13 de outubro de 1999
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Televisão

As múltiplas carreiras de Ana Maria Braga
A apresentadora, bióloga especialista em répteis, foi repórter, relações-públicas e publicitária e agora recomeça com Mais Você, na Globo

Chantal Brissac

Na hora do banho, eram 40 portas de um lado, 40 de outro, todas encostadas, com uma freira andando pelo corredor. Nos chuveiros, as meninas tomavam banho vestidas com um camisolão. Para quebrar a rigidez do momento, Ana Maria costumava subir no banquinho do chuveiro para jogar sabonete nas colegas do lado e dar risada. "Era um jeito de me divertir um pouco naquele meio tão sisudo", lembra. Num dia em que espiava por cima dos chuveiros, Ana presenciou um evento marcante. Eram duas meninas que tomavam banho juntas, sem camisolão. "Fiquei chocada, embora ainda não entendesse muita coisa", lembra ela.

Hoje, 40 anos depois, a menina de cabelos castanhos que viu cenas curiosas no internato de freiras, em Franca (SP), onde estudou dos 8 aos 12 anos, tornou-se uma das loiras mais bem pagas da tevê brasileira. Aos 50 anos, Ana Maria Braga comemora o início de mais uma nova fase em sua carreira, com a estréia do programa Mais Você, na segunda-feira 18, nas tardes da Globo, numa aliança em que a emissora volta a oferecer ao público feminino um programa só dele, ancorada nos seis anos de sucesso do Note e Anote, da Record, no qual chegou a registrar oito pontos no Ibope. O sucesso na emissora do bispo Edir Macedo elevou-a à condição de rainha das donas de casa.


No fim de 1997, numa gravação do programa na casa de espetáculos Scala, no Rio, levou 8 mil mulheres para a platéia. Na mesma época, ao lançar seu primeiro livro de receitas no Salão do Livro no Rio, passou seis horas autografando mais de 600 exemplares. Ana leva consigo o tom de conversa íntima com as mulheres, para quem reserva receitas culinárias, conselhos e dicas de produtos, pelos quais recebe uma boa verba publicitária. Depois de uma saída tumultuada da Record, na qual chegou a responder por mais de 10% do faturamento publicitário, ela entra na Globo causando burburinho. "Muitos atores não se conformam com sua contratação", diz um diretor da emissora. Atacam seu salário, estimado em R$ 200 mil, e as honras que tem recebido.


Acostumada a se virar com mais cinco pessoas na Record, onde começou fazendo de tudo um pouco, na Globo ela conta com uma equipe de 30 profissionais. A receita que lhe rendeu um patrimônio milionário - seus ganhos mensais chegavam a R$ 1 milhão na Record - está sendo levada para a Globo. Segundo Sérgio D'Antino, 60 anos, advogado da apresentadora, a maior parte de sua verba mensal continuará a vir de merchandising e publicidade, previstos no contrato, com validade até 2003. "O programa também alavancará o lançamento de produtos de sua grife", diz D'Antino. A apresentadora tem uma linha de lingerie, acaba de lançar a revista Utilíssima, voltada à organização prática do lar, é dona de um salão de beleza em São Paulo e prepara a venda do papagaio Louro José, pela Estrela, além de mais quatro produtos até o Natal. Quem a ajuda nessa área é o marido, Carlos Madrulha, que virou sócio de D'Antino em uma empresa de licenciamentos. Ex-segurança da apresentadora, Madrulha tornou-se marido há dois anos e hoje cuida dos negócios. "É o homem da minha vida", completa Ana Maria.


A apresentadora deixou a Record em abril e, mesmo sem ter um convite na manga, disse ao bispo Honorilton Gonçalves, presidente da emissora, que havia recebido duas propostas. O anúncio de sua saída fez surgir convites da Bandeirantes e do SBT, enquanto o contato com a Globo era intermediado pela empresária e amiga Marlene Mattos. Segundo José Paulo Vallone, ex-diretor da Record, Ana teria ficado enciumada com a chegada de novas estrelas, como Fábio Jr., à casa. "Ela ficou abalada a ponto de, na madrugada de 8 de abril, antes de pedir demissão, sair com o carro para contar outdoors do programa do Fábio espalhados pela cidade de São Paulo", diz.

