25 de outubro de 1999
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Especial

Thiago Lacerda desvenda o sucesso
O galã de Terra Nostra, cara-pintada na era Collor e campeão de natação, bate recorde de cartas da Globo e avisa: “Não sou gay”

Rosângela Honor

Foto: LEANDRO PIMENTEL

Quando tinha 15 anos, Thiago Lacerda pulava o muro do Colégio Palas, na Tijuca, zona norte do Rio, pintava o rosto de verde e amarelo e, às escondidas dos pais, seguia de ônibus para a avenida Presidente Vargas, no centro da cidade, para se unir aos milhares de jovens caras-pintadas que enchiam as ruas com faixas e palavras de ordem pedindo o impeachment do então presidente Fernando Collor. Passados sete anos, o adolescente que se sentia “meio revolucionário” declara-se eleitor de Ciro Gomes, em quem votou na última eleição presidencial e votará na próxima, e virou protagonista de Terra Nostra, novela de maior audiência da Globo nos últimos anos.

Thiago conquistou um espaço surpreendente para um ator com pouco mais de dois anos de carreira. Há duas semanas, tornou-se campeão de cartas entre os atores da Rede Globo, com uma média de 1.200 por mês. Quando interpretou o personagem Aramel, na minissérie Hilda Furacão, ele ganhava em torno de R$ 5 mil por mês. Hoje, está contratado até 2002 com um salário de cerca de R$ 15 mil. “Estou ganhando muito dinheiro, até mais do que imaginava”, diz. Entre os novos contratos de Thiago está o que fechou na segunda-feira 18 com a Arisco. Por quatro meses, o ator vai anunciar um novo produto da marca, que terá o nome de Terra Nostra, e embolsará entre R$ 300 mil e R$ 400 mil. O diretor da novela, Jayme Monjardim, diz que o protagonista da obra de Benedito Ruy Barbosa é seu maior investimento. “Ele é o máximo, conseguiu o papel por sua capacidade”, diz. Para ele, Thiago preenche os requisitos necessários para se transformar no galã das novas gerações. “Ele tem a humildade que um grande ator precisa ter. Aposto nele.”

O sucesso repentino é encarado com naturalidade para quem, há menos de quatro anos, nem sonhava ser ator. Filho de Jadyr de Paula Lacerda, 59 anos, gerente de banco aposentado, e da professora Marilene Ribeiro Lacerda, de 46, Thiago sempre foi independente. Aos 16 anos, achou que estava na hora de ir à luta e começou a procurar emprego. Fez alguns trabalhos como modelo. Mas, apesar dos olhos verdes e de ter 1,93m de altura, não deu certo. O mercado exigia jovens de 19 anos e com traços mais definidos. “Desisti de ficar indo a agências, estava me prejudicando no colégio”, recorda. Alto e magro, ele calça 45 e veste manequim 44. “É que eu tenho a bunda grande”, ele ri. Malsucedido nas passarelas, fez um curso de interpretação. “Era tímido, revolvi fazer o curso para me soltar”, diz. Enquanto se preparava, em 1996 prestou vestibular para Administração de Empresas.

Passou para a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e, como fora aprovado para o segundo semestre de 1996, arranjou uma vaga como vendedor de uma loja num shopping da zona sul do Rio. Já havia desistido do curso de interpretação quando surgiu o convite para fazer um teste para Malhação. Ganhou o papel de Lula, um professor da academia, e embolsou um salário mensal de R$ 600. Dali até conquistar o papel de Aramel em Hilda Furacão, no ano passado, foi um pulo. Logo depois, ganhou o papel de Vicente, na segunda versão da novela Pecado Capital. Glória Perez, autora da minissérie e da novela, diz que Thiago foi uma surpresa. “É um ator sério e com vontade de aprender.”

Desde que começou a protagonizar Terra Nostra, a vida do ator deu uma guinada. Sua rotina atual em nada lembra a vida pacata que tinha antes de encarnar o italiano Matteo. A secretária eletrônica do apartamento em que mora com os pais e a irmã Juliana, de 19 anos, na Tijuca, na zona norte do Rio, registra 500 ligações de fãs, diariamente. “Temos que trocar as fitas várias vezes”, reclama a irmã. “Não me incomodo de dar autógrafos, mas fico chateado quando as pessoas invadem minha privacidade.”

Thiago tem tirado de letra o assédio e até as cantadas inconvenientes. Só não engole vulgaridade. “Já fui cantado por uma mulher famosa. Ela mandou dizer que era a Fulana de Tal e que queria me conhecer”, conta. “Não quis nem ouvir. Não gosto de me sentir como um produto com a etiqueta de promoção.” Diz que o primeiro parágrafo de sua cartilha é o de preservar sua vida pessoal. Também tem feito ouvidos de mercador aos boatos de que é gay. Avisa que não tem nenhum preconceito contra os homossexuais, mas se aborrece com as especulações sobre sua opção sexual. “Eu não sou gay. Se fosse, não teria problema em assumir.” Thiago deixa claro quais são suas propostas profissionais. Posar nu, por exemplo, nem pensar. “Não quero me expor, minha proposta não é essa.” Pensa um pouco e diz que talvez abra uma exceção se tiver que fazer uma cena importante para a trama. Também não faz comerciais de cigarros. Ele conta que sua única experiência com drogas se limitou a experimentar maconha. “Não faz a minha cabeça.”

