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"Mãe,
vovô virou rei?"
Na
convivência com o poder, os netos de FHC têm medo de dormir
no Alvorada e são censurados na hora da tevê
Cláudia
Carneiro
de Brasília
Pedrinho,
6 anos, não gosta da cama grande e do imenso quarto
que tem para dormir quando visita a capital brasileira. Lá,
há um comprido e largo corredor que separa os quartos
dos salões envidraçados com cortinas brancas.
Cadeiras e quadros antigos e tapetes estampados gigantescos
fazem parte da decoração do Palácio da
Alvorada. Sob a ótica infantil, porém, eles
mais parecem peças de museu e não propiciam
nenhuma sensação de conforto, típica
das casas de família - especialmente à noite,
quando fica mais forte a impressão de solidão.
O jeito
é andar pelo corredor do segundo andar de pijama até
o quarto principal, onde dormem o presidente da República,
Fernando Henrique Cardoso, e a primeira-dama, Ruth. Pedrinho
não hesita em mudar de quarto e se aconchegar na cama
dos avós. Sua irmã, Júlia, 10 anos, faz
o mesmo. Mas a garota, por ser mais velha, ganha uma cama
improvisada.
"As
crianças não dão bola para coisas de
poder", disse Fernando Henrique Cardoso a Gente. "Elas
brincam, fazem barulho como se estivessem em qualquer outro
lugar." Pedrinho e Júlia são filhos de
Beatriz, 39 anos, filha mais nova de FHC e Ruth, e de David
Zylberstajn, 44 anos, diretor-geral da Agência Nacional
do Petróleo (ANP), órgão regulador vinculado
ao Ministério das Minas e Energia.
Muitos
privilégios
Fernando Henrique Cardoso tem outros dois filhos - Paulo Henrique,
45 anos, e Luciana, 41. E cinco netos, no total. Além
de Júlia e Pedrinho, há a neta caçula,
Isabel, 4 anos, filha de Luciana, hoje secretária particular
do presidente, casada com Getúlio Vaz, professor de
História. E as gêmeas Joana e Helena, 12 anos,
filhas de Paulo Henrique com Ana Lúcia Magalhães
Pinto, com quem foi casado por 17 anos até pouco mais
de um ano e meio atrás.
Normalmente,
a aversão das crianças ao Alvorada ocorre à
noite e em cerimônias oficiais. Durante o dia, porém,
elas têm o privilégio de brincar nos imensos
jardins da residência presidencial. É o lado
bom que o poder propicia.
Existe
um lago com peixes coloridos e patos. Emas transitam no gramado.
A maior diversão fica por conta de uma piscina grande,
com escorregador e brinquedos. É ali que ocorrem as
festas de aniversário dos netos do presidente, como
a de Júlia, no ano passado, que transformou o Palácio
do Alvorada em um bufê infantil com bexigas, bolos,
doces e crianças correndo por todo lado.
Outro
lado bom e divertido para a garotada presidencial é
conhecer celebridades. Os netos de FHC já posaram para
fotos ao lado do papa João Paulo II, em 1997, da seleção
brasileira, em 1998, e dos atletas do último Pan-americano,
há duas semanas.
O lado
ruim da história é que os netos de FHC convivem
com um aparato de seguranças em todos os lugares que
freqüentam. Além, é claro, das babás.
O cerimonial exigido pelo cargo de Fernando Henrique é
outra chateação para eles. "Às vezes,
as crianças reclamam de tirar fotografias ou aparecer
em público", diz o presidente.
Pelas
obrigações da primeira família, a maior
parte dos netos de FHC leva uma vida entre São Paulo,
Rio e Brasília. Pedro e Júlia, filhos de Beatriz
e David, moram hoje em um apartamento alugado de quatro dormitórios
no Leblon, bairro nobre do Rio de Janeiro. Os finais de semana
ou feriados prolongados, as crianças passam com os
avós. "Quando vamos a São Paulo, moramos
nas mesmas casas. Não houve mudança no estilo
de convivência", diz o presidente.