Ana Maria nega e diz que o único motivo que a fez sair da Record foi o fato de Vallone não recebê-la. Para D'Antino, pesou também na decisão a dívida de R$ 1 milhão que a emissora tem com a apresentadora, referente a salários e merchandising. A troca antes do fim do contrato, que venceria em 2002, fez com que a Record acionasse judicialmente Ana Maria, pela multa de R$ 21 milhões. Segundo D'Antino, os salários atrasados foram depositados em juízo e a ação da multa corre na mesma vara.

Com uma vida profissional marcada por vários recomeços, Ana Maria encara a estréia como mais um desafio. "E eu sou movida por eles", acrescenta. Nos tempos de publicitária, costumava-se vestir com discrição, preferindo ternos e tailleurs de marcas clássicas. Quando assumiu o programa Note e Anote e se tornou a porta-voz das donas de casa, vestiu, apropriadamente, um figurino classificado como brega. Era a Ana Maria Brega, apelido que a divertia, enquanto engordava ainda mais sua receita financeira. Com suas "senhorinhas", criou um estilo marcado pela espontaneidade e empatia.

É este atributo que o diretor Luiz Gleiser pretende manter na Globo. "Seria uma tolice consumada não manter as características que fizeram dela um sucesso. Ana Maria tem um espaço no imaginário da população. Ela une informação, emoção e alegria. Aqui ela será o que é", garante Gleiser.
Isso inclui as célebres luvas com os dedos de fora - que Ana Maria começou a usar depois de um peeling nas mãos para proteger a pele do sol e da luz dos estúdios, e virou uma de suas marcas registradas -, e os apliques nos cabelos tingidos.

As conversas com o papagaio Louro José e as agachadas debaixo da mesa para experimentar pratos dos convidados irão, igualmente, constar do cardápio do programa, que terá uma hora de duração. Na Globo, ela terá uma jornada de cinco horas por semana - na Record, chegou a ter 24 horas de jornada semanal, divididas entre um programa semanal e o diário. Difícil é acreditar que Ana, em apenas 60 minutos, terá tempo para suas peraltices, receitas e conversas ao pé do ouvido, além do merchandising.

Expulsa do colégio
Na Globo, Ana Maria se prepara para envergar um guarda-roupa com grifes clássicas, como Giorgio Armani e Donna Karan. Antes de entrar na emissora, a amiga Miriam Abycair, dona do Spa Sete Voltas e madrinha de seu casamento com Carlos Madrulha, chegou a sugerir que ela contratasse uma consultora de estilo para ajudá-la a se vestir. "Ela não gostou muito da idéia e disse que não precisava", lembra Miriam. Por coincidência, um dos nomes sugeridos por Miriam foi o de Glória Kalil, autora de guias de moda e hoje contratada pela Globo para comandar um quadro no programa de Ana Maria.


Antes de sair da cidade onde nasceu, São Joaquim da Barra, para estudar Biologia na Universidade de São Paulo em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, Ana Maria foi expulsa duas vezes de colégios internos. Foi para o Nossa Senhora de Lourdes, em Franca, porque o pai, o imigrante italiano Antonio Maffei, não agüentava conviver com a balbúrdia causada pela filha única. Antonio tinha 62 anos quando Ana Maria nasceu. "Eu vivia cantando e dançando pela casa, com o rádio nas alturas." Mas o internato não tirou a vivacidade da garota, que costumava pular os muros da escola para conversar com os meninos do colégio vizinho. O resultado foi a expulsão definitiva, aos 12 anos. No outro colégio, ficou seis meses. Aos 17 anos, recém-formada professora, fugiu de casa porque queria ser médica, em vez de dona de casa. Quando Ana Maria entrou na faculdade, empregou-se como diagramadora num jornal local para pagar o pensionato. Depois, tornou-se apresentadora de um telejornal. Mas sua carreira como bióloga ainda a motivava, por isso resolveu, terminado o curso, fazer um mestrado em répteis e anfíbios, na USP, em São Paulo. Ao mesmo tempo, trabalhava na Rede Bandeirantes.


