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01/10/2001

RELIGIÃO

ROBSON RODOVALHO
Administrador da fé
Quem é o criador da igreja Sara Nossa Terra, com 350 templos no Brasil e cinco no exterior, que conquista a fé de cantores, atrizes e jogadores de futebol

Cecília Maia

Felipe Barra

Robson Rodovalho diz ter ouvido a voz de Deus aos 15 anos, e, tempos depois, criou sua própria igreja: “As igrejas evangélicas eram desorganizadas. Eu quis criar uma que fosse nacional e tivesse uma nova visão administrativa e profissionalizada”, diz

“Deus me disse: ‘Vou transformar a sua vida’.” Calorosamente, o líder religioso Robson Rodovalho narra a cena que diz ter vivido aos 15 anos. Estava à beira de um rio durante um acampamento em sua cidade natal, Anápolis (GO), depois de ter passado pelo trauma do acidente da irmã, vítima de traumatismo craniano num acidente de carro. “Veio uma grande luz sobre mim. Senti a presença de Deus e, depois de seis horas de êxtase, ouvi aquela voz.” Aos 46 anos, o mais novo ícone da pregação do evangelho atribui a essa experiência sua decisão de tornar-se um evangelizador. “Sou um líder pregador desde essa idade”, diz. Rodovalho é fundador da igreja Sara Nossa Terra, que tem 100 mil seguidores, 350 templos no País e outros cinco no exterior. “As igrejas evangélicas eram desorganizadas. Eu quis criar uma que fosse nacional e tivesse uma nova visão administrativa e profissionalizada.”

Silvana Garzaro

O bispo Wesley Bandeira e sua mulher Liana, e os filhos Samuel e Mariana (atrás): bispo à frente de 28 igrejas somente em São Paulo

Conseguiu. O poder de influência de Sara Nossa Terra é tamanho que a igreja é dona de um canal de TV a cabo, o SNT TV, da Rede Gêneses de TV e de uma tevê aberta que alcança 30 cidades. Mantém duas editoras: a Koinomia e a Sara Brasil, responsáveis pela publicação mensal de um jornal, uma revista e 20 títulos de livros, com mais de 500 mil cópias vendidas. Nos próximos dias, vai inaugurar uma rádio FM em Brasília. “Se o dinheiro é usado pelo mal, por que não usá-lo para o bem?”, ele defende. Mais do que ter divulgação pelos próprios veículos de comunicação, Rodovalho tem ovelhas célebres em seu rebanho, o que propaga o sucesso da Sara Nossa Terra.

Na lista de fiéis famosos, estão a cantora Baby do Brasil, a apresentadora Monique Evans e o jogador Marcelinho Carioca. A atriz Leila Lopes não gostava do ambiente tenso da Rede Globo quando encarnava a personagem Suzana na novela O Rei do Gado, em 1996. Conheceu a Sara Nossa Terra pelas mãos de amigos: “A igreja tem postura flexível. Não preciso recusar papéis ou deixar de trabalhar por causa da religião. Ela aceita inclusive que eu faça cenas íntimas”, diz. O executivo Rubens Batista, diretor financeiro do Hipermercado Macro, um dos maiores atacadistas brasileiros, é outro caso. Encontrou conforto na igreja através dos cantos. Há três anos, foi tesoureiro: “Se o objetivo fosse apenas o lucro a igreja não teria crescido tanto”, garante.

Quando o vocalista Rodolfo deixou a banda Os Raimundos, a igreja foi apontada como o pivô de sua saída. Evangélico há algum tempo, ele não parece inteiramente fisgado e diz que só foi à igreja uma vez: “Acho o pessoal dessa igreja muito marqueteiro”. Ao mesmo tempo, parece dividido e entrega seu lado simpatizante. “A Sara é uma bênção de Deus, porque tira muita gente do caminho ruim”, resigna-se ele, que diz ter largado as drogas de vez.

A relação de Rodovalho com a religião vem de pequeno. Filho de pai católico e mãe espírita, ele participava de cultos onde animais eram sacrificados por líderes espirituais na fazenda onde morava com a família. “Eu invocava os guias dos rituais mas não conseguia resultado”, diz. Aos 14 anos, o jovem viu um homem morrer em seus braços. Morava em Anápolis, e como todos os filhos de fazendeiro da região, participava de caçadas noturnas nas matas da redondeza. “Minha arma explodiu e atingiu o caseiro da fazenda de meu pai”, conta. Nessa época, nos rincões do sertão, a morte de um caseiro não era motivo para investigação policial, fato que aliviou a família Rodovalho. Mas o rapaz começou a se questionar sobre o sentido da vida. O tempo passou e a violência virou tema banal em seu cotidiano. “Eu andava armado e tinha uma turma. Saíamos para brigar, bebíamos e usávamos drogas leves”, recorda.

Depois da experiência divina que diz ter vivido, virou evangélico. Abandonou as noitadas, a turma de brigas, as armas e as drogas. Mas só à beira de entrar na maioridade, Robson Rodovalho fundou a Comunidade Evangélica de Goiânia. Lá, virou pastor e conheceu sua esposa, Maria Lúcia de Brito Rodovalho, hoje com 44 anos. Ela freqüentava seus cultos e com a aliança no dedo esquerdo virou bispa da igreja. Tiveram três filhos: a dentista Priscila, 24 anos, e os estudantes Samuel, 23 anos, e Ana Lia, 20 anos. Famoso no sertão de Goiânia, Rodovalho sentiu-se pronto para fundar a própria igreja evangélica. Em 1992, mudou-se com a família para Brasília e fundou a igreja Sara Nossa Terra.

Rodovalho tem na gaveta o canudo de física, profissão que abraçou ainda jovem. Ensinava os segredos da mecânica e da eletromagnética para vestibulandos em Goiânia. Mas não foram as teorias de Einstein que chamavam mais a atenção dos alunos. Rodovalho é daquelas pessoas que encanta o mais cético dos humanos. Tanto que entre as multidões que arrasta para ouvir suas preces, há uma legião de famosos. “Acho que atingimos essas pessoas pelo alinhamento intelectual. Eu sou professor licenciado em física e os outros bispos são profissionais liberais”, filosofa.

E o bispo já produz discípulos. O bispo Wesley Bandeira, de São Paulo, é um exemplo. Freqüentava a Igreja Presbiteriana do Planalto até conhecer Rodovalho, há nove anos. “Estava procurando alguma coisa que me fizesse sentir a ação de Deus. Quando o vi falando, disse: ‘Quero isso’. Daí a gente fez aliança”, conta o bispo Bandeira. Resultado: hoje Bandeira está à frente de 28 igrejas em São Paulo e com prédios próprios em Santa Bárbara, Limeira e na capital paulistana.

Ovelhas da Sara Nossa Terra
Rodolfo, ex-vocalista dos Raimundos, ainda não aderiu inteiramente à igreja, mesmo sendo evangélico: “Eles são marqueteiros”, critica. A atriz Leila Lopes (à esq.) discorda: “A igreja aceita que eu faça cenas íntimas”, diz. E Rubens Batista, executivo financeiro do Hipermercado Macro: “Se o objetivo fosse apenas o lucro a igreja não teria crescido tanto”

 

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