23 de setembro de 1999
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política

A face oculta de Dirceu
O deputado e líder petista José Dirceu conta em livro como mudou o rosto com uma plástica e viajou pelo Brasil com nome falso para fugir dos militares

Cláudia Carneiro
de Brasília

Às vésperas de ser reeleito, pela terceira vez, presidente nacional do Partido dos Trabalhadores, o PT, o deputado federal José Dirceu de Oliveira e Silva, 53 anos, finalmente vai colocar no papel tudo sobre sua vida clandestina. Durante o regime militar, ele morou incógnito no País, entre 1969 e 1979. Entre tantas revelações, promete esclarecer a fama de ter sido agente, no Brasil, do serviço secreto cubano, que ele sempre negou. "Sempre contei alguns episódios da minha vida", diz. "Agora, vou relatar detalhes jamais revelados." O texto está no décimo capítulo e José Dirceu ainda não definiu por qual editora irá publicá-lo.

Falsos documentos

O livro vai contar que há 20 anos o político de discurso radical contra as influências do capitalismo foi o responsável pela introdução, no norte do Paraná, de grifes de jeans que estouraram nos anos 70, como Ellus, Lee e Staroup. O líder estudantil José Dirceu usou o nome falso Carlos Henrique Gouveia de Mello, quando viveu na clandestinidade, de 1975 a 1979, em Cruzeiro do Oeste (PR), como um comerciante de sucesso. Chegou à cidade como forasteiro, com uma trágica e falsa história de briga em família. Ali, conquistou amigos como Wilson Bellini - que entendia de costura - para ser seu sócio em uma alfaiataria. Pouco tempo depois, já fazia fama com a butique Magazine do Homem. Em um ano e meio, abriu sua própria confecção para comercializar calças masculinas da marca Bang para outras regiões do País. O negócio rendeu um bom dinheiro: Dirceu chegou a ganhar mensalmente o equivalente hoje a R$ 6 mil, o que lhe garantia um bom padrão de vida em Cruzeiro do Oeste.

Foi ali também que ele conheceu Clara Becker, dona de três butiques na cidade, e constituiu sua primeira família. Casaram-se em 1976 e tiveram o primeiro filho, José Carlos, em 1978. Na pele do empresário Carlos Henrique, ele pôde viajar pelo Brasil. Conheceu desde a região do cacau, no sul da Bahia, e o Vale do Aço, em Minas, até o Vale do Itajaí, em Santa Catarina, e a Amazônia. Também embrenhou-se pelo sertão nordestino, o interior de São Paulo e as fronteiras com Argentina e Paraguai. "Minha clandestinidade foi terrível", conta o jornalista Franklin Martins, 51 anos, da Rede Globo, que na época era amigo de Dirceu. "Eu não via a luz do dia, só podia sair à noite." É por conta dessas andanças de Dirceu que muitos políticos desconfiam de sua atuação como espião. Clara Becker só veio a saber da verdadeira identidade de seu marido no dia da Anistia, em 28 de agosto de 1979. "Foi um choque tremendo, eu disse para ele não aparecer mais na minha frente", recorda Clara, hoje com 58 anos. "Depois, voltei atrás por causa de meu filho."

Plástica em Cuba

Envie esta página para um amigo Clara também não chegou a conhecer a verdadeira face de Dirceu. A mudança em sua vida teve início quando ele foi preso por militares, durante um congresso secreto da União Nacional dos Estudantes (UNE), da qual era presidente, em Ibiúna, interior de São Paulo, em 1968. Ele foi levado a quatro prisões em 11 meses. Foi trocado pelo embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick - seqüestrado pela Aliança Libertadora Nacional e a Dissidência Universitária da Guanabara - aos 22 anos, exilou-se em Cuba e lá começou sua amizade com os aliados de Fidel Castro. Ele decidiu voltar em 1971. O rosto que Clara conheceu e a troca de identidade foram obra dos cubanos. "Tudo em mim era falso, desde o rosto até os documentos, mas nunca caí em fria", lembra o deputado. "Fiz todo tipo de treinamento em Cuba e estudei muito sobre o Brasil, mas não admitia ser banido do meu País", conta ele. Os cubanos insistiram para Dirceu desistir da idéia de retornar num momento de repressão violenta. Ocorreu então a cirurgia plástica. "Fiz prótese no nariz, puxei o rosto e mudei os olhos, passei a usar óculos, deixei o bigode crescer e mudei o corte de cabelo."

O regresso ao Brasil foi apenas uma rápida passagem por Pernambuco e São Paulo, mas sua participação no movimento da resistência à ditadura o fez voltar a Cuba pela segunda vez. "Voltei ao País em outro momento, em 1975, e fui parar em Cruzeiro do Oeste. Lá, tinha informações de que estava sendo espionado." José Dirceu, na época, detestava futebol e cerveja. Um amigo que conhecera na cidade, José Pereira Neto, alertou-o: "Você é meio esquisito, aqui todo mundo joga cacheta, faz churrasco, gosta de futebol e de uma cervejinha."

Em 1979, antes mesmo da aprovação da anistia pelo Congresso, ele decidiu ir embora do Brasil para voltar legalmente e reassumir sua vida política. "Tomei a decisão acertada de começar tudo de novo." Em 1980 já estava separado de Clara. O filho Zeca, hoje com 21 anos, diz não ter guardado rancor do abandono. "Eu me sentia orgulhoso de ver meu pai ajudar a construir um partido", afirma. De volta a São Paulo, José Dirceu começou do zero. Reiniciou seu curso de Direito na Pontifícia Universidade Católica (PUC), foi trabalhar como auxiliar administrativo na Assembléia Legislativa, por vários anos ganhando três salários mínimos mensais. Foi quando conheceu a psicóloga Ângela Saragosa, sua segunda mulher, e tiveram Joana, hoje com 10 anos. Em 1986, foi eleito deputado estadual. Em 1990, deputado federal. Foi candidato a governador de São Paulo em 1994 e novamente eleito deputado federal em 1998. A vida conjugal com Ângela acabou em 1990 e, um ano depois, reencontrava a socióloga Maria Rita Garcia Andrade, 49 anos, companheira de militância política. Acabou casando-se pela terceira vez.

Mas uma nova surpresa iria incrementar a família de José Dirceu, em 1995. Depois de perder a eleição, no ano anterior, reassumiu a agenda exaustiva do comando do PT e descobriu que tem uma terceira filha, Camila, já com 5 anos de idade. "Não tenho nenhuma relação com a mãe dela, mas hoje temos uma vida de pai e filha e estamos sempre juntos", diz. "Mas sou um superpai, sou eu quem levo as crianças ao dentista e freqüento todas as festas da escola", ressalta. Para a mulher Maria Rita, o deputado Dirceu contou vantagens: "Eu gostava de saber sobre os treinamentos em Cuba e ele me dizia que lá aprendeu até a cozinhar. Acredito nessas histórias por uma questão de boa convivência", brinca ela.