13 de setembro de 1999
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Fama

Gorete Milagres, a ovelha negra da tevê
A Globo cobra R$ 2 milhões por quebra de contrato e a comediante cria inimigos nos bastidores do SBT

Rodrigo Cardoso
de São Paulo

Quando Gorete Milagres, 35 anos, criou a personagem Filomena, a fama era um sonho distante para essa mineira de Conselheiro Lafaiete. Na época, em 1991, a comediante animava festinhas de crianças em troca de R$ 150. Hoje, como protagonista do humorístico Ô, Coitado!, que vai ao ar todas as quintas-feiras pelo SBT, Gorete chegou lá. O salário atual de R$ 120 mil é 50 vezes maior que há um ano e meio e está entre os maiores da emissora. No entanto, tão evidente quanto o incrível salto na carreira é a coleção de desafetos que Gorete acumulou durante a escalada. Entre outros, compõem a lista os apresentadores Carlos Alberto de Nóbrega e Hebe Camargo, o advogado Sérgio D'Antino, o ator e ex-colega Moacyr Franco, o ex-diretor Guto Franco, os humoristas Renato Aragão e Chico Anysio e a superintendente geral da Globo, Marluce Dias da Silva. "Eu não briguei com ninguém. Eles é que brigaram comigo", defende-se Gorete.

Os percalços tiveram início em maio do ano passado. Por um salário de R$ 7.500 mensais, três vezes mais do que os R$ 2.500 do SBT, ela assinou contrato com a Globo e bateu de frente com um dos maiores humoristas do País, Renato Aragão. "Na Globo, me disseram que eu participaria do programa A Turma do Didi, mas o Renato Aragão sequer me atendeu. Na verdade, ele queria descaracterizar a personagem Filomena. Pulei fora", ela diz. Dois meses depois, Gorete voltava ao SBT para receber R$ 20 mil mensais. Com a transferência, ganhou um programa e um processo movido pela Globo, que exigia R$ 108 mil pela quebra do contrato. Mesmo processada, não poupou Marluce Dias da Silva. "Quando estava fora do ar, pedi pelo amor de Deus para Marluce botar meu rosto na tevê. Só depois de um ano ela me disse que nunca soube dos 'probleminhas' que eu havia enfrentado. Pode?"

O desentendimento com Marluce não impediu que a maior emissora do País voltasse a assediá-la, há dois meses. "Me ofereceram R$ 60 mil, a anulação do processo e um programa", diz Gorete, que chegou a assinar um contrato de cinco anos. Mas, três dias depois, Silvio Santos foi pessoalmente à casa dela e ofereceu-lhe o dobro do salário da rival e um cargo de assessora artística. Novamente, Gorete passou a perna na Globo. "Me chamam de ovelha negra da tevê só porque disse dois nãos para a maior emissora do País. Prefiro ignorar a Globo. Não preciso dela para viver", afirma.

A declaração provocou uma enxurrada de críticas. "Foi a coisa mais feia que já vi", diz o humorista Chico Anysio. "Não entendo por que valorizam tanto esta mulher. Só porque sua personagem usa um bordão e fala de uma maneira engraçada que, do meu ponto de vista, não dá para entender nada?" O advogado Sérgio D'Antino, que assessorou Gorete na transação com a Globo, condenou a sua atitude e disse que não prestará mais serviços para ela. "Não fui contratado para participar de um leilão", justifica.

Ignorando as críticas, Gorete, agora com status de estrela de alta grandeza no SBT, disse o que queria fazer e levou a melhor. Pediu a Silvio Santos, por exemplo, que Filomena não participasse mais do humorístico A Praça é Nossa. Carlos Alberto de Nóbrega, apresentador do programa, que apadrinhou a comediante no início da carreira, ficou mais magoado com Silvio Santos, que acatou a exigência sem consultá-lo antes. "Na Praça ela não pisa nunca mais. Se isso acontecer, deixo de fazer tevê e encerro minha carreira", esbraveja Carlos Alberto. "Não sou bobo da corte."

Desvinculada da Praça, Filomena passou a mostrar suas piadas apenas no humorístico Ô, Coitado!. E foi justamente nos estúdios de gravação do programa que ela encontrou dois novos desafetos: Moacyr Franco, que contracenava com ela, e Guto Franco, filho de Moacyr, que a dirigia. "A Gorete queria trazer seus amigos de Belo Horizonte para trabalhar e estava passando por cima de mim", diz Guto. Segundo ele, há um mês a comediante passou a fazer corpo mole nas gravações, reclamava ao repetir uma cena e não cumprimentava atores convidados. "Certo dia, peguei-a pelo braço e expliquei que dar bom-dia é uma forma de profissionalismo. Ela disse que não estava nem aí para ninguém e que queria ser tratada como estrela. Respondi que estrelas eram aqueles que nascem e sobrevivem debaixo de viadutos", conta. "Ela é prepotente." Mês passado, Guto despediu-se do cargo. Uma semana depois, seu pai, Moacyr, também saiu, em solidariedade ao filho. "Fizemos 20 programas e ficamos em primeiro no Ibope em 18. Estou tristíssimo. Mas não discuto com o destino. Ela que seja feliz com os atores campeões de bilheteria dela", diz Moacyr.

A apresentadora Hebe Camargo tomou as dores dos amigos e partiu para o ataque a Gorete, dizendo publicamente que o sucesso subiu à cabeça da comediante e a fez perder o rumo. De desafeto número um da rival Globo, Gorete ficou com a barra suja também com os companheiros do SBT. "Isso se chama monopólio do humor. É a velha guarda tentando impedir a ascensão da nova geração. Eles estão com inveja de mim", diz Gorete. Segundo a comediante, Guto Franco abandonou o programa porque não admitia ganhar menos do que ela e ficou irritado quando a comediante passou a dar palpites. "Contracenava com amigos do diretor e estava nas mãos de roteiristas incompetentes. Sempre colocavam uma bobagem na boca da Filomena. Não podia ficar quieta. Mas o Guto dizia que tudo isso não era da minha conta."

Multa milionária

Por enquanto, Gorete leva vantagem na queda de braço. Silvio Santos chamou Guto em sua sala para pedir-lhe desculpas e avisá-lo de que Gorete ficaria com o programa. Na quinta-feira 2, Ô, Coitado! foi ao ar pela primeira vez sob nova direção e empatou com a Globo, com média de 16 pontos no Ibope. No momento, o único dado que atormenta a comediante é o processo que a Globo move contra ela, referente à segunda quebra de contrato - mas, na negociação com Silvio Santos, ficou estabelecido que o SBT pagará a multa na Justiça. Avaliada em julho em R$ 408 mil, a multa já chegou aos R$ 2 milhões. Por decisão da Justiça, a partir de agora o valor aumenta em R$ 300 a cada dia. "Ela nos abandonou e deve pagar por isso", afirma André Dias, diretor de Contratos Artísticos da Globo.

Com a segurança de quem deu duro para chegar aonde chegou, e comprovou na raça a popularidade de seus personagens - "Teve época em que, para ganhar R$ 2,5 mil, fazia shows em canteiros de construção civil para pedreiros e engenheiros"-, Gorete, uma ex-bancária, não teme voltar aos tempos em que sobrevivia de apresentações em ônibus e passarelas. "Se precisar, volto a fazer teatro na rua com a Filomena para sobreviver." Ninguém duvida.