13 de outubro de 1999
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Justiça

Edmundo na cadeia
Jogador já foi condenado a pagar R$ 807 mil em indenizações e agora terá de cumprir pena em regime semi-aberto por acidente que matou três pessoas

Luís Edmundo Araújo e Rosângela Honor

A última terça-feira, dia 5 de outubro, parecia mais um dia rotineiro na vida do atacante Edmundo Alves de Souza Neto, 28 anos. De manhã, ele foi à concentração do Vasco, no hotel Rio Othon, em Copacabana, fez musculação e ficou sabendo que seria poupado do jogo do time naquele dia, contra o Cerro Porteño, do Paraguai, pela Copa Mercosul, porque o time já não tinha mais chances na competição. O jogador ainda almoçou com os companheiros antes de voltar para casa. Por volta das 15h15, porém, um telefonema do advogado Arthur Lavigne mudou seu trajeto. O Tribunal de Justiça do Rio tinha acabado de manter a sentença da 17.ª Vara Criminal, que em março condenara o jogador a quatro anos e meio de prisão, em regime semi-aberto. Ele foi considerado culpado por ter provocado a morte de três pessoas no acidente com o Cherokee que dirigia na madrugada de 2 de dezembro de 1995, na Lagoa, zona sul do Rio.

Um acordo entre o vice-presidente jurídico do Vasco, Paulo Reis, e o diretor da Polinter, delegado Cláudio Nascimento, evitou que o jogador fosse preso na terça-feira. Enquanto isso, o advogado do atacante, Arthur Lavigne, tentava conseguir um habeas-corpus para seu cliente no Superior Tribunal de Justiça. No mesmo dia, instruído por seus advogados, Edmundo não apareceu em casa, num luxuoso condomínio na Barra, zona oeste da cidade.
Na noite do acidente, Edmundo e alguns amigos seguiram para a boate Sweet Home, na Lagoa, onde encontraram Joana Martins Couto, 16, e sua amiga Déborah Ferreira da Silva, então com 21 anos. Barrada na boate naquele dia, Joana ainda hesitou em aceitar a carona oferecida por Edmundo até o bar El Turfe, na Gávea, mas foi convencida por Déborah. Na esquina da avenida Borges de Medeiros com a rua Batista da Costa, na Lagoa, o Cherokee do atacante se chocou com o Fiat Uno cinza dirigido por Carlos Frederico Pontes, 24. O carro de Edmundo capotou várias vezes e ficou com as rodas para o ar, enquanto o Fiat foi jogado a uma distância de 30 metros e colidiu com um poste. Carlos Frederico morreu na hora. A namorada dele, Alessandra Cristina Perrota, 20, e Joana morreram algumas horas depois, no hospital Miguel Couto.

Déborah quebrou a bacia, a quinta vértebra da coluna e quase ficou paraplégica. Ela ainda está se recuperando do acidente. "Levei quase dois anos para voltar à vida normal", diz Déborah, que teve de largar o emprego de vendedora na loja Blue Man, em Ipanema, e perdeu as provas do vestibular naquele ano. Além das duas amigas, também estavam no carro do atacante do Vasco o empresário Marckson Gil Pontes, 31, e a estudante Roberta Campos, 19. Os dois ficaram levemente feridos, assim como Natasha Marinho Ketse, 19, que estava no Fiat Uno. A mãe de Joana, Eliane Artiaga Martins, 47, assistiu ao julgamento de terça-feira 5 na 6.ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça e aplaudiu a decisão dos desembargadores Eduardo Mayr, Erié Sales da Cunha e Maurício da Silva Lintz. "Pensei que iria encontrar uma pessoa arrependida, mas não foi isso que aconteceu", diz Eliane.
Os advogados das vítimas, Técio Lins e Silva e Avelino Gomes, garantem que, mesmo que o habeas-corpus seja concedido pelo STJ, Edmundo dificilmente escapará da prisão. "A sentença não feriu preceito algum da Constituição e, por isso, dificilmente será revogada", diz Técio, que representa a família de Joana.

O recurso ao Superior Tribunal de Justiça é a única alternativa que resta à defesa de Edmundo. Quando chegar ao tribunal superior, serão três as possibilidades. O STJ poderá se recusar a apreciá-lo, manter a decisão da Justiça do Rio ou modificar a sentença. A última possibilidade, no entanto, é considerada remota, já que a decisão do Tribunal de Justiça do Rio foi unânime. Se a sentença for mantida, Edmundo terá de cumprir no mínimo nove meses - um sexto da pena - até ter direito à liberdade condicional, em caso de bom comportamento. Sem curso superior, ficará em uma cela comum caso venha a ser preso. Se isso acontecer, ele dependerá do juiz da Vara de Execuções Penais para continuar jogando pelo Vasco. No regime semi-aberto, o condenado tem de se apresentar na prisão até às 22h, de onde só sai no dia seguinte. No caso do atacante vascaíno, a Justiça poderá levar em conta os horários dos jogos e liberar o craque até por alguns dias, para as partidas disputadas fora do Rio.

O acidente já proporcionou outras condenações, em ações cíveis movidas pelas vítimas. Déborah recebeu R$ 100 mil, mas seus advogados ainda cobram R$ 60 mil estabelecidos pela sentença. Roberta Campos entrou em acordo e recebeu três parcelas de R$ 40 mil. A família de Joana Martins Couto ganhou uma indenização de mais R$ 300 mil, mas não recebeu um centavo porque a sentença ainda está em fase de execução. O atacante também foi condenado a pagar R$ 227 mil à família de Alessandra Perrota - em processo no qual poderá ter sua mansão penhorada para garantir o pagamento da indenização. A família de Carlos Frederico Pontes ainda aguarda uma decisão da Justiça no processo que move contra Edmundo.

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