23 de setembro de 1999
Escolha sua capa
Home
Semana
Diversão e Arte
Outras Edições
Fale Conosco
Assine
Busca

 

 

Polêmica

Com a corda no pescoço
Roger, goleiro do São Paulo, posa para revista gay com a permissão da mulher, mas pode perder o emprego

Fábio Bittencourt
de São Paulo

O goleiro Roger José de Noronha Silva, 27 anos, nunca imaginou que seu corpo escultural poderia despertar paixões dos leitores da G Magazine, uma publicação destinada aos homossexuais. Muito menos esperava posar nu para essa revista, como os corintianos Vampeta e Dinei. Pelo cachê de R$ 70 mil, ele será a capa da edição de outubro da G. A atitude, no entanto, pode abalar sua carreira profissional. Pelo menos no São Paulo, clube pelo qual veste a camisa há dois anos e meio. Na quarta-feira 8, Roger começou a pagar o preço pela decisão: o técnico Paulo César Carpegiani foi o primeiro a bradar contra o ensaio fotográfico. "Eu escolho se quero trabalhar com ele e ponto final." Até o coordenador de futebol da equipe, Rubens Minelli, preocupado com a temperatura da polêmica, entrou em cena para amenizar o confronto. "Ainda não se cogitou nenhuma punição. Vamos esperar a revista sair", declarou. "Não esperava que isso atingisse a minha vida profissional", diz Roger. "Achei que as conseqüências maiores fossem ocorrer junto com a minha família, o que não aconteceu."

No rastro do trabalho de Roger, o casal pode sair dessa brincadeira com a conta bancária reforçada. O fato novo é que a revista Sexy, do mesmo grupo que edita a G Magazine, convidou a mulher do jogador, a estudante de Direito Danielli, 25 anos, para ser a capa da edição de janeiro. Ela ainda tem alguns dias para dar a resposta, mas já conta com o autorização do marido, desde que o cachê seja maior que o seu. Os dois fazem planos para gastar esse dinheiro. Além de uma segunda lua-de-mel, o restante será depositado em uma caderneta de poupança para os filhos, Nicole, um ano e sete meses, e Diego, com apenas sete meses. Roger e Danielli estão casados desde dezembro de 1996, depois de se conhecerem em um vôo para Brasília, quando ele jogava pelo Flamengo, time em que iniciou a carreira, aos 13 anos. "Foi amor à primeira vista", recorda a mulher. Roger é fluminense e desde que mora na capital paulista não cultivou muitas amizades, além das que tem no clube. "Costumamos ficar muito em casa vendo tevê", diz Danielli. "Todo o tempo que eu tenho, fico com as crianças", complementa Roger.

Apesar de contabilizar o lucro da sua nudez, Roger está preocupado com a possibilidade de ficar desempregado. Com a mesma rapidez com que tirou a roupa nas páginas da revista, consultou o advogado Luiz Guerra. E ouviu o que queria. "O contrato com o São Paulo não estipula nada contra as fotos. Pela lei, estou garantido", assegurou o atleta. Tendo a lei a seu lado, partiu para o contra-ataque. "Avisei no clube que iria fazer as fotos e ninguém disse que não poderia", afirmou o goleiro.

OK feminino

Envie esta página para um amigo O namoro da revista com Roger, goleiro reserva no São Paulo, começou ainda em julho. Danielli estava cuidando dos filhos, no apartamento localizado em Perdizes, bairro nobre da capital paulista, quando tocou o telefone. Do outro lado da linha, um homem queria saber quais seriam as chances de o goleiro aceitar um eventual convite para posar nu. O atleta estava fora do País, excursionando com o time.

O contrato, no entanto, só foi acertado um mês depois do primeiro telefonema. "Se fosse alguma coisa vulgar ou agressiva, eu não teria feito", diz o jogador. O ensaio foi realizado em agosto, em um clube da cidade de Socorro, interior de São Paulo. As seis horas e meia de trabalho renderam 460 fotografias, divididas entre as arquibancadas de um campo de futebol, a piscina e os vestiários. "Foi fácil e não fiquei com vergonha de tirar a roupa." Danielli não participou da sessão, mas teve a tarefa de editar as 20 fotos que serão publicadas.

Roger teve uma chance na seleção brasileira e ficou na reserva de Taffarel, num amistoso contra o País de Gales, na casa do adversário, quando tinha 19 anos. Desde que chegou ao São Paulo, não conseguiu superar o desempenho do titular, Rogério Ceni. Agora, com ou sem punição, sabe que terá um estigma profissional a enfrentar. "Sei que isso vai durar pouco tempo e depois as coisas se acalmam." Heterossexual convicto, apaixonado por Danielli, Roger também não está preocupado com o assédio do público gay. "Tenho amigos homossexuais, que sempre me respeitaram e são muito legais." Sem preconceitos, com o ego inflado e orgulhoso, ele tem um grande consolo: "Tenho certeza que as mulheres também verão as minhas fotos".