06 de outubro de 1999
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Entrevista: Bill Ford

"Modelo tem que estudar"
Presidente da Ford Models diz que carreira d dinheiro, mas sucesso para poucas

Chantal Brissac

Há 50 anos a família americana Ford trabalha com um dos ramos que mais fascinam as pessoas: o mercado de modelos. A fundadora Eileen, 72 anos, com o tempo acabou passando o bastão aos filhos Bill, de 47 anos, e Katie, de 43. Presidente da companhia que tem 11 agências espalhadas pelo mundo - duas no Brasil -, Bill esteve em São Paulo na quarta-feira 22 para o concurso Supermodel of Brazil 99, que escolheu a catarinense Patrícia Beck, de 17 anos, para concorrer no Supermodel of the World, na China, em novembro. Comandante da agência que representa nomes como Naomi Campbell, Stephanie Seymour e Jerry Hall, Bill Ford falou do caminho das pedras para uma jovem se tornar uma modelo de sucesso e garantiu que as brasileiras podem ser as mulheres mais cobiçadas no futuro próximo.

O que uma garota precisa fazer para se tornar uma modelo de sucesso?
Deve ser alta, magra e bonita, pré-requisitos para a carreira. Também deve ser dona de um carisma, um dom que a torna única entre tantas. Precisa de habilidade para se relacionar num meio povoado por gente bem mais velha que ela e das mais variadas personalidades. Conversar naturalmente com estilistas, fotógrafos e publicitários é uma habilidade que pode ser desenvolvida, mas é melhor quando a modelo tem isso na personalidade.

Por que as modelos hoje são tão jovens, até de 12, 13 anos?
Nos Estados Unidos não temos modelos dessa idade. Só no departamento infantil. Não dá para pegar uma menina de 12, 13 anos e transformá-la numa mulher. É enganação, não funciona. Como o mercado ficou muito competitivo e as agências passaram a recorrer às ninfetas, tivemos que baixar um pouco a faixa dos 16. Mas essas meninas também estão nos procurando mais, às vezes por causa dos pais, carentes financeiramente.

Mas em concursos como o Supermodel of Brazil 99, no dia 22, em São Paulo, a maioria das garotas tinha 14, 15 anos.
É um evento para revelar novas caras. No mercado internacional, a menina leva um tempo até começar a trabalhar. Nos Estados Unidos e na Europa, é proibido desfilar antes dos 16. Quando contratamos meninas de 14 ou 15 anos, nos cercamos de cuidados. Pedimos a presença de um familiar na nova moradia. Se não dá, pajeamos a garota, e minha mãe costuma fazer isso pessoalmente, levando-a e buscando-a a todo lugar. Até terminar a high school (ensino médio), a garota trabalha meio período. Não é bom que pare os estudos. Modelo tem que estudar, até para ajudá-la na carreira.

Depois muda tudo?
Depois é mais difícil falar para ela com quem deve sair ou não. Espera-se que tenha bom senso. Quando uma modelo tem 18, 19 anos, tem o direito de fazer o que quer. Mas mesmo as modelos mais velhas recebem nossos conselhos com carinho.

Naomi Campbell, por exemplo, que tem fama de encrenqueira?
A Naomi fala tudo na hora, na lata, é sensível e competitiva. Por causa de seu temperamento já se meteu em algumas confusões. Mas é uma modelo exemplar.

Quem mais faz parte deste rol exclusivo?
Além de Naomi Campbell, Stephanie Seymour, a inglesa Erine O'Connor, que é a atual sensação, e as veteranas Christie Brinkley e Jerry Hall, na casa dos 40. As tops ganham entre US$ 5 milhões e US$ 7 milhões por ano. Algumas ganham esta quantia em um único contrato, como Stephanie Seymour, com a marca de lingerie Victoria Secret. De outras agências, há modelos no topo, como Gisele Bündchen. Na Ford, temos brasileiras indo muito bem, como Katarina Scola e Mariana Weickert, que pegou 12 shows nesta temporada e já assina contratos acima de US$ 100 mil.

O que garante uma carreira de sucesso? Existe algo a fazer, como recusar certos trabalhos e aceitar outros?
Primeiro, ter a família perto. Meninas mais confiantes e tranqüilas têm uma boa relação com seus pais. Depois, a agência, que orientará para se pegar ou deixar trabalhos. Trabalhos que não devem ser recusados, mesmo que não sejam tão bem pagos, são os editoriais de moda, que trazem respeito e prestígio, especialmente de revistas como Vogue, Elle, Harper's Bazaar. As capas dessas revistas são o sinal de que a coisa está indo bem. A menina pode viajar para Alemanha e Turquia e fazer dinheiro, com belas fotos, mas deve se ater ao mercado de Nova York e Paris, onde há mais prestígio. Posar nua no início atrapalha a carreira, que pode ser projetada com cuidado e organização, degrau por degrau. Mas é claro que há fenômenos...

