14 a 21 de outubro de 1999
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Saraminda, a musa de Sarney
A história de uma crioula fogosa e sedutora, tema de seu segundo romance, faz o ex-presidente acelerar a troca da carreira de político pela de homem das artes

Cláudia Carneiro

Foto: ROBERTO JAYME

"Seus seios, pontiagudos, brilhavam como o ouro. Talvez fosse esse o maior encanto que a crioula Saraminda, de sangue francês, tenha exercido sobre Serapião Bonfim, o abastado garimpeiro que no final do século passado dominou parte das riquezas da região de Calsuene, entre o Brasil e a Guiana Francesa. Serapião desejou profundamente aquele corpo sensual. Arrematou-o por 10 quilos de ouro, em um leilão em Caiena, capital guianense, e levou Saraminda para o garimpo, onde ela reinaria absoluta. Lá, tornou-se escravo dos caprichos dela. Ela se banhava no rio com cachorros trazidos de regiões distantes e andava despida na carruagem, um tílburi importado da França, cortinas fechadas, somente para enlouquecer os habitantes daquele local."

A lendária Saraminda nasceu na imaginação do advogado, professor, escritor, pintor, jornalista, ex-presidente da República e atual senador José Sarney, 69 anos. O novo romance, que tem 200 páginas já escritas, poderá ser comprado nas livrarias em fevereiro do ano 2000. A personagem que dá nome provisório ao livro nem de longe lembra o estilo contemporizador que marcou a carreira de Sarney. Com o apoio de Saraminda, ele tem se despido gradativamente do papel de cacique político para assumir a figura de homem das artes.

José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, que depois de ingressar na vida pública incorporou o nome do pai, quer distância da política. Justo agora que está próximo de completar 45 anos de carreira. Logo ele, que alcançou o mais alto posto desejado pelos profissionais do ramo, viajou pelos cinco continentes como chefe de Estado brasileiro, aproximou-se de líderes históricos, como Mikhail Gorbachev, e, por último, ajudou a reeleger a filha Roseana como governadora do Maranhão e emplacou o filho caçula, Zequinha Sarney, no cargo de ministro do Meio Ambiente no governo de Fernando Henrique Cardoso. Nos últimos tempos, o senador Sarney tem se esquivado de contatos políticos em nome dos filhos. Por isso, aproveitou para mergulhar mais fundo no envolvente terreno das artes. “A política tem um pouco de realidade e ficção: estou na fase da ficção”, traduz.

O escritor Sarney acumula 34 obras literárias publicadas em português e outros cinco idiomas, entre contos, poesias, novelas curtas, ensaios políticos e romance. O Dono do Mar, seu primeiro sucesso como romancista, está em sua oitava edição em português. Também foi traduzido para o espanhol, romeno, árabe e francês. O romance começa a ser filmado no próximo mês. Como fez com O Dono do Mar, quando pesquisou a vida dos pescadores de seu Estado, para escrever Saraminda ele percorreu os garimpos da fronteira com a Guiana Francesa recolhendo histórias, com bloquinho de anotação e máquina fotográfica. O gosto pela literatura nasceu numa velha estante entupida de livros do avô paterno, Adriano, em Pinheiro, interior do Maranhão. Lá, o menino Sarney, então com seis anos, tirou sua primeira leitura: As Primaveras, de Casimiro de Abreu. Aos 17 anos ganhou seu primeiro emprego como jornalista no Imparcial, do Maranhão. Leu e releu Padre Vieira, “para aprender a escrever”, como ordenava seu pai.

Mais pimenta
Em sua nova casa, localizada na Península dos Ministros, área mais nobre de Brasília, ele passa parte da noite no meio de um acervo de 6 mil livros - que já foram 50 mil, até serem doados ao Memorial José Sarney, um majestoso prédio onde funcionou o convento das irmãs mercedárias, em São Luís do Maranhão. Escreve num potente computador, colocado estrategicamente no subsolo da casa, transformado em biblioteca. Sua obra não sofre a interferência do político, esclarece ele. Mas não escapa dos palpites de Marli, 68 anos, com quem é casado há 47 anos. “Eu sempre dou palpite”, confirma ela. Provavelmente foram as pitadas da mulher que deram o sabor especial ao primeiro romance do marido. “Ponha mais pimenta, mais pimenta!”, repetia a ex-primeira-dama, quando recebia os originais de O Dono do Mar para ler.

José Sarney é um senhor de muitos talentos e posses. Já distribuiu aos amigos quase 200 telas pintadas por ele, habilidade que costuma definir como “terapia ocupacional”. Ainda é carinhosamente chamado de “caro colega” pelos médicos do Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, por sua antiga mania de decorar bulas de remédios e receitá-los aos familiares e amigos. “Nunca deu errado”, diz. Além de hipocondríaco, o senador é um conhecido supersticioso. Foge de qualquer pessoa trajada de marrom e sempre sai pela mesma porta pela qual entrou, “para não deixar o anjo da guarda para trás”. A vida financeira também está cada vez melhor. Aposentado pelo Tribunal de Justiça do Maranhão, o senador reúne com Marli, herdeira de uma das mais ricas famílias maranhenses, e os três filhos um patrimônio que vai desde a Ilha do Curupu, em São Luís, até a Rede Mirante de Televisão, retransmissora da Rede Globo no Estado, e o diário O Estado do Maranhão. A literatura, enfim, não é apenas prazer: “Começa a pingar algum dinheiro”, conta, matreiramente.

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