Envie esta página para um amigoO jeitão discreto já é conhecido de quem compartilha da intimidade do ator. Ele não esconde que é namorador, mas ressalta que seus romances sempre são reservados. A ex-namorada Isabella Amuir, uma publicitária de 21 anos que namorou Thiago por quase dois anos, entre 1994 e 1996, acredita que ele foi fiel durante o namoro. “O Thiago é uma pessoa bem-humorada, sincera e leal”, diz. Isabela não se esquece do início de 1996, quando eles resolveram dar um tempo porque ela iria passar uma temporada nos Estados Unidos. “Quando voltei, me surpreendi. Ele estava me esperando no aeroporto”, lembra. Os dois se conheceram em 1992, quando nadavam juntos no América Futebol Clube.

Aliás, os melhores amigos do ator são da época em que ele era nadador. Thiago Lacerda começou a nadar aos 3 anos, no América, e só parou em 1996, quando defendia o Tijuca Tênis Clube. Entre as 170 medalhas, estão as de campeão brasileiro e campeão carioca. Depois de muitos anos dedicados à natação, resolveu parar. “Cansei de contar ladrilhos, já não tinha mais vontade de ir aos treinos”, lembra. O que o ator nunca perdeu foi a vontade de ir para Recreio, uma pequena cidade do interior de Minas Gerais, onde seus pais nasceram. Foi lá que passou a infância e a adolescência. Em Recreio, ele é conhecido como Thiagão. Lá, anda de chinelos, bermudas e sem camisa.

Eduardo Coimbra de Almeida, de 22 anos, que o diga. Os dois se conhecem desde os três anos e sempre passaram as férias juntos, em Recreio. Eles integravam a Turma da Bat (numa alusão à “batcaverna”) que promovia festinhas com as meninas da cidade. “Aprontávamos muito. Basta olhar para a cara do Thiago para perceber que ele não tem nenhuma dificuldade com as mulheres”, diz Eduardo. O amigo lembra-se de uma vez em que passaram o Carnaval em Piúma, no Espírito Santo. Eduardo paquerava garotas que estavam em cima de um trio elétrico. Achou que estivesse agradando. “Quando tentei subir no caminhão do trio, elas gritavam que não era comigo e apontavam para o Thiago”, diverte-se. A irmã Juliana endossa: “O Thiago sempre foi o galã da galera”, diz.

Foi numa dessas festinhas da Bat que Thiago Lacerda viveu sua primeira experiência sexual. O ator se diverte ao lembrar que desde os 13 anos vinha “tentando”, mas alguma coisa sempre atrapalhava. Chegou até a ir a um bordel em Recreio. Quando já estava com 15 anos, conheceu uma menina da cidade. Saíram algumas vezes e, numa festa, acabou acontecendo. “Não foi nada de especial, mas também não foi ruim”, recorda. O ator também era conhecido pelo sucesso que fazia com mulheres mais velhas. Conta que já namorou algumas de 30 anos. “Mas prefiro uma menina da minha idade.” Atualmente, ele garante que está sem namorada, mas diz que sua preferência é por mulheres discretas e simples. “Não gosto de freira, mas odeio mulher escandalosa”, avisa.

Juliana conta que o irmão é muito obstinado e que consegue o que quer porque corre atrás. Os dois sempre foram ligados e mesmo agora, que ele virou um ídolo, continuam inseparáveis. Ela, que tinha os cabelos cacheados na infância, chegou a despertar uma ponta de inveja em Thiago. Quando a menina dormia, ele cortava os cachinhos da irmã e os jogava no vaso sanitário. “Ele tinha uns 5 anos e ficava com ciúmes porque nossos tios sempre falavam dos meus cachos”, lembra. Embora se dedique a tudo que faz, o ator nunca foi estudioso. “Ele sempre foi muito inteligente, só estudava para passar de ano.” Mas sempre teve sorte. Apesar de não ter se preparado, foi aprovado na primeira vez que fez vestibular. “Ele era um capetinha”, diz a irmã.

Thiago não está desperdiçando oportunidades de ganhar dinheiro. Mesmo porque sua ascensão pode ser medida pela agenda de trabalho. Guilherme Abreu, empresário do ator, conta que os fins de semana estão preenchidos com compromissos como bailes de debutantes, inauguração de boates e festas até janeiro do ano 2000. Sem contar as campanhas publicitárias. O ator acaba de assinar contrato de um ano com a Caixa Econômica Federal para ser garoto-propaganda da poupança. Uma pesquisa feita pela instituição descobriu que muitos poupadores são imigrantes e que Thiago é o ator com quem mais se identificam.

Sem réveillon

Ele fechou negócio com a rede de supermercados Guanabara e com a Tess Express, empresa de telecomunicações responsável pela operação da banda B no interior e no litoral de São Paulo. Sem contar os lançamentos imobiliários em várias capitais. Cada apresentação em eventos e bailes lhe rende um cachê que oscila entre R$ 5 mil e R$ 10 mil. Também anima excursões para a Disney. Já fez duas e, até o fim do ano, fará mais uma. Enquanto a maioria dos artistas planeja festejar a chegada do ano 2000, Thiago acertou seu réveillon - só que vai trabalhar. Longe dos amigos e da família, ele será mestre de cerimônia da festa do Clube Casa Grande, no Guarujá.


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