25 de outubro de 1999
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Superação

A reviravolta das vi˙vas
Mulheres que perderam os maridos na queda do aviŃo da TAM, em 1996, reconstroem suas vidas

Carlos Henrique Ramos

Foto: PITI REALI

Heloísa Gouvea, 43 anos, tinha poucas preocupações até a manhã de 31 de outubro de 1996. Casada e feliz, administrava a educação dos filhos com zelo. Não se preocupava nem mesmo com a saúde financeira da casa, cuja responsabilidade era do marido, Luiz Fernando, alto executivo de um banco estrangeiro. Aquele conto de fadas, no entanto, desmoronou quando o Fokker 100 da TAM explodiu nas ruas do bairro paulistano do Jabaquara, zona sul da cidade. Luiz Fernando era uma das 99 vítimas que estavam no vôo 402, que ia de São Paulo para o Rio de Janeiro. Hoje em dia, quase três anos depois da tragédia que sensibilizou o País, a ex-modelo, de 1,71m e 61 quilos, mãe de Roberta, 17, Fernando, 16, e Camila, 10, literalmente dançou para superar a morte do companheiro. Bailarina profissional desde os 15 anos, estudou em Nova York, nos Estados Unidos, para formar-se em dança moderna. Hoje em dia, discursa com orgulho sobre a walk dance - uma técnica criada por ela, que une caminhada com dança. Helô, como gosta de ser chamada, é um poço de energia. Mantém uma academia própria, no bairro de Pinheiros, dá aula em outros dois locais e ainda participa de convenções pelo Brasil. "Não posso ficar parada", diz.

Curiosamente, o método da walk dance foi desenvolvido nos dias seguintes à morte do marido, sem que Helô percebesse. Naquela época, andava "sem rumo" pelas alamedas do Jardim Paulista, região nobre da capital paulista, para supe-rar o trauma da catástrofe. Dessas caminhadas, aliada com a paixão que sente pela dança, surgiu essa espécie de aeróbica que leva sua assinatura. "A dança ajudou a me levantar emocionalmente." A bailarina namora há dois anos. Mesmo apaixonada, confessa que ainda dói fazer o "videoteipe dos melhores momentos" do passado. "Os dias são longos, mas tenho energia e disposição de sobra para correr atrás da felicidade, por mais que seja difícil", revela.
A viúva Fátima Aparecida Vargas também corre atrás da felicidade. A sua história é muito parecida com a de Helô. O marido, José Wilson Nogueira, que tinha um salário mensal de R$ 4,5 mil, era o ponto de equilíbrio da casa. Ele também estava no avião da TAM. A mãe de Camila, 16, e Vinícius, 12, juntou os pedaços com a ajuda dos filhos para dar a volta por cima.

Envie esta pßgina para um amigoFátima, uma ex-bancária e sem formação superior, com apenas o velho diploma de colegial na gaveta, não se curvou diante das dificuldades com a morte do parceiro, gerente de uma multinacional da área de telecomunicações. Depois de superar a depressão, foi à luta para arrumar um emprego, apesar dos dez anos longe do mercado de trabalho. Para atualizar o currículo, fez curso de digitação. Começou a aprender inglês, mas a pensão de
R$ 1 mil que recebe mensalmente a impediu de continuar. "A educação dos filhos é mais importante", admite.

Ainda sem emprego, Fátima estuda outras opções para equilibrar o orçamento doméstico. Como não dispõe de capital para abrir um negócio próprio, procura um parceiro que invista numa representação de venda de lingerie. Ela já tem até mostruário de calcinhas e sutiãs. Diariamente, a ex-bancária coloca as peças íntimas dentro de uma bolsa e sai atrás de cliente, de porta em porta, oferecendo os produtos para lojas. "Recuperei minha atitude", garante. "Já não faço mais as coisas como se fosse um robô."

A energia que ilumina os passos de Helô e Fátima andou faltando à mineira Veneranda Simões de Almeida, 41 anos, nos 12 meses depois do 31 de outubro de 1996. A morte de Luiz Carlos Simões de Almeida, executivo de uma empresa de bebidas, mudou a rotina daquela mulher que vivia debaixo das asas do marido. "Sempre fui superprotegida", afirma. "Sei que era fútil, pois minha vida se resumia a ir ao shopping, comprar roupa e freqüentar academia", relembra a mãe de Lívia, 19, e Lucas, 14. "Depois de enfrentar essa tragédia, descobri que sou um ser pensante, que tenho condições de aprender alguma coisa."
Bem-humorada, Veneranda procura dar um novo sentido a sua existência. Depois de concluir o curso de Comunicação Social, Veneranda agora quer enfrentar a concorrência no mercado de trabalho, mesmo sem nunca ter tido um emprego, de cabeça erguida. No edifício onde mora, no bairro de Moema, na zona sul paulistana, andou sondando alguns amigos publicitários. Até agora, não obteve sucesso. "Tenho consciência de que meu currículo é pobre", diz, resignada. Com a cara e a coragem, foi procurar emprego em estabelecimentos comerciais. Fez várias fichas para o cargo de vendedora em lojas de decoração e roupas nos shoppings em que freqüentava. A esperança é a Internet. Com o auxílio de Lucas, colocou seu currículo na rede mundial de computadores. Por isso, pagou R$ 5. "Estou descobrindo meu potencial."

Enquanto Veneranda anseia por desbravar espaço e trabalho, a pintora baiana Nair de Carvalho ganha a vida dando aulas de técnica de pintura, em sua casa, no bairro do Pacaembu, região central da cidade. São cinco alunos que pagam R$ 30 por hora. Como professora, ela ensina os segredos de quem fez carreira internacional, com exposição nos Estados Unidos, Inglaterra, França e Áustria, entre outros países. Mas, desde o dia do acidente, Nair nunca mais pintou um quadro. Naquele avião estava o marido, Wolf Janstein, executivo de um banco brasileiro. "Estou seca de emoção", atesta. Assim como as outras viúvas da tragédia do vôo 402, a pintora acha que dará a volta por cima e, de uma hora para a outra, vai recuperar a inspiração. "Ainda acredito nisso porque tenho momentos de beleza e felicidade."

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