06 de setembro de 1999

 

 

Entrevista: Diogo Vilela

"Não levanto bandeira"
Na sua melhor fase, ator diz que fragilizaria seu trabalho se revelasse opção sexual

Rosângela Honor
do Rio de Janeiro

No início de agosto, Diogo Vilela foi assistir à estréia da temporada carioca da cantora Maria Bethânia no Canecão. Seria mais um espectador, mas acabou virando atração. Foi aplaudido de pé ao chegar à casa de espetáculos. Aos 41 anos, dos quais 28 dedicados à carreira, o ator experimenta pela primeira vez o sucesso junto ao grande público na pele do guru homossexual Uálber, da novela Suave Veneno.

Penúltimo de seis irmãos, Diogo Vilela estreou na televisão aos 12 anos, na novela A Ponte dos Suspiros, de Dias Gomes. Aos 17 anos, quando saiu de casa, já era ator profissional. Desde então, sua trajetória na televisão e no teatro é marcada por prêmios. Em 1996, arrebatou a crítica ao interpretar Nélson Gonçalves na peça Metralha, sobre a vida do cantor. Só no ano passado, conquistou seis prêmios com o espetáculo Diário de Um Louco, entre os quais o Sharp, o Shell e o Mambembe de melhor ator. Carioca de Botafogo, criado em Vila Isabel, na zona norte do Rio, ele já perdeu a conta do número de novelas que acumula em seu currículo. "Só sei que são mais de 20", diz. Apesar disso, revela a Gente que planejava abandonar a tevê quando foi convidado para viver Uálber.

O Uálber é seu papel mais importante na TV?
É o mais polêmico. O Uálber veio num momento de mudança de comportamento, de moral e de costumes. Quando se fala em homossexual no Brasil, a gente já imagina como ele seja. O Uálber surpreendeu mais pela afetividade do que pela sexualidade. Vivemos um momento sem afeto. Mas não fui discriminado por nenhuma pessoa, nem criança. As pessoas ficaram solidárias ao fato de ele pertencer a uma minoria, até quem é preconceituoso.

O André Gonçalves foi discriminado quando interpretava um gay em A Próxima Vítima. Chegou a ser agredido num bairro do Rio. Você já sofreu alguma retaliação?
Nunca passei por isso. Nessa novela (Suave Veneno), o tema foi muito aprofundado. O brasileiro é solitário em suas frustrações e desejos. Por isso, a tevê completa a vida das pessoas. O brasileiro é pouco realizado. Por anos, fomos enrolados politicamente e somos quase tratados como miseráveis, de forma indigna. Por isso, compreendemos qualquer dor, se for verdadeira. Nunca fiz uma cena gratuita na novela. Concordei com todas como artista. Essa novela tem muita importância para a modernidade da televisão brasileira. Conseguiu comprimir o preconceito, através do afeto.

Seu sucesso veio tardiamente?
Não. Televisão é sorte e a minha veio agora, aos 40 anos. Agora é que estou tendo reconhecimento na tevê, depois de 20 anos. O Daniel Filho foi muito importante para mim. Me induziu a fazer o Uálber. Ele me tratou com muito respeito. No começo, tinha medo de ser mal exposto. Normalmente, a novela fala dos temas genericamente, nem sempre há tempo para aprofundá-los. A novidade é que Aguinaldo Silva quis aprofundar o tema do homossexualismo.

Você não teve receio da reação das pessoas?
Depois que eu li o texto, vi a dimensão do personagem. Temi que houvesse censura, mas não houve. Foi praticamente um milagre a televisão ter conseguido aprofundar tanto. Sempre quis ter um papel social. Não quis só ganhar dinheiro. A minha história é a de um ator que saiu de casa para ser ator.

Ainda existe muito preconceito?
A visão homossexual foi exportada sem afeto. A palavra gay é americana. Temos uma característica forte. Conseguimos unir afeto e tesão. Há um mês, fui aplaudido no show da Bethânia, no Canecão. As mulheres foram as primeiras a privilegiar a afetividade. Foram as primeiras a aceitar o Uálber porque entendem de afeto. O sexo é uma característica pessoal de cada um. Somos um povo que rebola, que põe a bunda na televisão, falamos da bunda. Nós não ignoramos a bunda. A Tiazinha é importante. É uma manifestação ainda infantil do que queremos de liberdade. O preconceito vem da infelicidade sexual e nunca será extinto. Preconceito é a dificuldade de aceitar.