Gisele Bündchen é um exemplo?
Sim, embora ela tenha ficado alguns anos no circuito internacional, trabalhando duro. Agora, aos 19, está amadurecida. É raríssimo uma modelo estourar aos 15, 16. Por isso, acho que as adolescentes devem ver a profissão com reservas, sem deixar de estudar.

Qual é o potencial do Brasil?
É um ótimo mercado, pois tem anunciantes e empresas de porte, além de meninas lindas. É ótimo que o Brasil tenha saúde financeira para contratar gente como Naomi, que esteve no Rio recentemente. E é positivo ver modelos brasileiras fazendo sucesso lá fora.

Como aconteceu a transformação das modelos em estrelas?
Quando as atrizes pararam de falar com a mídia, no início dos anos 80, a mídia disse: "OK, mas precisamos de assunto". E aí surgiram jovens modelos dispostas a contar tudo, revelar suas histórias e seus segredos. Assim elas viraram celebridades. Hoje, o cenário mudou porque o cinema ficou um negócio tão fabuloso que os atores agora têm a obrigação de falar com a imprensa, como cláusula em seus contratos. Trabalhar como modelo virou moda, e atrizes famosas como Cameron Diaz - integrante do nosso time - passaram a posar para editoriais de moda. Em Nova York, gastamos oito horas por dia em entrevistas sobre nossas modelos.

Qual é o maior desafio do mercado?
É ir para a Ásia. Mas não é para agora. Eles ainda não têm estrutura, mercado, fotógrafos, anunciantes. Nos Estados Unidos, não há modelos suficientes para o imenso mercado.

Na Europa, há um esforço para que Milão e Londres se tornem pólos de moda. Podem superar Paris e Nova York?
Jamais. Os compradores decidiram isso. Há seis anos, eles se reuniram com estilistas e disseram que era preciso pegar apenas uma cidade européia, e Paris foi eleita. Estilistas como Valentino foram para lá, depois Vivienne Westwood, que deixou Londres e se radicou em Paris. Milão e Londres são referências no mundo da moda, mas comercialmente não funcionam como Paris e Nova York, onde está o dinheiro.

O que as brasileiras têm para agradar os estilistas?
Têm boa estrutura óssea, pele boa, são altas, esbeltas e charmosas. A pele não é queimada de sol como a das australianas. As modelos do Sul são as melhores. Mas há exceções, como a baiana Adriana Lima, que faz sucesso em Nova York. Agora, o grande problema do Brasil é a língua. Porque a língua internacional de negócios é o inglês. É bom quando a modelo já chega sabendo se comunicar.

Como serão as modelos nos próximos dez anos?
O futuro estará beneficiando modelos como as brasileiras, especialmente porque a população hispânica está crescendo com rapidez, como nos EUA. Lá há todo um mercado voltado às necessidades de tipos morenos, curvilíneos e vibrantes. Atrizes como a mexicana Salma Hayek e a inglesa Catherine Zeta-Jones não fazem sucesso por acaso. Também teremos modelos mais velhos, homens e mulheres, já que a expectativa de vida aumentou. Hoje temos um belo mercado para mulheres de 35 a 45 anos.

Você trabalha descobrindo modelos desde os 24 anos. Já namorou alguma modelo? Entre tantas mulheres bonitas, quem é a sua preferida?
Jamais namorei uma modelo. Sou casado há dez anos com uma "civil". Temos um filho de dois anos que é nossa paixão. A mulher mais bonita que eu já vi na vida foi a atriz Audrey Hepburn.

Se tivesse uma filha, deixaria que ela fosse modelo?
Eu deixaria, pois é um bom jeito de ganhar dinheiro, mas a incentivaria a estudar. Acredito na educação e a modelo pode trabalhar sem prejudicar os estudos. Ser modelo é ótimo para ganhar dinheiro, pode-se realmente ganhar muito mais do que qualquer outra pessoa, mas isso acontece para pouquíssimas. São figuras contadas nos dedos, diante de milhões de jovens que buscam um lugar ao sol. E é trabalho duro, sem a possibilidade de criar raízes, estar com a família e até comemorar datas. Aconselho quem tem a profissão como meta a tentar, experimentar. Não é preciso um portfólio imenso, nem um book com muitas fotos. Modelos famosas chegaram às nossas agências com uma foto caseira debaixo do braço. Se não der em nada, há a recompensa de ter tido coragem de tentar.

 

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