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Justiça
Edmundo
na cadeia
Jogador
já foi condenado a pagar R$ 807 mil em indenizações e agora
terá de cumprir pena em regime semi-aberto por acidente que
matou três pessoas
Luís Edmundo
Araújo e Rosângela Honor
A última
terça-feira, dia 5 de outubro, parecia mais um dia
rotineiro na vida do atacante Edmundo Alves de Souza Neto,
28 anos. De manhã, ele foi à concentração
do Vasco, no hotel Rio Othon, em Copacabana, fez musculação
e ficou sabendo que seria poupado do jogo do time naquele
dia, contra o Cerro Porteño, do Paraguai, pela Copa
Mercosul, porque o time já não tinha mais chances
na competição. O jogador ainda almoçou
com os companheiros antes de voltar para casa. Por volta das
15h15, porém, um telefonema do advogado Arthur Lavigne
mudou seu trajeto. O Tribunal de Justiça do Rio tinha
acabado de manter a sentença da 17.ª Vara Criminal,
que em março condenara o jogador a quatro anos e meio
de prisão, em regime semi-aberto. Ele foi considerado
culpado por ter provocado a morte de três pessoas no
acidente com o Cherokee que dirigia na madrugada de 2 de dezembro
de 1995, na Lagoa, zona sul do Rio.
Um acordo
entre o vice-presidente jurídico do Vasco, Paulo Reis,
e o diretor da Polinter, delegado Cláudio Nascimento,
evitou que o jogador fosse preso na terça-feira. Enquanto
isso, o advogado do atacante, Arthur Lavigne, tentava conseguir
um habeas-corpus para seu cliente no Superior Tribunal de
Justiça. No mesmo dia, instruído por seus advogados,
Edmundo não apareceu em casa, num luxuoso condomínio
na Barra, zona oeste da cidade.
Na noite do acidente, Edmundo e alguns amigos seguiram para
a boate Sweet Home, na Lagoa, onde encontraram Joana Martins
Couto, 16, e sua amiga Déborah Ferreira da Silva, então
com 21 anos. Barrada na boate naquele dia, Joana ainda hesitou
em aceitar a carona oferecida por Edmundo até o bar
El Turfe, na Gávea, mas foi convencida por Déborah.
Na esquina da avenida Borges de Medeiros com a rua Batista
da Costa, na Lagoa, o Cherokee do atacante se chocou com o
Fiat Uno cinza dirigido por Carlos Frederico Pontes, 24. O
carro de Edmundo capotou várias vezes e ficou com as
rodas para o ar, enquanto o Fiat foi jogado a uma distância
de 30 metros e colidiu com um poste. Carlos Frederico morreu
na hora. A namorada dele, Alessandra Cristina Perrota, 20,
e Joana morreram algumas horas depois, no hospital Miguel
Couto.
Déborah
quebrou a bacia, a quinta vértebra da coluna e quase
ficou paraplégica. Ela ainda está se recuperando
do acidente. "Levei quase dois anos para voltar à
vida normal", diz Déborah, que teve de largar
o emprego de vendedora na loja Blue Man, em Ipanema, e perdeu
as provas do vestibular naquele ano. Além das duas
amigas, também estavam no carro do atacante do Vasco
o empresário Marckson Gil Pontes, 31, e a estudante
Roberta Campos, 19. Os dois ficaram levemente feridos, assim
como Natasha Marinho Ketse, 19, que estava no Fiat Uno. A
mãe de Joana, Eliane Artiaga Martins, 47, assistiu
ao julgamento de terça-feira 5 na 6.ª Câmara
Criminal do Tribunal de Justiça e aplaudiu a decisão
dos desembargadores Eduardo Mayr, Erié Sales da Cunha
e Maurício da Silva Lintz. "Pensei que iria encontrar
uma pessoa arrependida, mas não foi isso que aconteceu",
diz Eliane.
Os advogados das vítimas, Técio Lins e Silva
e Avelino Gomes, garantem que, mesmo que o habeas-corpus seja
concedido pelo STJ, Edmundo dificilmente escapará da
prisão. "A sentença não feriu preceito
algum da Constituição e, por isso, dificilmente
será revogada", diz Técio, que representa
a família de Joana.
O recurso
ao Superior Tribunal de Justiça é a única
alternativa que resta à defesa de Edmundo. Quando chegar
ao tribunal superior, serão três as possibilidades.
O STJ poderá se recusar a apreciá-lo, manter
a decisão da Justiça do Rio ou modificar a sentença.
A última possibilidade, no entanto, é considerada
remota, já que a decisão do Tribunal de Justiça
do Rio foi unânime. Se a sentença for mantida,
Edmundo terá de cumprir no mínimo nove meses
- um sexto da pena - até ter direito à liberdade
condicional, em caso de bom comportamento. Sem curso superior,
ficará em uma cela comum caso venha a ser preso. Se
isso acontecer, ele dependerá do juiz da Vara de Execuções
Penais para continuar jogando pelo Vasco. No regime semi-aberto,
o condenado tem de se apresentar na prisão até
às 22h, de onde só sai no dia seguinte. No caso
do atacante vascaíno, a Justiça poderá
levar em conta os horários dos jogos e liberar o craque
até por alguns dias, para as partidas disputadas fora
do Rio.
O acidente
já proporcionou outras condenações, em
ações cíveis movidas pelas vítimas.
Déborah recebeu R$ 100 mil, mas seus advogados ainda
cobram R$ 60 mil estabelecidos pela sentença. Roberta
Campos entrou em acordo e recebeu três parcelas de R$
40 mil. A família de Joana Martins Couto ganhou uma
indenização de mais R$ 300 mil, mas não
recebeu um centavo porque a sentença ainda está
em fase de execução. O atacante também
foi condenado a pagar R$ 227 mil à família de
Alessandra Perrota - em processo no qual poderá ter
sua mansão penhorada para garantir o pagamento da indenização.
A família de Carlos Frederico Pontes ainda aguarda
uma decisão da Justiça no processo que move
contra Edmundo.
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