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12/11/2001
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ESPORTE
DANIELE
HYPÓLITO
A prata que brilha
como ouro
Filha de um manobrista e de uma costureira,
a ginasta que ganhou a primeira medalha de prata do Brasil num mundial,
sem patrocínio, leva uma dura vida no Rio
Carlos
Braga
| Reuters |
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Nos
anos 90, Daniele Hypólito dava estrelas na rua
São José Operário, em Santo André (SP),
imaginando-se a ginasta romena Nadia Comaneci. Nem atinava que isso
a levaria longe. Mais precisamente a Ghante (Bélgica), onde
conquistou domingo 4 a inédita medalha de prata para a ginástica
olímpica brasileira no torneio mundial. Dani, como é
chamada pela família, foi apoiada por Ronaldinho, que bancou
sua alimentação no Campeonato Pan-Americano, há
três semanas, no México. Lá, ela faturou o bronze.
Mas, sem o esforço dos pais, Walter e Geni Hypólito
ele manobrista, ela costureira , o Brasil teria deixado
escapar um talento.
| André
Durão |
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| Geni,
no armário de medalhas da filha: “Pagamos um preço alto, mas
quando vemos essas glórias da Dani é maravilhoso” |
No
domingo, Geni passou o dia rezando. À noite, uma amiga que
viu o resultado da competição pela internet ligou
para parabenizá-la. Todos em casa gritaram, choraram, abraçaram-se.
Fiquei completamente zonza. Não acreditava, diz
ela. Depois, rezaram para São Judas Tadeu, e Geni recolheu-se
para uma oração à Virgem Maria. Mais tarde,
numa ligação internacional de três minutos,
atendeu à filha eufórica. Mããe!
Ganhei a medalha de prata!, gritava Daniele. Quando
subi ao pódio chorava e ria. Não acreditava que a
medalha era minha!
| Álbum
de familia |
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Fã de Guga: pedido de foto durante um encontro casual nas Olimpíadas
na Austrália |
Inacreditável
ou não, a medalha chegou depois de muita luta. Os pais mudaram
a vida para investir na carreira da filha, convidada em 1995 pela
técnica Georgette Vidor para treinar no Flamengo. Pagamos
um preço alto, mas quando vemos todas essas glórias
da Dani é maravilhoso, conta Geni, 43 anos. A família
deixou para trás casa, trabalho, colégio e se mudou
para o Rio. Sem emprego em vista, Walter demitiu-se da fábrica
onde havia trabalhado por 15 anos como operador de terraplenagem.
Geni deixou os "bicos" que fazia como costureira. Junto
com os filhos Edson, 19 anos, e Diego 15, chegaram ao Rio em fevereiro
de 1995.
Achamos
que encontraríamos emprego logo, mas não foi assim,
relembra Geni. O pai da ginasta passou a transportar os atletas
do Flamengo em seu carro, um Escort. O trabalho durou pouco. O carro
foi roubado e ele passou seis meses desempregado. Quando o
dinheiro do seguro foi liberado, só deu para comprar uma
Belina cheia de defeitos.
Até
agosto, eles contavam com ajuda do Flamengo. Depois acabou. Mas
ainda moram num apartamento cedido pelo clube, no bairro do Flamengo,
no Rio. Walter é manobrista numa academia da zona sul, mas
Daniele, que chegou a pagar a escola do irmão mais velho,
está sem patrocínio.
| Álbum
de familia |
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Com Oscar, que também treina no Flamengo. Ele mede 2,04m, ela
apenas 1,45m |
Por
pouco, a ginasta não teve a carreira interrompida. Em 20
de maio de 1997, o ônibus em que viajava com a equipe do Flamengo
rumo a Curitiba chocou-se contra uma carreta na via Dutra. A treinadora
Georgette Vidor ficou paraplégica e sete pessoas morreram.
A melhor amiga de Daniele, Úrsula Flores, ficou em coma,
recuperou-se, mas abandonou o esporte por causa das lesões.
Daniele feriu o pé direito.
Casa
e escola resumem o dia-a-dia dessa tímida mas agitada virginiana.
Daniele, que cursa o segundo ano do ensino médio, se sai
bem nas matérias, mas este ano precisará de professor
particular para matemática e inglês. Ela tem
uma rotina pesada e perde aulas para competir, diz a mãe.
Daniele pensa em cursar Educação Física ou
Medicina Esportiva.
Nas
folgas, sábado à tarde e domingo, ela assiste ao programa
Raul Gil e vai à missa na igreja de Santa Mônica, no
Leblon, ou na Santíssima Trindade, perto de casa. Na semana
acorda às 6h e treina até o meio-dia. Depois da escola,
mais treino das 17h30 às 20h. Não preciso cobrá-la,
diz Geni. Hoje acho que, se pensássemos um pouco mais,
não teríamos vindo para o Rio. Mas, como diz a Dani:
nada acontece com a gente que já não esteja escrito.
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