13 de setembro de 1999
Escolha sua capa
Home
Semana
Diversão e Arte
Outras Edições
Fale Conosco
Assine
Busca

 

 

Televisão

Luana Piovani vai à guerra
Com fama de brigona, a atriz diz que a Globo não pode tratar atores como operários de fábrica de pizza e trocará a tevê por cursos de teatro no exterior

Viviane Rosalem
do Rio de Janeiro

Há poucos meses, Luana Piovani, 23 anos, encontrou um litro de leite estragado entre as compras que tinha acabado de fazer em um supermercado do Leblon, na zona sul do Rio, onde mora. Não hesitou. Telefonou furiosa para o Procon. No dia seguinte, recebeu do fabricante uma caixa novinha e muitas desculpas. Ela sempre reclama por seus direitos e briga pelo que acredita. O episódio em que faz o papel de consumidora exigente é um exemplo da munição que pode detonar o canhão - no sentido belicoso - Luana Piovani. Com temperamento impetuoso, ela é capaz de dirigir seu alvo até para a todo-poderosa da Globo, Marluce Dias da Silva, 48 anos. "A Marluce não pode agir como se fôssemos operários, achando que a Globo é uma fábrica de pizza", critica ela. Luana deixará a Globo em maio de 2000. Procurada por Gente, Marluce Dias da Silva não quis comentar as críticas da atriz.

Luana faz o disparo no momento em que compara Marluce a seu antecessor, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, 63 anos. "Ela é uma ótima business woman, está fazendo a Globo crescer, mas é muito mais racional do que emocional", diz ela. "Boni entendia o fato de o ator não querer fazer certo personagem." Ultimamente, Luana também tem se queixado de seu salário, de cerca de R$ 15 mil. Diz que não ganha nem um terço dos US$ 30 mil que atores americanos ganham por mês fazendo uma soap opera (novela).

O gênio intempestivo virou uma marca. Uma de suas exigências para participar da minissérie Labirinto, em 1998, era receber o script com uma antecedência de 48 horas - há casos em que o ator recebe os capítulos no dia da gravação. Como a emissora não cumpriu o acordo por mais de uma vez, Luana passou a chegar atrasada e a faltar a algumas gravações. Ela também costuma ser arredia quando é convidada para colaborar com as atrações da casa, em programas como o Domingão do Faustão. Quer sempre ser consultada a respeito para avaliar se sua participação será conveniente.

Para ingressar em Malhação, para a qual foi convocada para alavancar a audiência em 1997, Luana impôs uma condição: só permaneceria na novela durante os seis meses em que o autor Carlos Lombardi, que também fora convocado para melhorar a audiência do programa, estivesse assinando os capítulos. Foi Lombardi quem incentivou a direção da novela Quatro por Quatro, em 1995, a incluir a atriz no elenco da novela. "Já ouvi muitos comentários, mas ela sempre foi profissional e educada comigo", diz o autor.

A oito meses de abandonar a carreira na televisão, quando vence seu contrato com a Globo, para estudar teatro com o namorado, o ator Rodrigo Santoro, 24 anos, em Nova York e Florença, Luana não tem medo de perder oportunidades. "É melhor chorar pelo leite derramado do que pelo leite não tomado", diz. "O que é auge? Fazer novela das oito na Globo? Auge é você fazer uma peça com a casa cheia." Luana desdenha sobre a chance de viver a protagonista de uma novela. "Não ganharia mais, as pessoas falariam mais dos meus erros do que dos acertos e eu trabalharia igual a uma condenada", minimiza. Diretor de Luana em Sex Appeal, em 1992, em Quatro por Quatro, em 1995, e atualmente em Suave Veneno, Ricardo Waddington acha precipitada a decisão da atriz de abandonar a carreira para estudar. "A Luana tem talento e vocação, mas ainda precisa amadurecer mais",diz.

Na emissora, a atriz brigou com Denise Saraceni, diretora da Globo que a preteriu da novela Anjo Mau, em 1996. Luana fora escalada para viver a vilã Paula, mas na última hora foi trocada pela atriz Alessandra Negrini, 28 anos. "Foi falta de respeito terem me puxado o tapete assim", conta Luana. "Me mandaram pintar o cabelo de preto três vezes e, depois, de uma hora para outra, me tiraram da novela para me jogar em Malhação", lembra a atriz, que conseguiu levantar a audiência da série.

Luana, que anota na agenda os horários de acordar, decorar seus textos e encontrar o namorado, já anotou também que Suave Veneno é sua última novela. Quer investir no próximo ano no humorístico Garotas de Programa, sem data para estrear na Rede Globo, e na peça A.M.I.G.A.S. (Associação das Mulheres Interessadas em Gargalhadas, Amor e Sexo), em cartaz no Rio, em que é protagonista e produtora. "Fora isso, estarei fechada para balanço", diz. A fama e a beleza pouco ajudaram a atriz na hora de conseguir patrocínio para o espetáculo A.M.I.G.A.S. Ela conta que tomou vários cafezinhos com empresários. "Eles adoravam me ver,", afirma, sem esconder que recebeu vários nãos, até de três grandes empresas para as quais já foi garota-propaganda.

