|
Música - Rap
Nádegas a
Declarar
Gabriel, o Pensador (Sony Music)
Ramiro Zwetsch
Foto:
KIKO CABRAL
|
O rap tem origem
nos redutos negros norte-americanos e suas letras destilam o horror
da discriminação na voz de quem a sentiu na pele.
Levando essa cartilha ao pé da letra, Gabriel, o Pensador
- que nasceu em família de classe média alta e aproveita
a moldura do rap para entoar letras debochadas - está distante
do teor social crítico que alimenta a essência desse
gênero musical. Por outro lado, também não se
pode negar - por simples preconceito - que seja compositor talentoso
na arte de criar rimas e competente para emplacar sucessos radiofônicos.
Em seu novo
disco, Nádegas a Declarar, na faixa de abertura - a autobiográfica
Cantão - ele tenta justificar a malandragem que
não vem do berço: É, nem parece que ele
é filho de bacana/A aparência às vezes engana/Mas
a grana, no caso, não faz diferença/A galera da favela
vai marcar uma presença.
Em Nádegas
a Declarar e Cachorrada, Gabriel dá motivos
para o público feminino se ofender: Arrebita a rabeta/arrebita
bem a bunda, vagabunda/que a bunda é tudo de bom que você
tem e Tô a fim de uma gata mas só tem cachorra/Tô
a fim de uma gata mas só acho canina/Vou soltar os cachorros
em cima são pérolas de uma pobre e machista
poesia. Está certo que rap sempre serviu de descarga verborrágica,
mas deve haver um limite. Tem muito rapper - com formação
menos sofisticada que Gabriel - que sabe respeitar uma mulher. No
mais, o disco tem produção impecável - assinada
na maioria das faixas pelo experiente Liminha - e acompanhamento
instrumental dançante de primeira para o cantor destilar
letras de profundo mau gosto.
Nada a dizer
|