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Carreira
Tony
Tornado volta a sacudir
O
cantor de "BR-3", que lutou em Suez e traficou drogas no Harlem,
participa de CD de soul music
Rodrigo
Cardoso
Em 2000,
fará 30 anos que Antônio Viana Gomes, nascido
em Mirante do Paranapanema, interior de São Paulo,
deixou boquiabertas 40 mil pessoas no Maracanãzinho,
Rio de Janeiro. No palco, o cantor negro e esbelto, de cabelo
black power, sem camisa e com um sol desenhado no peito, berrou
um bocado para vencer o Festival Internacional da Canção,
com a música "BR-3", de Antônio Adolfo
e Tibério Gaspar. Ele desbancou Caetano Veloso, Gilberto
Gil e Jair Rodrigues e subiu ao posto de estrela da MPB. Hoje
ele vive com a mulher e um de seus quatro filhos numa casa
confortável em Jacarepaguá, zona oeste do Rio,
tem 69 anos e pesa 130 quilos. Funcionário da Globo,
ele mantém o gingado, ponteia suas frases com a gíria
black "Dom" (espécie de "chapa")
e sonha em soltar a voz de novo. "A música é
meu xodó, Dom. Atuo na tevê para não ficar
parado", diz.
Voltar
a cantar virou fixação para o ator. Há
dois anos, ele gastou R$ 10 mil em um aparelho de som que
usa em gravações. Tornado gravou e enviou músicas
para Fábio Jr. e Sandra de Sá. Fez também
três novas versões de "BR-3". O cantor
Ivo Meireles, vocalista do grupo Funk'n' Lata, fechou contrato
com a Warner para produzir um CD que reunirá os ícones
da black music brasileira. Tornado compôs uma música
e irá para estúdio em novembro. "Tem gente
que não sabe que fui cantor. Isso me chateia, Dom",
diz o ator. Um show marcará o lançamento do
CD, em março. "Tornado voltará a cantar",
diz Meireles.
Aos 11
anos, Tornado deixou a casa dos pais e viajou de carona até
o Rio de Janeiro. Foi moleque de rua, vendia amendoim de dia
e engraxava sapatos à tarde. À noite, dormia
em trens ou sob viadutos. Em 1957, foi para o Oriente Médio
participar da guerra pelo Canal de Suez, entre Egito e Israel.
Nos anos 60, trabalhou com traficantes do Harlem, em Nova
York: anotava pedidos de drogas dos viciados. "No Brasil
era papelote, lá era caixa de sapato", lembra.
Tornado tinha um Cadillac e usava cabelo colorido, mas estava
ilegal no país. Vestia o uniforme de um lava-rápido
para enganar a imigração. Cinco anos depois,
foi obrigado a deixar o país. "Fui cagüetado",
diz.
Ao desembarcar
no Rio de Janeiro, em 1969, não passou despercebido.
Com terno amarelo, sapato colorido e cabelo pintado, foi levado
para o DOPS, o extinto Departamento de Ordem Política
e Social. "Os policiais me chamavam de marciano",
conta. De volta ao Brasil, Tornado começou vida nova,
mas sem esquecer James Brown, de quem se tornou fã.
Seu primeiro emprego no Brasil foi como cantor de boate. O
patrão o proibia de falar português. "Eu
girava como um redemoinho. As prostitutas ficavam ouriçadas",
diz. Na época, Erasmo Carlos batia com o pandeiro na
coxa e era considerado o cantor que mais se agitava no palco.
"O Tony Tornado apareceu dando com o coturno no chão,
gritando, rodopiando e jogando os braços para todos
os lados. Não cantava nada, mas sua performance era
maravilhosa", afirma Waldenyr Caldas, professor de sociologia
da Universidade de São Paulo que estuda música
popular brasileira. "Ele trouxe a soul music para o Brasil
e inovou a coreografia da MPB."
Mas o
sucesso o pôs na mira da ditadura. Em 1972, num show
de Elis Regina, ele subiu ao palco e fez a saudação
dos Panteras Negras americanos. "Fui algemado logo que
desci", conta. "Na delegacia, o chefão me
fez cantar 'BR-3' para cada um dos policiais. Passei a madrugada
dando pirueta no chão do DOPS, Dom. Peguei raiva da
música", diz. A perseguição persistiu
nos seis anos em que namorou a atriz Arlete Salles. "Voltávamos
do cinema e encontrávamos bilhetes no pára-brisa
do carro: 'Branca suja, por que está com esse negro?'",
lembra. A comunidade negra passou a tachá-lo de burguês.
"Não entenderam que o amor não influenciava
minha ideologia. Por isso, larguei tudo", diz.
Hoje,
atua na novela Andando nas Nuvens. Mas o auge foi na minissérie
Agosto, em 1993, em que representou o chefe da guarda de Getúlio
Vargas, Gregório Fortunato. Da época de glória,
sobraram-lhe poucas fotos e meia dúzia de discos. Roupas,
jóias, sapatos e instrumentos musicais "estão
perdidos por aí". Alguns ficaram com a terceira
esposa, Francisca Maritza, de quem decidiu se separar na porta
de um açougue. "Ela havia me mandado comprar carne.
Era chata demais", diz ele. "No açougue,
fiquei olhando para o pacote de carne, a voz dela sumindo
da minha mente... Pensei: 'Aí, Dom, quer saber? Já
fui!'." Do açougue paulista, Tornado pegou um
avião para o Rio de Janeiro e deixou a mulher e as
lembranças para trás.
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