27 de setembro de 1999
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Paranormais com diploma
Estudo de oito anos da Universidade de Brasília sobre 13 pessoas com habilidades especiais mostra que há mistérios que a ciência não explica

Cláudia Carneiro


"Paranormais são normais", declara o pesquisador Joston Silva, diante de um quadro que teria vertido sangue pela ação de Thomaz Green Morton

O mineiro Thomaz Green Morton de Souza Coutinho, 52 anos, carrega a fama de ser um dos maiores paranormais do planeta. Pelo menos é o que dizem os chamados parapsicólogos, unânimes em garantir que, das mãos dele, exalam perfumes intensos e variados. Isso sem falar nos flashes de luz que saem do nada e aparecem ao seu redor. Os "poderes" de Thomaz difundiram-se entre artistas, políticos e empresários no Brasil e no exterior. Mas, pela primeira vez, foram estudados por um cientista - o psicólogo Joston Miguel Silva, 63 anos, que coordenou até o ano passado o Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais, ligado ao Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares da Universidade de Brasília (UnB).

Com mestrado em Psicologia Experimental na UnB e Psicoterapia Comportamental na Universidade Estadual de Nova York, Joston foi professor de várias disciplinas do Departamento de Psicologia da UnB. Durante oito anos, Joston acompanhou a trajetória de 13 pessoas consideradas especiais por exibirem habilidades que escapam à compreensão racional - fenômenos como premonições e cura de doenças. Desse total, cinco apresentaram, na opinião de Joston, claras evidências de faculdades paranormais, o que significa, na prática, que o que fazem ainda não é cientificamente explicável. Outros cinco tiveram seus "poderes" parcialmente comprovados. E três foram considerados por Joston como casos sem conclusão. Nesse período, o professor realizou entrevistas clínicas, baterias de testes laboratoriais e checagem de dados, sempre com seu testemunho pessoal.

Na definição do psicólogo, paranormalidade é tida como um estado especial de consciência, geralmente de natureza espontânea, em que a pessoa acessa informações pelos cinco sentidos, mas de modo incomum, pela ausência de estímulos correspondentes. Joston afirma que presenciou o sangue brotar de um quadro com a imagem de Jesus Cristo crucificado, na casa do brasiliense Roberto Beck, num caso com a assinatura de Thomaz Green Morton. Teste realizado provou que o sangue era verdadeiro e não pertencia a nenhum tipo sangüíneo de Thomaz ou de pessoas que freqüentavam a casa de Beck. "Os paranormais são pessoas especiais e geralmente não compreendidas, muitos são considerados malucos", declara Joston, aposentado da UnB e desligado do Núcleo para desenvolver um trabalho semelhante em Salvador.

No livro Jogos Extremos do Espírito, o escritor Muniz Sodré, professor titular de Teoria da Cultura e dos Meios de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), garante que experiências paranormais são reais e em nada têm a ver com o sobrenatural. "Esses fenômenos são sérios e reais e existem num número cada vez maior de pessoas", explicou Sodré a Gente. "Com a dificuldade de comprovação laboratorial, as pessoas torcem o nariz para as evidências."

Os paranormais pesquisados em Brasília têm como clientes assíduos os políticos. Alguns enriquecem com isso. O pernambucano Jorge Marino, 56 anos, chega a arrecadar até R$ 20 mil por fim de semana, dando cursos sobre frevoterapia - segundo ele, método que garante curar doenças com a dança. Mas foi um fracasso na pesquisa. "A influência da energia dele não funciona quando ele está ausente", explicou Joston. "A metodologia usada para os testes foi totalmente inadequada", rebateu Marino. A seguir, Gente traz a história e as experiências de alguns dos principais paranormais do País, segundo o estudo da UnB.


Thomaz Green Morton: considerado o rei da paranormalidade

A mulher de Sepúlveda Pertence< Suely, disse ter sido curada por telefone por Thomaz Green Morton (foto)

O parapsicólogo monsenhor Arlindo Mombach estava orando em sua casa em Brasília, em abril de 1985, quando recebeu um telefonema de um parente de Tancredo Neves. Um pedido especial foi feito ao sacerdote, acompanhado de uma passagem de avião de ida e volta a São Paulo, onde Tancredo estava hospitalizado, em estado terminal. Familiares queriam a presença, no hospital, de Thomaz Green Morton de Souza Coutinho, o famoso paranormal da cidade mineira de Pouso Alegre. "Thomaz somente chegou ao hospital. Os médicos não deixaram ver o Tancredo", lembra monsenhor Arlindo, 82 anos. "Ele me telefonou e disse que era tarde. Sentia que Tancredo já havia se transformado em espírito de luz."