Foi quando decidiu cursar Jornalismo. Na extinta Tupi, ela foi apresentadora de um programa, Replay, e repórter dos telejornais. Quando a emissora fechou, virou relações-públicas de Sylvia Maluf, mulher do então governador Paulo Maluf. "As coisas mudavam e eu ia mudando com elas", lembra Ana Maria, nesse período já casada com Eduardo Carvalho, ex-presidente do Banespa e do Banco Auxiliar, com quem teve os filhos Mariana, 16, e Pedro, 15. O poder camaleônico de Ana Maria ainda faria dela uma poderosa executiva. Ela comandou durante alguns anos as feiras da Alcântara Machado e foi diretora de publicidade de revistas femininas da Editora Abril.

Quando foi demitida da editora, depois de sete anos, achou que ia perder o chão. "Fiquei inconsolável. À noite, acordava com o volume dos meus soluços no sonho. Mas essa deprê não durou mais do que três dias", conta Ana. "Numa manhã, eu acordei, tomei um banho, coloquei o salto mais alto e a saia mais curta e decidi: vou abrir uma empresa." Desse período, Ana diz ter aprendido uma de suas maiores lições: "Você não é presidente, você está presidente, você não é lixeiro, você está lixeiro", ressalta. Não foram só o status e as mordomias de executiva que ela lamentou perder. Segundo a apresentadora, o mais difícil foi ver as portas fechando em sua cara, vindas de pessoas que antes lhe estendiam o tapete vermelho.

Sem salário
Com uma pequena empresa de marketing aberta no escritório de uma amiga, Ana Maria recomeçou a vida. Na época, o marido estava desempregado. Ela passava os dias ligando para clientes, sem resultados, até receber um convite da Record para montar um programa feminino. Não havia salário inicial e ela teria que produzir todo o programa sozinha. Com experiência na área comercial, Ana Maria topou a parada com a garantia de que teria participação na publicidade e no merchandising. Durante cinco anos, ninguém queria anunciar, a audiência era nula e Ana Maria se alternava entre as funções de apresentadora, repórter, contato de publicidade, contra-regras e telefonista. Quando a audiência subiu e os anunciantes surgiram, ela tornou-se líder dos programas femininos. A publicidade feita por "testemunhais", comerciais feitos como se fossem parte editorial, ao final de sua participação no programa, chegaram a custar mais de R$ 20 mil.


Ana Maria atribui seu sucesso à objetividade e autoconfiança. "O convencimento de qualquer coisa tem que primeiro estar em você", diz. Ela não foi protagonista apenas de viradas profissionais. Ana Maria enfrentou um câncer de pele, curado, e refez sua vida com Madrulha. Conquistou-o com o mesmo pragmatismo que persegue na profissão. No banco de trás de sua Mercedes, Ana, oficialmente casada, ficava olhando para o segurança forte e caladão. "Um dia, tasquei-lhe um beijo na boca", conta, rindo. Carlos confirma a sedução: "Ela realmente me atacou". O romance reavivou Ana Maria, que emagreceu, voltou à ginástica e fez duas plásticas: uma lipoaspiração e um lifting no rosto. Ela, que nunca pintou as unhas dos pés, também passou a realçá-las com esmalte vermelho. "O Carlos adora, é uma coisa de tesão, mesmo", diz ela. Para Ana Maria, rainha das mudanças, até uma inovação sutil pode render novos prazeres.

 

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