13 de setembro de 1999
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Rock

Feio de cara e bom de banda
Líder dos Raimundos, Rodolfo de Abrantes, cortou o cabelo porque deu mofo e foi auxiliar de almoxarifado antes de criar o grupo que juntou o forró ao rock

Rodrigo Cardoso
de São Paulo

Dez anos atrás, o paulista José Henrique Pereira, hoje com 33 anos, guiava seu fusca azul, apelidado de Trovão Azul, pelas ruas do Distrito Federal. Ao seu lado, o brasiliense Rodolfo de Abrantes, 26 anos, na época com 16, divertia-se com a imperícia do amigo. Numa manobra imprudente, José Henrique, mais conhecido como Canisso, capotou o carro. Ninguém se machucou, mas Canisso vendeu a um ferro velho o que restou do Trovão Azul. Com o dinheiro, comprou um contrabaixo e passou a fazer rock com Rodolfo e dois amigos, Fred e Digão. Assim nasceram os Raimundos, a banda de rock brasileiro que conquistou um disco de ouro no CD de estréia, em 1994.

Coadjuvante no episódio do fusca, Rodolfo, vocalista da banda, é o protagonista da história de sucesso dos Raimundos. Filho de paraibanos fanáticos por forró, Rodolfo uniu as letras maliciosas dos repentistas ao som pesado da guitarra e levou o grupo ao topo das paradas. "Troquei quarto, comida, roupa lavada, papai e mamãe, em Brasília, para dormir no chão da casa do empresário, em São Paulo", diz ele. Mês passado, os Raimundos receberam da MTV Brasil o troféu de maior audiência segundo o público da emissora. No momento, gravam uma participação no filme O Trapalhão e a Luz Azul, de Renato Aragão, que estréia em dezembro.

Rebelde, Rodolfo fugia das festas de forró da família, em Brasília. O pai, Manoel Abrantes, de 60 anos, até hoje faz churrasco de testículo de boi e cabeça de bode, embalado pelo ritmo nordestino. "Minha casa é a embaixada da Paraíba em Brasília", afirma Manoel. Canisso confirma: "O pai do Rodolfo usava o disco de um forrozeiro para abanar o fogo da churrascada". Aí se deu a mistura de forró com rock. "Nos anos 80, todo mundo tentou fazer essa união, mas faltou criatividade", afirma o cantor Lobão, 42 anos.

Antes do sucesso, Rodolfo trabalhou como auxiliar de almoxarifado em uma clínica médica. "Estava com 19 anos, tinha acabado de ser pai e morava na casa da sogra. Precisava me virar", diz ele. Seu filho Pablo tem sete anos e mora com a mãe em Brasília. Durante um ano, o roqueiro ganhou R$ 700. Hoje, Rodolfo e sua trupe fazem 12 shows por mês e cobram até R$ 15 mil por apresentação.

FILHO PERDIDO Os pais do cantor, médicos em Brasília, não aprovaram a opção do filho adolescente. Além de andar com cabeludos, Rodolfo criava uma dezena de ratinhos hamster soltos pela casa, usava dreadlocks (estilo de penteado dos cantores de reggae) no cabelo, mais de 20 tatuagens no corpo e piercing no nariz. "O primeiro show dele que eu assisti foi num boteco nojento. Eu era o único velho. De repente, começou um empurra-empurra e fui obrigado a entrar no embalo. Cheguei em casa cheirando a xixi. Deitei a cabeça no travesseiro e comecei a chorar. Disse a minha esposa: 'Perdemos nosso filho'", lembra Manoel. Pouco tempo depois, seu coração amoleceu e, já que não podia lutar contra o sucesso do filho, o pai aliou-se a ele.

Amigos do roqueiro, que hoje mora num apartamento de três quartos num bairro nobre de São Paulo, dizem que Rodolfo cativa o público pela simplicidade. O produtor Carlos Eduardo Miranda, que acompanha a banda há cinco anos, conta que o cantor recusa banquetes em restaurantes chiques para comer arroz e feijão em botecos de esquina. A mãe, Jacira de Abrantes, 52 anos, também se surpreende. "Quando o Rodolfo fez 18 anos, eu o presenteei com um carro novo. Mas ele levou seis meses para sentar no banco. Preferia andar com uma Kombi caindo aos pedaços que eu tinha na garagem", diz. Hoje ainda prefere seu Gol 1.000 a qualquer BMW que possa comprar. A falta de requinte, às vezes, beira o desleixo. Há um ano, Rodolfo raspou o cabelo porque o dreadlock havia criado mofo. "Nasceram cogumelos no cabelo dele", conta o produtor Miranda. "Nunca ouvi falar de coisa parecida antes."

Uma característica das composições de Rodolfo é a quantidade de palavrões. Somente no segundo CD, Lavô Tá Novo - que vendeu 320.000 cópias -, o roqueiro fala 53 impropérios. "Rodolfo é a Dercy Gonçalves do rock", diz o amigo Martin Luthero Reis. O álbum Só no Forevis, o quarto da banda, é mais comportado e vendeu 100.000 cópias em três meses. Manoel diz que a "sacanagem" que o filho canta é marca da família. Mas acha que, hoje, Rodolfo bem que poderia dar ouvido ao pai: "Vivo pedindo para ele fazer uma música para a Zilda, uma tia carola dele, poder cantar na igreja". Deve demorar.

Colaborou Ramiro Zwetsch,
de São Paulo