Na vida pessoal, os telefonemas para o Procon não são os únicos exemplos do estilo da atriz. Da empresa telefônica Telemar, ela recebeu contas extras para pagar e, com os comprovantes de pagamento, brigou para corrigir o erro. "Venho de uma família muito pobre. Sempre soube dar valor a tudo", afirma. Os protestos de Luana também proliferam nas companhias aéreas. Ela já chegou a receber uma carta da Varig, com um pedido de desculpas e um aviso de providências tomadas depois de ter reclamado da grosseria de um funcionário da empresa em Recife.

Até o início da adolescência, Luana morou em Jaboticabal, no interior de São Paulo. Em 1988, mudou-se para São Bernardo do Campo e somente anos depois, quando já dava os primeiros passos como atriz, fixou-se de vez na capital paulista. A mãe de Luana, Francis Margarete, 42, foi bancária, e o pai de criação, Valter Piovani, 41, engenheiro agrônomo.

Sobrenome mudado

Sobre o pai biológico, Luana evita falar e não revela seu sobrenome - o primeiro nome é Cassiano. Ele mora em Ribeirão Preto e teve três filhos depois que se separou da mãe de Luana - Lucas, 17 anos, Layci, 15, e Lélia, 10. A atriz tem mais um irmão, Tiago, 18, fruto do segundo casamento da mãe. "Ela sempre teve um carinho tão grande pelo pai de criação que, ainda criança, pediu à mãe para incorporar oficialmente o sobrenome Piovani em seu nome", lembra uma amiga de infância. Valter Piovani sempre teve o pátrio poder sobre Luana.

A atriz conquistou sua independência aos 14 anos, ao ingressar na carreira de modelo. Ela interrompeu os estudos na época para morar quatro meses no Japão, em 1991. Eli Hadid Wahbe, dono da agência Mega, lembra que Luana "sempre foi articulada". Uma das imagens que Eli guarda de Luana é de sua atuação como zagueira central, numa partida de futebol beneficente, disputada entre as modelos. Nos dias atuais, tê-la na passarela pode custar R$ 15 mil.

Naquela época, Luana conheceu Ana Paula Arósio, 23 anos, "uma menina linda, quieta e bem comportada, que estava sempre com a mãe do lado", lembra. Ciúmes de Ana Paula ela afirma que nunca teve, nem na época de Hilda Furacão. Mas um diretor da Globo conta que, enquanto era negociado o empréstimo de Ana Paula do SBT, Luana ficou à espera como uma segunda opção para interpretar a prostituta. "Ela ficou uma fera com o desfecho. E, nesse caso, tinha razão", diz o diretor.

Luana derrubara Ana Paula Arósio em 1992, quando disputaram uma vaga na minissérie Sex Appeal. "Depois de eliminarmos outras 400 candidatas, ficamos eu, ela e outras duas modelos paulistas", lembra Luana. "Sabia que naquela época ela não tinha talento, mas a escolhi pelo temperamento, personalidade, fotogenia e habilidade para interpretar", diz o diretor Ricardo Waddington. No teatro, Luana acumula as peças Nó de Gravata, de Francis Mayer; Dartagnan e os Três Mosqueteiros e, agora, A. M. I. G. A. S., com direção de Cristina Pereira. "A Luana parece ríspida, mas é sincera", diz a diretora.

Trocada por outras

Quem olha o hoje mulherão de 1,78m, cabelos loiros e olhos verdes, não imagina que Luana teve decepções amorosas. "Já fiquei deprimida e fui trocada por outras", diz. "Tomei muito fora. Inclusive do cara que foi minha primeira paixão, eu tomei um tremendo pé na bunda, aos 17 anos", revela. Entre os namorados que Luana teve, está o empresário João Paulo Diniz, 35 anos. Ambos evitam falar do namoro.

Na adolescência, teve sua fase loura má. "Por pura curtição, escolhia o garoto que eu queria ficar, tascava-lhe uns beijos e caía fora, deixando-o com a maior cara de pastel", diverte-se a atriz, que deu seu primeiro beijo aos 12 anos.

Namora o ator Rodrigo Santoro há dois anos e meio e pretende ter filhos com ele. "Temos personalidades fortes, temperamentos difíceis e algumas diferenças, mas nada que atrapalhe nosso relacionamento", ressalta o ator. No início do namoro, Luana brinca que submeteu Santoro ao teste da sunga. "Se o Rodrigo aparecesse com um modelo estampado, florido, apertadinho, enfiado no bumbum ou com a largura fina do lado, eu morreria do coração e o eliminaria logo de cara", diz. Nem sempre o rosto perfeito e o corpo definido abriram portas para a atriz. "Se as feias erram, são perdoadas, agora as beldades são logo rotuladas de bonitas e burras", ressalta. Perfeccionista ao extremo, já declarou que agradece a Deus todos os dias por ter nascido bonita, mas lança uma crítica ao que dele ganhou. "Não queria que meus dentes fossem tortos", confessa. Luana aceitou posar nua uma vez, em junho de 1997, para a revista Trip. Há dois meses soltou mais uma de suas frases polêmicas ao dizer que já tinha ganhado o suficiente para não precisar posar para a Playboy. "Vão ficar sem ver minha perereca", afirmou. Na tevê, ela mantém o suspense. "No meu contrato com a Globo, não existem cláusulas que me resguardem de aparecer nua", explica. "Mas tenho o direito de escolher se quero usar dublê", explica Luana.

Colaborou Paula Quental. Produção: Eduardo Roly. Maquiagem: Rosa Bandeira.
Agradecimentos: Consulado Geral do Japão, Instituto Cultural Brasil-Japão e Mixed.