Em julho,
Fernando Henrique e Ruth levaram Júlia e Pedro à
Chapada dos Veadeiros, paraíso bucólico a 200
quilômetros de Brasília. Lá o presidente
e a primeira-dama dispensaram os seguranças, driblaram
a imprensa e conseguiram passear com os netos anônimos
pela região. Quando deparou-se com o avô FHC
debaixo da imensa cachoeira, Pedrinho, 6 anos, improvisou:
"Vovó, o vovô nada pra caramba."
Críticas
ao governo
A caçula, Isabel, a única que mora em Brasília,
é a mais familiarizada com o poder - quando nasceu,
o avô já era presidente. No Alvorada, ela costuma
passar horas com lápis coloridos e papel nas mãos.
"Isabel gosta muito de desenhar, mas ela chama a atenção
por sua simplicidade", comenta a professora da menina,
Iara Oliveira, 34 anos.
Sempre
com seguranças por perto, ela já freqüenta
shopping center, acompanhada da babá. Suas relações
com outras crianças da idade são restritas.
Sua melhor amiguinha para brincar é Ana Luíza,
filha de Valdi, o porteiro da escola em Brasília. "É
fundamental o comportamento dos pais e da família para
que as crianças tenham uma relação saudável
com o poder", afirma a pedagoga e orientadora educacional
Míriam Sócrates, proprietária do Criarte
Centro de Ensino de Brasília, onde estuda Isabel. "A
família do presidente conduz a situação
sem restrição ou qualquer distinção
para as crianças", conclui Miriam.
Os netos
do presidente despertam a curiosidade dos colegas de colégio
e, vez ou outra, lidam com cobranças ou brincadeiras
de mau gosto de amigos. Joana e Helena, as netas mais velhas,
são as que têm menor contato com os avós,
desde que Paulo Henrique Cardoso separou-se de Ana Lúcia
Magalhães Pinto.
Mas as
meninas, pela idade, são as mais suscetíveis
à exposição por integrarem a família
presidencial. Joana já teve de enfrentar críticas
ao governo na escola. Em certa ocasião, ouviu de filhos
de empresários que seus pais reclamavam da forma como
o avô comanda a economia. "As meninas às
vezes se chateiam com alguma coisa, o que não se torna
problema, porque elas não estão em idade de
dar importância a eventuais críticas feitas ao
avô", diz Paulo Henrique, hoje diretor do Conselho
Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável,
uma ONG com sede no Rio de Janeiro.
O convívio
que eles têm com o avô, FHC não teve. O
menino Fernando Henrique Cardoso não chegou a conhecer
os pais de seus pais. Seu avô paterno, marechal Inácio
Batista Cardoso, nascido em 1860, morreu antes que o neto
nascesse, em 1931. "Mesmo depois de morto, a presença
dele era muito forte nas conversas de casa", recorda
FHC, que guarda histórias de outro marechal, Floriano
Peixoto, com quem seu avô trabalhou na Presidência
da República.
Embora
Fernando Henrique não tenha acompanhado a inclinação
familiar para o Exército, o neto Pedrinho mostra interesse:
"Ele adora fardas e tudo relacionado com o mundo militar",
conta José Gregori, secretário de Direitos Humanos
e amigo da família há quatro décadas.
No desfile de 7 de setembro de 1998, Pedrinho não deixava
passar uma só banda sem que batesse continência.
A primeira-dama,
Ruth Cardoso, faz outro papel. É ela quem conta histórias,
leva as crianças ao cinema ou dá o devido puxão
de orelhas. Principalmente na hora da televisão. Ruth
desaprova a erotização da programação
das emissoras. Por isso, os menores têm hora certa de
ficar na frente da telinha.
O convívio
com o poder cria, porém, situações folclóricas
para as crianças. Em 1997, quando Júlia, com
8 anos, viu uma foto do avô tirada em Portugal, vestido
de toga e capelo para receber uma homenagem na Universidade
de Coimbra, ela improvisou: "Mamãe, o vovô
virou rei?".
Colaborou
Neuza Sanches, de São Paulo
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