O ex-senador Teotônio Vilela teve mais sorte e pôde contar com a força excepcional da presença de Thomaz Green Morton a seu lado para aliviar os efeitos de um câncer, até morrer em 1983, aos 67 anos. "Thomaz ajudou muito meu pai", recorda o senador Teotônio Vilela Filho (PSDB-AL), 50. "Depois de uma cirurgia para extrair tumores na cabeça, ele passava um dia com Thomaz e saía de lá revigorado, direto para um comício, como se tivesse recarregado as baterias", conta. "Thomaz passava muita energia para o velho."

Desde os 12 anos de idade, Thomaz passou a produzir fenômenos - e a criar um legião de crentes no poder ilimitado de sua energia para a cura.

Aos 52 anos, Thomaz Green Morton continua morando em Pouso Alegre com a família, tem um filho, Rafael, e tudo o que não consegue é manter uma rotina de vida. Quando quer, recebe pessoas em busca de ajuda. Às vezes, cobra valores astronômicos por uma consulta. Em outras, fica com um único cliente por até três dias, dentro de casa.

Exemplos vivos dos fantásticos poderes de Thomaz Green Morton são o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Sepúlveda Pertence, 61 anos, e sua mulher Suely, 56. Depois de passar cinco anos praticamente na cama com crises de fadiga crônica, e tentar todo tipo de método tradicional e alternativo para cura, Suely chegou ao ponto de seu rim não funcionar mais. "Colocaram-me em contato com Thomaz por telefone e fiquei curada a distância", conta ela, que hoje é grande amiga do paranormal. Ela lembra que com o ministro Pertence foi do mesmo jeito. "Também a distância, Thomaz ajudou o ministro a sair de um quadro grave de problema pulmonar e a livrar-se definitivamente do cigarro."

José Acleildo de Andrade, guru de políticos de todo o Brasil


José Acleildo de Andrade, guru de políticos de todo o Brasil

A cantora americana Dionne Warwick estava no avião, a caminho do Brasil, quando soube de um vidente brasileiro que tinha previsto a data do fim da Guerra do Golfo e outras façanhas. Chegando ao Rio de Janeiro, fez contato com José Acleildo de Andrade e o tirou de Brasília por dois dias para uma experiência paranormal. Em seus aposentos no Rio, ouviu dele passagens de sua vida íntima jamais reveladas e alguns conselhos. Encantada com o paranormal, presenteou-lhe com uma foto e a dedicatória "Obrigada por sua visão".

Acleildo de Andrade, 42 anos, pernambucano, já foi comissário de bordo, empalhador de animais, auxiliar de enfermagem e atuou no teatro e na televisão. Ator contratado da Rede Globo até 1979, nterpretava o rinoceronte Quindim do Sítio do Pica-pau Amarelo. Mas a sedução do mundo sensitivo foi maior e então mudou-se para Brasília, capital do misticismo. Foi assim que começaram seus contatos com políticos famosos, como os governadores do Pará, Almir Gabriel (do caso de Eldorado dos Carajás), do Espírito Santo, José Ignácio (às voltas com denúncias de prevaricação), e do Distrito Federal, Joaquim Roriz (enrascado numa briga com o jornal Correio Braziliense), além do senador Luiz Estevão (investigado pela CPI do Judiciário) e do ex-presidente Fernando Collor de Mello.

A sensibilidade para diagnosticar doenças e prever o futuro deu a José Acleildo, paradoxalmente, poder e angústia. "Em 1995, eu estava atendendo uma pessoa e tive a visão de meu pai morrendo dali a três meses", conta ele. A premonição foi um susto enorme para a família, mas a morte ocorreu exatamente no tempo previsto. Sete anos antes, já havia alertado sua irmã Aldinéia que tinha de tratar um câncer. Muito arredia, ela recusou acompanhamento médico e um câncer na mama e no fígado a matou em 1998. "Já chorei e sofri muito, porque acreditava que podia mudar alguma coisa, mas o destino não pode ser mudado", afirma Acleildo, há 18 anos em Brasília, casado com Patrícia, 29, e pai de três crianças.

O futuro estava escrito também na carreira política de José Ignácio. Quando disputava o governo do Espírito Santo, em março de 1990, e consultou Acleildo, tinha 48% das intenções de voto seis meses antes das eleições. "Lamento, mas não será dessa vez que o senhor será governador", avisou o paranormal, ressaltando que ele ocuparia, entretanto, um alto posto no governo Collor. José Ignácio perdeu as eleições, mas um ano depois assumia a presidência da Telebrás. Acleildo reencontrou José Ignácio no início da campanha eleitoral do ano passado: "Permita-me cumprimentar o futuro governador", antecipou o paranormal, que alguns preferem chamar de bruxo.