Vários artistas já se declararam gays, como o próprio Aguinaldo Silva. Você levantaria essa bandeira?
Não. Meu trabalho já levanta esse questionamento. Se eu levantasse, fragilizaria meu trabalho. Mesmo que eu fosse casado e tivesse seis filhos, não teria vontade de expor isso. Preciso preservar o Diogo. Tenho necessidade de ser uma pessoa independente do artista. Para isso, faço análise há anos. Se me pedissem para fazer uma cena de beijo, faria. Se começasse a entrar com minha personalidade, estragaria tudo. Quando me der vontade, vou contar toda a minha vida em livro.

Você é bem pago?
Não. Nenhum ator é bem pago. A tevê só paga bem aos apresentadores, que têm salários milionários. Ganho muito bem para uma pessoa que vive no Brasil, mas não em relação ao sucesso que eu faço.

Foi difícil renovar seu contrato com a Globo?
Tive um aumento legal, mas não é nada exorbitante. Nós, atores, ainda não ganhamos como os apresentadores. Por outro lado, é uma afronta ganhar uma fortuna num país como o Brasil. Não me sinto inferior como artista por não ganhar tanto quanto alguns apresentadores.

O que prevê seu contrato?
É de três anos e me permite fazer teatro. Não sou galã. Não sendo galã, é muito difícil depender só da tevê. Sempre achei que não sobreviveria na televisão exatamente por isso. Quando me chamaram para essa novela, já estava desistindo de fazer televisão para me dedicar exclusivamente ao teatro e ao cinema. Lotava os teatros, mas ninguém me dava um bom personagem. Na hora em que ia desistir, me chamaram para fazer o Uálber. Mas o teatro é a minha prioridade. Não posso deixar a minha carreira na mão de terceiros. A TV Globo sabe que sou produtor de teatro e respeita isso.

Quais são seus planos para o teatro?
Meu sonho é fazer uma peça com a Fernanda Montenegro. Já trabalhei com ela em Incidente em Antares. Mas queria atuar junto com ela no teatro ano que vem. Estou cansado, mas não vou tirar férias. Tenho pavor de férias. Essa palavra me deixa angustiado. Só deve tirar férias quem não tem a minha profissão. Precisaria tirar férias da minha cabeça. Fico o dia inteiro estudando as cenas. O lazer me angustia. Ia ficar tensíssimo se fizesse as malas e embarcasse num navio.

Você é tímido?
Sou. Posso me expor à vontade como artista mas não tenho vontade de me expor como pessoa porque sofreria muito. Tenho um mundo dentro de mim que só eu conheço. Tenho um lado masculino muito forte, que é a minha energia, mas tenho uma sensibilidade que beira o feminino. Tenho uma sensibilidade muito à flor da pele para um homem. Tudo me toca. Quando era menor, isso me causava conflitos.

Como é sua relação com seus familiares?
O meu relacionamento com eles é maravilhoso. Eles são pessoas com almas de artista, sem serem. A minha família é meio mineira e meio baiana. Fui criado com muito requinte. Tive uma educação de príncipe Albert, morando em Vila Isabel. Na minha família, não há julgamento. Nunca ouvi a palavra negro na minha família. Nunca ouvi em casa expressões como aquela puta, aquele negro, aquele viado. A questão da sensibilidade sempre foi entendida.

Você mudou seu comportamento sexual depois da Aids?
Sou da geração Cazuza, da turma do Posto 9. Tive um contato muito próximo com a morte. Mesmo assim, sempre me recusei a aceitar a Aids como um castigo. Da mesma maneira ainda não entendi essa mudança que sofremos com a Aids. Perdi muitos amigos, muita gente que eu amava. Mudei totalmente meus costumes. Não a minha liberdade interior, mudei meu ponto de vista do prazer. Por isso, sobrevivi. E decidi mudar para sobreviver.