13 de outubro de 1999
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Carreira

Tony Tornado volta a sacudir
O cantor de "BR-3", que lutou em Suez e traficou drogas no Harlem, participa de CD de soul music

Rodrigo Cardoso


Em 2000, fará 30 anos que Antônio Viana Gomes, nascido em Mirante do Paranapanema, interior de São Paulo, deixou boquiabertas 40 mil pessoas no Maracanãzinho, Rio de Janeiro. No palco, o cantor negro e esbelto, de cabelo black power, sem camisa e com um sol desenhado no peito, berrou um bocado para vencer o Festival Internacional da Canção, com a música "BR-3", de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar. Ele desbancou Caetano Veloso, Gilberto Gil e Jair Rodrigues e subiu ao posto de estrela da MPB. Hoje ele vive com a mulher e um de seus quatro filhos numa casa confortável em Jacarepaguá, zona oeste do Rio, tem 69 anos e pesa 130 quilos. Funcionário da Globo, ele mantém o gingado, ponteia suas frases com a gíria black "Dom" (espécie de "chapa") e sonha em soltar a voz de novo. "A música é meu xodó, Dom. Atuo na tevê para não ficar parado", diz.

Voltar a cantar virou fixação para o ator. Há dois anos, ele gastou R$ 10 mil em um aparelho de som que usa em gravações. Tornado gravou e enviou músicas para Fábio Jr. e Sandra de Sá. Fez também três novas versões de "BR-3". O cantor Ivo Meireles, vocalista do grupo Funk'n' Lata, fechou contrato com a Warner para produzir um CD que reunirá os ícones da black music brasileira. Tornado compôs uma música e irá para estúdio em novembro. "Tem gente que não sabe que fui cantor. Isso me chateia, Dom", diz o ator. Um show marcará o lançamento do CD, em março. "Tornado voltará a cantar", diz Meireles.

Aos 11 anos, Tornado deixou a casa dos pais e viajou de carona até o Rio de Janeiro. Foi moleque de rua, vendia amendoim de dia e engraxava sapatos à tarde. À noite, dormia em trens ou sob viadutos. Em 1957, foi para o Oriente Médio participar da guerra pelo Canal de Suez, entre Egito e Israel. Nos anos 60, trabalhou com traficantes do Harlem, em Nova York: anotava pedidos de drogas dos viciados. "No Brasil era papelote, lá era caixa de sapato", lembra. Tornado tinha um Cadillac e usava cabelo colorido, mas estava ilegal no país. Vestia o uniforme de um lava-rápido para enganar a imigração. Cinco anos depois, foi obrigado a deixar o país. "Fui cagüetado", diz.

Ao desembarcar no Rio de Janeiro, em 1969, não passou despercebido. Com terno amarelo, sapato colorido e cabelo pintado, foi levado para o DOPS, o extinto Departamento de Ordem Política e Social. "Os policiais me chamavam de marciano", conta. De volta ao Brasil, Tornado começou vida nova, mas sem esquecer James Brown, de quem se tornou fã. Seu primeiro emprego no Brasil foi como cantor de boate. O patrão o proibia de falar português. "Eu girava como um redemoinho. As prostitutas ficavam ouriçadas", diz. Na época, Erasmo Carlos batia com o pandeiro na coxa e era considerado o cantor que mais se agitava no palco. "O Tony Tornado apareceu dando com o coturno no chão, gritando, rodopiando e jogando os braços para todos os lados. Não cantava nada, mas sua performance era maravilhosa", afirma Waldenyr Caldas, professor de sociologia da Universidade de São Paulo que estuda música popular brasileira. "Ele trouxe a soul music para o Brasil e inovou a coreografia da MPB."

Mas o sucesso o pôs na mira da ditadura. Em 1972, num show de Elis Regina, ele subiu ao palco e fez a saudação dos Panteras Negras americanos. "Fui algemado logo que desci", conta. "Na delegacia, o chefão me fez cantar 'BR-3' para cada um dos policiais. Passei a madrugada dando pirueta no chão do DOPS, Dom. Peguei raiva da música", diz. A perseguição persistiu nos seis anos em que namorou a atriz Arlete Salles. "Voltávamos do cinema e encontrávamos bilhetes no pára-brisa do carro: 'Branca suja, por que está com esse negro?'", lembra. A comunidade negra passou a tachá-lo de burguês. "Não entenderam que o amor não influenciava minha ideologia. Por isso, larguei tudo", diz.

Hoje, atua na novela Andando nas Nuvens. Mas o auge foi na minissérie Agosto, em 1993, em que representou o chefe da guarda de Getúlio Vargas, Gregório Fortunato. Da época de glória, sobraram-lhe poucas fotos e meia dúzia de discos. Roupas, jóias, sapatos e instrumentos musicais "estão perdidos por aí". Alguns ficaram com a terceira esposa, Francisca Maritza, de quem decidiu se separar na porta de um açougue. "Ela havia me mandado comprar carne. Era chata demais", diz ele. "No açougue, fiquei olhando para o pacote de carne, a voz dela sumindo da minha mente... Pensei: 'Aí, Dom, quer saber? Já fui!'." Do açougue paulista, Tornado pegou um avião para o Rio de Janeiro e deixou a mulher e as lembranças para trás.

 

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