13 de setembro de 1999
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Negócios

Empresário do prazer
Ex-psicoterapeuta, Oscar Maroni Filho fatura R$ 13 milhões por ano com bordel de luxo, revistas eróticas e uma fazenda no interior de São Paulo

Fábio Bittencourt
de São Paulo

Oscar Maroni Filho, 48 anos, é diferente da maioria dos empresários: define-se, sem constrangimento, como imoral e indecente. Há 20 anos esse paulistano ganha dinheiro com o prazer alheio. Ele é dono de uma boate em São Paulo, freqüentada por cerca de 200 homens anônimos e famosos todas as noites e que reúne garotas de programa. Por lá transitam políticos, empresários, artistas e até jogadores de futebol. Maroni também possui os direitos de distribuição de versões brasileiras de revistas eróticas, entre elas a Penthouse e a polêmica Hustler, revista masculina mensal americana, que pertence ao não menos polêmico Larry Flynt. Na vida real, Flynt é conhecido por afrontar a moral e os bons costumes da sociedade americana. Na ficção, foi transformado em defensor da liberdade de expressão no filme O Povo Contra Larry Flynt, de 1996, dirigido por Milos Forman. "Sou o Larry Flynt brasileiro", afirma Oscar Maroni Filho.

Guardadas as proporções, o cover brasileiro é tão bem-sucedido quanto o original. Ele fatura R$ 13 milhões por ano com a revista, a movimentação na boate e as atividades de pecuária e agricultura, em uma fazenda em Araçatuba, interior de São Paulo. Desde que transformou o comércio do prazer em ganha-pão, Maroni já respondeu a cinco processos. Segundo seu advogado, o jurista Celso Bastos, ele foi condenado em primeira instância e recorreu, em apenas uma ocasião, por manter casa de prostituição. E já foi preso em duas ocasiões.

"A atividade deste senhor é ilegal. Tecnicamente, ele é um criminoso", diz o delegado Romeu Tuma Júnior, que fechou a boate quatro vezes, quando foi delegado titular da Seccional Sul da capital paulista. "É muito difícil tomar alguma providência contra esse tipo de negócio", admite o desembargador aposentado Alberto Marino Júnior, que condenou o Bandido da Luz Vermelha. "Minha atividade é extremamente polêmica e imoral", diz Maroni Filho. "Mas jamais pode ser considerada ilegal", justifica.

Hotel erótico

No ano passado, ele amargou 63 dias de cárcere. "Era Copa do Mundo e não havia quem pudesse me tirar de lá", lembra. O tempo atrás das grades, porém, não serviu para intimidá-lo. Pelo contrário. Na prisão, ele teve a idéia de construir um hotel temático sobre erotismo e sensualidade. Assim que ganhou a liberdade, comprou um terreno de 4.200 metros quadrados, bem atrás da sua boate Bahamas, que ocupa 2.000 metros quadrados de uma rua tranqüila no bairro de Moema, na zona sul da cidade. A maquete do futuro Oscar World está pronta. O prédio, em forma de triângulo, terá 13 andares e 175 apartamentos. A obra está orçada em R$ 17 milhões. Ele planeja obter financiamento junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Maroni tem idéias num estalo e não mede esforços para concretizá-las. A aquisição da Hustler foi assim. Ele tinha acabado de assistir a O Povo Contra Larry Flynt, quando foi procurado em seu escritório por um vendedor de anúncios da revista. Perguntou ao rapaz como poderia comprá-la. "Nas bancas", respondeu. O empresário insistiu: "Não falo de um exemplar, quero a revista". Dias depois, Maroni fechou o negócio com a antiga editora brasileira da revista. Nos Estados Unidos, o mercado de erotismo movimenta US$ 9 bilhões por ano. No Brasil, esse número é calculado em R$ 400 milhões. De olho nesse filão, ele adquiriu o controle da Hustler no Brasil e de outros 14 títulos. "A Hustler será um espaço polêmico e de debates", afirma. "Já estamos contactando a Dercy Gonçalves para posar nua", promete.

