13 de outubro de 1999
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João Cabral de Melo Neto
Morre, aos 79 anos, o poeta e embaixador que escreveu Morte e Vida Severina

FOTO: PEDRO AGILSON

FOTO: PEDRO AGILSON

O poeta João Cabral de Melo Neto, tido como um dos mais importantes nomes da literatura mundial deste século, viveu 79 anos de contradições. Nasceu em berço esplêndido no ano de 1920, em uma das tradicionais famílias de senhores de engenho que, em 1956, ele condenaria no poema Morte e Vida Severina: Auto de Natal Pernambucano. Passou a vida jurando ser ateu e omitindo traços de emoção em sua obra, mas morreu enquanto rezava o pai-nosso ao lado de sua segunda mulher, a escritora Marly de Oliveira, no sábado 9, em seu apartamento no bairro do Flamengo, zona sul do Rio de Janeiro. “Ele foi, antes de tudo, um grande humanista, cuja poesia era impregnada de aspectos sociais”, disse o vice-presidente Marco Maciel.

O destino também contribuiu para suas incoerências. Leitor voraz desde a infância, há quatro anos ficou incapacitado de ler, vítima de uma doença degenerativa que o levou à cegueira. O mesmo homem inquieto que desancou a escola parnasiana de poesia já em seu primeiro livro, Pedra do Sono, de 1942, e que viveu mais de duas décadas perambulando por seis países em três continentes como diplomata, passou os últimos anos de vida consumido por uma depressão crônica que o impedia até de sair de casa. “Ele estava muito infeliz e queixava-se da escuridão”, conta a escritora e amiga Rachel de Queiroz.

A cegueira no fim da vida contrasta com as cores dos lugares em que viveu. Nascido às margens do Capibaribe, rio que corta a cidade de Recife, e criado entre os canaviais da família, ele mudou para o Rio de Janeiro aos 22 anos e depois para a Espanha, aos 27, como vice-cônsul em Barcelona. As cenas de canavial e de seca, a literatura de cordel, o convívio com escritores como Carlos Drummond de Andrade e Josué Montello, o levaram a iniciar-se e impregnaram sua literatura, em uma carreira iniciada em 1942 e que o levaria à cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1969. “Ele era um poeta muito visual, talvez por isso não escutasse música”, explica Marly. Primo do poeta Manuel Bandeira e do sociólogo Gilberto Freire, seu primeiro casamento foi com Stella Maria Barbosa de Oliveira, neta do jurista Rui Barbosa. Seu destino com as letras estava selado. “Era um poeta de inspiração regional, mas a excelência de seus versos fez dele um dos poetas mais universais que o Brasil já teve”, disse o economista e colega de academia Roberto Campos.

Até alcançar o prestígio de ser considerado a única chance brasileira de conquistar um Nobel de literatura, ele precisou amargar uma vida burocrática de funcionário público desde os 17 anos, primeiro no Departamento de Estatística de Pernambuco, depois como diplomata, de 1945 a 1990. Como tal, sofreu perseguição do político de direita Carlos Lacerda, que o acusou de subversão por ter mantido contato com a guerrilha republicana espanhola. Durante quase 50 anos, sofreu constantes crises de enxaqueca, o que o levou a compor uma poema em homenagem à aspirina.

João Cabral deixa cinco filhos, de seus dois casamentos. Foi velado no Salão dos Poetas Românticos da ABL e teve uma missa de corpo presente rezada pelo padre Fernando Bastos de Ávila, também imortal. Seu enterro, no Mausoléu da ABL do Cemitério São João Batista, no Rio, no domingo 10, foi simples e discreto. O governo do Estado declarou oito dias de luto oficial. “Sua poesia fica, mas a perda humana é muito grande”, afirmou o ex-ministro e embaixador Marcílio Marques Moreira.


João Jorge Saad
Fundador da Rede Bandeirantes, o empresário morre de câncer aos 80 anos

João Saad, descendente de sírios que fundou a Rede Bandeirantes de Televisão, morreu no domingo 10, vítima de câncer generalizado contra o qual lutava há dois anos, em sua casa no bairro paulistano de Higienópolis. Saad, que abandonou a escola nos últimos anos do ensino fundamental e foi vender tecidos pelo interior paulista a bordo de um Ford 1929, ganhou a Rádio Bandeirantes do sogro, o governador Adhemar de Barros, em troca de apoio a campanhas eleitorais. Sobre ela, o filho do comerciante Jorge Saad, de Damasco, na Síria, que desembarcou no Brasil no começo do século, construiu a Rede Bandeirantes, uma das maiores do País. Entre histórias curiosas da empresa sob seu comando está o incêndio que destruiu os estúdios da emissora justamente no dia em que as tevês do mundo todo transmitiam os preparativos para o lançamento da nave Apollo 11 rumo à Lua, em 1969. No entanto, a corrida espacial permitiu que a rede fosse a primeira a transmitir por satélite no País, em 1975. A mulher de Saad, Maria Helena, morreu em 1996 também vítima de câncer. Ele deixa cinco filhos e doze netos. Seu corpo foi cremado na segunda-feira 11, no crematório da Vila Alpina.


