06 de outubro de 1999
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Música

As aventuras amazônicas do Jota Quest
Banda mineira faz 250 shows em um ano, vende 500 mil CDs e vai ao Amazonas com o Greenpeace para denunciar a exploração ilegal de madeira

Rodrigo Cardoso
de Manaus

Há dois meses, quando soube que o Jota Quest iria se apresentar em Manaus, o vocalista da banda, Rogério Flausino, 27 anos, deixou a seguinte mensagem no telefone celular do empresário do grupo: "Liga para o Greenpeace e diz que topamos fazer qualquer ação ecológica. Se precisar estender uma faixa na porta da Prefeitura, a gente vai". O empresário tomou o pedido como uma ordem e armou o protesto. Semana passada, em turnê pela Região Norte, os cinco músicos mineiros viajaram 30 minutos de barco pelo rio Negro para comprovar uma violência contra a natureza. Num local conhecido como Círculo da Compensa, encontraram 3 mil árvores, extraídas ilegalmente da Floresta Amazônica, apodrecendo nas águas. Em cima das toras, os músicos demonstraram sua indignação, erguendo uma faixa que expressava o que cada um deles tinha preso na garganta: "Crime!".

Não é de agora que o Jota Quest levanta a bandeira por causas ecológicas. Em novembro, a banda de pop rock tornou-se a primeira da América Latina a fazer um show movido a energia solar para 25 mil pessoas, em Florianópolis. No início do ano, visitaram o barco oficial do Greenpeace, que denunciava, no Rio de Janeiro, a poluição causada por indústrias químicas. Desde então, a preservação da natureza faz parte do discurso dos músicos. Essa característica ficará mais marcante no próximo CD, que será lançado no início do ano que vem. "Ele será completamente ligado à causa ecológica, do título até o último parágrafo", revela o baixista Paulo Diniz Júnior, o PJ, 30 anos.

A banda mineira, criada há seis anos, vive hoje sua melhor fase. O CD De Volta ao Planeta..., lançado no ano passado, vendeu 500 mil cópias. Há duas semanas, a música "O Vento" foi executada 79 vezes num mesmo dia, durante dez horas, em São Paulo. Ou seja, a cada sete minutos, a canção podia ser ouvida em alguma emissora de rádio paulista. Outro número que impressiona é o de shows nessa turnê: 250 em um ano e dois meses, quando a média de apresentações para uma banda pop é de 150. "É no palco que o artista dá a cara a tapa", diz Rogério, que já fez 26 shows com o pé quebrado. O moral da banda está tão em alta que os músicos já impediram um avião de decolar. Em 1998, ao saberem que seus equipamentos não haviam sido embarcados, os cinco ficaram em pé dentro do avião. O comandante, nervoso, parou o avião na cabeceira da pista. Foram atendidos.

Rogério e o guitarrista Marco Túlio, 28 anos, são os mais falantes da banda. Mas o baixista PJ bate de frente com eles. "Eles são PSDB e eu sou PT", explica. Os amigos brincam que ele é o mais grosseiro dos cinco. Márcio Buzelin, 29 anos, o tecladista, lembra que, no primeiro ensaio, ouviu de PJ: "Pode parar. Sem o teclado o som está melhor". Mas logo o defende. "Ele é curto e grosso, porque gosta das coisas funcionando." PJ carrega nas viagens cinco contrabaixos e passa o dia tocando. "Ninguém fica no quarto de hotel ao lado dele. Sua paixão chega a irritar", diz o empresário Ricardo Chantilly. Dono do hábito de parar para urinar em shows, PJ já apareceu no palco de calça molhada.

Márcio é o mais simples e quieto. Jura que, ano passado, viu um disco voador no céu de Belo Horizonte. "Fiquei 15 minutos vendo as manobras daquele treco", diz. "Deu para sair do estado de choque e cair na real. Eram eles, uai!" Em todos os shows, um boneco do ET fica em cima do seu teclado. Mineiro de Alfenas, o vocalista Rogério gostava de imitar cantores na infância. "Acordei um dia, peguei um desodorante, fui para frente do espelho e imitei o Evandro Mesquita. Foi aí que tudo começou", conta. Antes dele, outros 14 vocalistas foram testados pelo grupo, que, influenciado pela black music, procurava uma negra. "Pensamos numa mulher linda, mas saiu o Rogério. Imagina se a gente pensasse no Ed Mota. Viria um dragão", brinca Márcio. Depois de escolhido, Rogério abandonou o emprego numa agência de publicidade para se dedicar à música. O pai, no início, não se conformava com o visual do filho. "Hoje, ele até manda eu fazer mais tatuagens", conta Rogério.

O passado do guitarrista Marco Túlio é recheado de histórias pitorescas. Com 16 anos, foi vendedor de butique por uma semana. Descontente com os horários, saiu um dia para almoçar e não voltou mais. Até hoje sua carteira de trabalho está com a gerente da loja. Tentou a carreira de modelo. Por um ano, fez fotos em Belo Horizonte. "Era cheio de caras e bocas, veado pra caramba! Tenho até vergonha de falar", diz. Mesmo recusando o título de galã, é o boa-pinta da banda. Na adolescência, vendeu o som para pagar "despesas com namoradas" e a fazer strip-tease numa boate.

O baterista Paulinho é o único casado e o mais caseiro. Os amigos dizem que, de tão sossegado, só subiu ao altar porque a esposa era sua vizinha. "Não saía de casa para vê-la. Abria a janela do meu quarto e entrava no quarto dela", confirma Paulinho. Antes da fama, ele ganhava R$ 500 como auxiliar de custo em uma empresa de ônibus. Nessa época, estudava de manhã, trabalhava à tarde e tocava em bailes até de madrugada. Um dia, foi parar no médico e recebeu diagnóstico de estresse. "Meu cérebro parava por alguns momentos", diz. Paulinho foi aconselhado a parar com os shows. Mas, em vez disso, largou o emprego e diminuiu a freqüência à faculdade.

Antes do sucesso, o Jota Quest chegou a tocar para apenas uma pessoa. "Foi para minha namorada", revela Marco Túlio. Pior: já pagaram para tocar. Em 1995, um barzinho de BH cobrava R$ 300 da banda. Mas os mineiros nunca conseguiam atrair o número de pessoas suficiente para honrar o compromisso. Tocaram lá durante dois meses e acumularam uma dívida de R$ 1.500. Graças ao sucesso atual, resolveram a pendenga no mês passado, revertendo a bilheteria de um show para o tal barzinho.

 

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