Luiz Carlos Amorim: reconhecimento internacional


"Quando toquei o brinco da princesa Diana, ele entortou e caiu no chão", conta Amorin

A paranormalidade do brasiliense Luiz Carlos Amorim, 35 anos, foi pesquisada por cientistas ingleses do King's College e do Birbeck College, da Universidade de Londres. Nos testes desenvolvidos no final dos anos 80, ele provou que seus poderes extrapolam a compreensão humana. Além de entortar moedas e talheres de metal ou descrever com precisão traços de personalidade visualizando a aura das pessoas, Luiz Carlos é capaz de encontrar pessoas e objetos desaparecidos. Ele ajudou a polícia a localizar, em 1990, o cativeiro do empresário seqüestrado Roberto Medina. Foi nesta época que se tornou amigo e guru da atriz Maitê Proença, do jornalista Zózimo Barroso do Amaral e de Helcius Pitanguy, filho do cirurgião plástico Ivo Pitanguy.

Amorim tornou-se freqüentador da ilha de Pitanguy, em Angra dos Reis, no litoral do Estado do Rio. "Me recordo quando entramos num barco para um passeio", conta Helcius Pitanguy, 36 anos. "Assim que Luiz Carlos pôs o pé no barco, a mesa de metal partiu-se ao meio." O paranormal conta que foi ao encontro do príncipe Charles e da princesa Diana, quando morava em Londres, depois de ganhar o título de paranormal da década. "Fui convidado para um chá por curiosidade. Quando toquei o brinco Van Clif da princesa, ele entortou e caiu no chão", conta. Os poderes de Amorim são mais lucrativos quando usados para descobrir poços de petróleo e jazidas de minério. O último trabalho que fez para uma mineradora - cujo nome não revela por acordo com o cliente - rendeu-lhe uma minivan Blazer como pagamento.

A vaidade de Luiz Carlos Amorim está à altura de seus poderes paranormais. Sempre com ternos e sapatos impecáveis, ele anda com relógio, abotoaduras e prendedor de gravata, tudo em ouro. Estilo arrasa-corações, costuma selecionar namoradas pela cor da aura delas. Quer agora comprar um avião monomotor. "Já fui rato de laboratório, não vejo em que me ajudaria agora provar cientificamente minhas faculdades mentais", diz.

Amorim tem seguidores como a publicitária Cleuza Cabral, 44 anos, moradora de Patrocínio (MG). Ela mantém em sua cabeceira o primeiro livro escrito pelo paranormal, O Poder Interior. Em agosto, pediu socorro para Amorim ajudá-la a encontrar um carro furtado em Belo Horizonte. De Brasília, ele se concentrou, descreveu o exato local do carro e duas horas depois Cleuza telefonou novamente comemorando o achado. Amorim lança no início de novembro o segundo livro, Jogando com Sorte, pela editora Record, onde ensina técnicas para evitar assaltos, acertar em loterias, bingo e cassinos. "É um livro prático para as pessoas viverem melhor."


Alda Dantas: sensibilidade para curar enfermos


"Não gosto de ser chamada de vidente, desenvolvi meu trabalho com amor", diz Alda

Alda Dantas era ainda muito jovem quando percebeu que fenômenos inexplicáveis a faziam diferente das outras crianças. "Algumas vezes achavam que eu era louca", lembra. A menina Alda podia sentir nitidamente a dor de pessoas doentes que se aproximavam dela. Aos quatro anos, sua mãe foi embora de casa e o pai assumiu sozinho a criação dos filhos. Alda tinha visões freqüentes e se assustava muito com isso. "Eu podia ver as pessoas como num raio X. Por isso gostava de umas e rejeitava inteiramente outras."

Disposta a superar as dificuldades emocionais, Alda tentou ignorar seus poderes de clarividência, a partir da adolescência. De Salvador, mudou-se para Brasília. Trabalhava como técnica em ótica até ceder à insistência dos amigos para dedicar-se exclusivamente ao atendimento de pessoas à procura de apoio. Há seis anos, Alda Dantas ganha a vida orientando e curando pessoas com sua capacidade de visualizar doenças e sentir dores alheias. Cobra R$ 70 por consulta, mas dedica as sextas-feiras para trabalho gratuito. Nas noites de segunda-feira, reúne até 60 pessoas em sua casa para meditação em meio a luzes de cores suaves, cristais e imagens de anjos que dão um magnetismo especial a seu ambiente de trabalho.

"Não gosto de ser chamada de vidente, desenvolvi meu trabalho com amor", afirma Alda Dantas, que não é religiosa. "Alda é capaz de dizer coisas a seu respeito e passar orientações como se um ser soprasse ao seu ouvido", conta o jornalista Geraldinho Vieira, 40, que há quatro anos consulta Alda.

Alda Dantas é procurada por pessoas que buscam soluções para todos os tipos de problemas como conselhos, apoio espiritual e até a cura de doenças complexas como câncer e Aids. "Em geral, essas pessoas melhoram, mas insisto que continuem com acompanhamento médico." Com quatro filhos, Alda mantém uma vida modesta, acorda todos os dias às 5h30 e medita por uma hora e meia. "Tenho muito medo de me perder na vaidade, quero continuar meu trabalho simples."Envie esta página para um amigo

 

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