Zezé Macedo, a “Dona Bela” da Escolinha do Professor Raimundo, morreu devido a um derrame cerebral na sexta-feira 8, aos 83 anos, na clínica onde estava internada no Rio de Janeiro desde 26 de agosto.

Com o bordão “Só pensa naquilo”, da personagem Dona Bela, Maria José de Macedo interpretava mais uma das mulheres feias que consagraram sua carreira, iniciada no teatro aos 4 anos. Ela desistiu de ser atriz aos 15, ao casar-se com o mecânico Alcides Manhães, mas retomou a carreira quando seu único filho morreu, com 1 ano de idade. Vieram as chanchadas da Atlântida, nas quais contracenou com Oscarito e Grande Otelo, e a TV Tupi. Fez 108 filmes. Zezé dedicou-se também à poesia, com quatro livros publicados. Apesar de interpretar feias, ela era vaidosa: fez plásticas e não gostava de revelar a idade. Ela deixa o marido, Vitor Zambino, com quem esteve casada por 38 anos e não teve filhos. Seu corpo foi cremado no cemitério São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro, no sábado 9. As cinzas dela foram jogadas no jardim do prédio onde morava. “O humor está de luto”, lamentou o ator Moacir Deriquém.

O cantor e violeiro Ranulfo Ramiro da Silva, o Xavantinho, da dupla caipira com Pena Branca, uma das mais importantes do gênero, morreu de insuficiência respiratória e falência múltipla dos órgãos na sexta-feira 8, aos 56 anos, em São Paulo.

Ele nasceu em Uberlândia (MG), onde trabalhou na roça com os cinco irmãos. Um deles, José Ramiro Sobrinho, 61, adotaria o nome artístico de Pena Branca para formar “a mais importante dupla caipira do Brasil”, na avaliação do músico Martinho da Vila. Entre os trabalhos de Xavantinho, considerados referência por músicos como Milton Nascimento e Renato Teixeira, está a canção “Cio da Terra”, que levou a dupla à consagração de público e crítica. Segundo o irmão, Xavantinho estava debilitado desde que sofreu um acidente de carro, há cinco anos. Estava em cadeira de rodas, mas continuava fazendo o que aprendera com o pai: cantar e tocar violão. Deixa quatro filhos. O músico foi enterrado no sábado 9, no cemitério Parque dos Pinheiros, no Jaçanã, São Paulo.

Milt Jackson, o maior vibrafonista de todos os tempos, morreu de câncer do fígado no sábado 9, no hospital St. Luke’s-Roosevelt de Nova York, aos 76 anos.

Considerado purista e autêntico, Jackson criou um estilo único no vibrafone - mais conhecido como marimba, uma espécie de “piano” de placas de metal. Ele foi a alma do Modern Jazz Quartet por mais de quatro décadas, com sua virtuosidade em ritmos como blues e bebop. Nascido em Detroit, em 1923, ele aprendeu sozinho a tocar violão aos 7 anos de idade, tomava lições de piano aos 11 e aos 15 já tocava cinco instrumentos, além de cantar em um coral de música gospel nos fins de semana. Deixa a esposa, Sandra, uma filha e três irmãos.

O romancista australiano Morris West, autor dos best-sellers As Sandálias do Pescador e O Advogado do Diabo, morreu no domingo 10 vítima de um ataque cardíaco, em Sydney, aos 83 anos.

Um de seus seis filhos, Chris O’Hallon, disse que West sentiu-se mal quando estava no escritório escrevendo seu mais novo livro. O último título do escritor lançado no Brasil, A Eminência, trata de um tema que foi recorrente em sua obra, os bastidores e intrigas de poder da Igreja Católica. A obsessão pelo tema tem origem na formação familiar e no trabalho do escritor. Filho de fervorosos católicos irlandeses, ele foi também correspondente no Vaticano quando jornalista. Profético, ele previu em As Sandálias do Pescador, de 1963, que o mundo católico teria um papa nascido no leste europeu. Em 1978, o polonês Karol Wojtyla foi eleito para o cargo e transformou-se em João Paulo II. O funeral do escritor estava marcado para a quinta-feira 14.

 

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