ela estava ótima”, diz Bôscoli, hoje um dos donos
da gravadora Trama |
O filho
da cantora Elis Regina e do compositor Ronaldo Bôscoli é
um turbilhão de idéias e uma metralhadora verbal.
João Marcello Bôscoli fala rápido e bastante.
Às vezes falo demais, resigna-se. Impossível
não lembrar de Elis quando ele sorri. Um sorriso largo que
obriga os olhos, de um castanho escuro, a se apertarem. Também
é impossível não lembrar de Elis quando ele
resolve desfiar o vocabulário contra puxa-sacos do meio artístico,
políticos ou o que quer que o incomode. Da mãe, herdou
ainda o gosto pela música. Dono da Trama, gravadora independente
que ele fundou com os sócios André e Cláudio
Szjaman, em 1998, aos 31 anos João Marcello trabalha por
prazer. Há cinco anos não tira férias. Quando
quer descansar, joga videogame, vai ao cinema e ouve música.
Vale por uma viagem, jura. Órfão de mãe
aos 11 anos, ele não admite a causa mortis oficial de que
Elis morreu de overdose de cocaína e álcool. Na entrevista
de três horas a Gente, concedida no escritório
da gravadora, em São Paulo, lembrou da infância ao
lado da mãe, revelou os planos da Trama e contou que gostaria
de conhecer Chicão, filho de Cássia Eller, morta no
auge da carreira como Elis. Sei exatamente o que ele está
passando, diz.
As
mortes de Cássia Eller e de Elis são semelhantes para
você?
Há algumas questões não esclarecidas sobre
a morte de Elis: como é que a polícia não encontrou
um grama de cocaína em casa, se ela supostamente morreu por
overdose misturada ao álcool? Por que foi o Harry Shibata
(então diretor do Instituto Médico Legal de São
Paulo), que já tinha seu registro no Conselho Regional de
Medicina cassado, e que assinou o laudo da morte do Vladimir Herzog
(o laudo afirma que o jornalista se suicidou na prisão),
o responsável pela assinatura no laudo da minha mãe
(apontando a presença de cocaína e álcool no
exame toxicológico)? Todo mundo sabe do envolvimento dele
nos porões da ditadura. (Procurado por Gente,
o médico Harry Shibata diz que apenas formou a equipe que
examinou o corpo de Elis e assinou o laudo).
Para
você, Elis não morreu de overdose?
Não descarto que ela tenha tido experiência com drogas
tardiamente, com 36 anos, e não tenha sido feliz. Mas ela
sempre foi careta. Eu estive com ela na manhã daquele dia.
Tomamos café da manhã. Ela estava ótima.
Você
vê semelhanças entre a Cássia Eller e Elis Regina?
Ambas foram pessoas não hipócritas e desafiadoras.
Conheci pouco a Cássia, mas notei que ela tinha a mesma emoção
de criação artística de Elis. A Cássia
declarava que usava drogas e que tentava parar. Já a Elis,
em tese e em casa, não tinha esse estilo. Se ela, com 36
anos, experimentou e teve um acidente, foi uma infelicidade.
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