06 de outubro de 1999
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Comadre Florzinha
Comadre Florzinha (CPC-Umes)

Regina Porto

Mitologia nordestina, cordel e melodias de fonte afro-ibérica dão sustento a Comadre Florzinha, banda feminina de seis vocalistas e instrumentistas com base em Recife. O canto reverencia uma entidade sertaneja, que dá nome à banda e título ao disco de estréia. As ilustrações de Karina Buhr, uma das meninas, são um portal para esse mundo encantado de marias-bonitas. Das 15 faixas, cinco são de domínio público e todas citam ritmos do sertão ensolarado - o coco, que é dança de roda com solista e coro; o tambor-de-crioula, música de terreiro do Maranhão cantada por mulheres; e o cavalo-marinho, a versão pernambucana do bumba-meu-boi.

De sonoridade 100% acústica, a percussão do Comadre Florzinha fala alto em arranjos bem trabalhados, com instrumentos como o djembê, a alfaia e o mineiro. A sanfona é de Renata Mattar e dois rabequistas aparecem como convidados - o suíço Thomas Rohrer, do grupo A Barca e da banda de Zeca Baleiro, e o líder do Mestre Ambrósio, Siba. As vozes, agudas e anasaladas, soam imaculadas como folias e cantos de trabalho verdadeiros.

A poesia delicada e a alegoria das letras, a delícia do sotaque carregado e dos acentos trocados pedem encarte na mão. Não custa dar uma espiada no dicionário Assim Falava Lampião, de Fred Navarro, para entender versos como "O home aplanta um rebolinho de maniva". Destaque nos cocos "Araúna" e "Pirulito", e "Sapopemba", de Mattar, e ponto alto para a retórica barroca de Mestre Verdilinho, em "Grande Poder".
Brasil fértil e profundo

 

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