A edição de agosto da revista foi pivô de outra polêmica. Trouxe na capa a modelo Sheila Campos, que foi assassinada pelo namorado no final do mês de julho. O ensaio de 14 páginas gerou um atrito entre Maroni e o sócio Murray Lipnik, que obteve uma liminar na Justiça impedindo a distribuição dos 50 mil exemplares. Além das fotos, a revista também publicou uma entrevista com Byong Kwon, o namorado de Sheila, acusado de ser o responsável pela morte da modelo brasileira. "Quero ser o dono da revista. Caso contrário, vendo a minha parte e faço uma nova", diz Maroni Filho, que, junto com Lipnik, possui também os direitos de publicação da Penthouse no Brasil.

Com 1,89 m e 104 kg, Maroni Filho é inquieto e falastrão. "Já transei com mais de 1.500 mulheres desde que comecei a trabalhar na noite", conta. Há pouco mais de um ano, deixou Marisa, 45 anos, pela namorada, Fabrícia, 21, que ele conheceu em uma festa. "A Marisa foi casada comigo durante 23 anos", diz. "Posso ser cafajeste, mas não fui hipócrita." Há alguns meses, ele mandou confeccionar uma camisinha de 17 metros. Queria colocá-la, de helicóptero, no Obelisco do Ibirapuera. Deixou a idéia de lado após a interferência de alguns amigos. Mas ainda não desistiu.

Terapia no bordel

Maroni Filho sempre dorme por volta das 5h e acorda antes das 10h. Desde que se separou, há nove meses, não tem mais residência fixa. Mora na suíte 21 do Bahamas. Certo dia, saiu de um bar da rua Augusta, por volta das 5h, em cima de uma motocicleta Harley Davison. Parou no Masp, sentou-se na escadaria e ficou olhando para a cidade. Dormiu ali mesmo e só despertou às 9h. "Achei que tinha sido assaltado, mas não aconteceu nada. Me senti livre", recorda.

Filho de um industrial e de uma professora, Maroni Filho começou a trabalhar aos 16 anos. Dois anos depois, quando cursava o primeiro ano de Psicologia, conheceu a ex-mulher Marisa, com quem teve quatro filhos. Os dois administravam a lanchonete da faculdade. O dinheiro era curto e mesmo assim eles resolveram casar. Foram morar em um apartamento onde caixas de refrigerante viravam cadeiras na hora do jantar. Maroni chegou a trabalhar como terapeuta. A um jovem paciente que não conseguia fazer amor com a namorada, prescreveu visitas a um bordel. Em seis meses, segundo Maroni, o jovem estava definitivamente curado. Impressionado com o resultado da terapia, Maroni resolveu comprar a boate em 13 prestações.

Hoje, além das revistas e da boate, Maroni tem uma fazenda de 700 alqueires em Araçatuba, no interior de São Paulo, onde trabalham 40 pessoas. Além das 5.700 cabeças de gado, a Santa Cecília também produz milho e soja. Maroni Filho sonha em um dia poder construir um hotel temático no local. "Seria uma espécie de minipantanal", conta. Em parceria com a Cesp (Companhia Energética do Estado de São Paulo), ele já investiu R$ 250 mil para recuperação da mata ciliar da propriedade, localizada às margens do rio Tietê.

Os planos do empresário do prazer são ambiciosos. Além do gigantesco hotel, ele quer comprar uma rádio para falar de sexo e cidadania e abrir uma churrascaria. "Ele tem um temperamento decidido. Sempre conseguiu as coisas que quis", diz o pai, Oscar Maroni, 77 anos. De imediato, Maroni Filho diz que vai brigar por uma vaga como deputado estadual por São Paulo, com apoio do Sindicato dos Bares e Restaurantes, nas próximas eleições. Seu slogan de campanha já está pronto. Mas é impublicável.