23 de agosto de 1999

 

 

"Mãe, vovô virou rei?"
Na convivência com o poder, os netos de FHC têm medo de dormir no Alvorada e são censurados na hora da tevê

Cláudia Carneiro
de Brasília

Pedrinho, 6 anos, não gosta da cama grande e do imenso quarto que tem para dormir quando visita a capital brasileira. Lá, há um comprido e largo corredor que separa os quartos dos salões envidraçados com cortinas brancas. Cadeiras e quadros antigos e tapetes estampados gigantescos fazem parte da decoração do Palácio da Alvorada. Sob a ótica infantil, porém, eles mais parecem peças de museu e não propiciam nenhuma sensação de conforto, típica das casas de família - especialmente à noite, quando fica mais forte a impressão de solidão.

O jeito é andar pelo corredor do segundo andar de pijama até o quarto principal, onde dormem o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, e a primeira-dama, Ruth. Pedrinho não hesita em mudar de quarto e se aconchegar na cama dos avós. Sua irmã, Júlia, 10 anos, faz o mesmo. Mas a garota, por ser mais velha, ganha uma cama improvisada.

"As crianças não dão bola para coisas de poder", disse Fernando Henrique Cardoso a Gente. "Elas brincam, fazem barulho como se estivessem em qualquer outro lugar." Pedrinho e Júlia são filhos de Beatriz, 39 anos, filha mais nova de FHC e Ruth, e de David Zylberstajn, 44 anos, diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), órgão regulador vinculado ao Ministério das Minas e Energia.

Muitos privilégios
Fernando Henrique Cardoso tem outros dois filhos - Paulo Henrique, 45 anos, e Luciana, 41. E cinco netos, no total. Além de Júlia e Pedrinho, há a neta caçula, Isabel, 4 anos, filha de Luciana, hoje secretária particular do presidente, casada com Getúlio Vaz, professor de História. E as gêmeas Joana e Helena, 12 anos, filhas de Paulo Henrique com Ana Lúcia Magalhães Pinto, com quem foi casado por 17 anos até pouco mais de um ano e meio atrás.

Normalmente, a aversão das crianças ao Alvorada ocorre à noite e em cerimônias oficiais. Durante o dia, porém, elas têm o privilégio de brincar nos imensos jardins da residência presidencial. É o lado bom que o poder propicia.

Existe um lago com peixes coloridos e patos. Emas transitam no gramado. A maior diversão fica por conta de uma piscina grande, com escorregador e brinquedos. É ali que ocorrem as festas de aniversário dos netos do presidente, como a de Júlia, no ano passado, que transformou o Palácio do Alvorada em um bufê infantil com bexigas, bolos, doces e crianças correndo por todo lado.

Outro lado bom e divertido para a garotada presidencial é conhecer celebridades. Os netos de FHC já posaram para fotos ao lado do papa João Paulo II, em 1997, da seleção brasileira, em 1998, e dos atletas do último Pan-americano, há duas semanas.

O lado ruim da história é que os netos de FHC convivem com um aparato de seguranças em todos os lugares que freqüentam. Além, é claro, das babás. O cerimonial exigido pelo cargo de Fernando Henrique é outra chateação para eles. "Às vezes, as crianças reclamam de tirar fotografias ou aparecer em público", diz o presidente.

Pelas obrigações da primeira família, a maior parte dos netos de FHC leva uma vida entre São Paulo, Rio e Brasília. Pedro e Júlia, filhos de Beatriz e David, moram hoje em um apartamento alugado de quatro dormitórios no Leblon, bairro nobre do Rio de Janeiro. Os finais de semana ou feriados prolongados, as crianças passam com os avós. "Quando vamos a São Paulo, moramos nas mesmas casas. Não houve mudança no estilo de convivência", diz o presidente.

Em julho, Fernando Henrique e Ruth levaram Júlia e Pedro à Chapada dos Veadeiros, paraíso bucólico a 200 quilômetros de Brasília. Lá o presidente e a primeira-dama dispensaram os seguranças, driblaram a imprensa e conseguiram passear com os netos anônimos pela região. Quando deparou-se com o avô FHC debaixo da imensa cachoeira, Pedrinho, 6 anos, improvisou: "Vovó, o vovô nada pra caramba."

Críticas ao governo
A caçula, Isabel, a única que mora em Brasília, é a mais familiarizada com o poder - quando nasceu, o avô já era presidente. No Alvorada, ela costuma passar horas com lápis coloridos e papel nas mãos. "Isabel gosta muito de desenhar, mas ela chama a atenção por sua simplicidade", comenta a professora da menina, Iara Oliveira, 34 anos.

Sempre com seguranças por perto, ela já freqüenta shopping center, acompanhada da babá. Suas relações com outras crianças da idade são restritas. Sua melhor amiguinha para brincar é Ana Luíza, filha de Valdi, o porteiro da escola em Brasília. "É fundamental o comportamento dos pais e da família para que as crianças tenham uma relação saudável com o poder", afirma a pedagoga e orientadora educacional Míriam Sócrates, proprietária do Criarte Centro de Ensino de Brasília, onde estuda Isabel. "A família do presidente conduz a situação sem restrição ou qualquer distinção para as crianças", conclui Miriam.

Os netos do presidente despertam a curiosidade dos colegas de colégio e, vez ou outra, lidam com cobranças ou brincadeiras de mau gosto de amigos. Joana e Helena, as netas mais velhas, são as que têm menor contato com os avós, desde que Paulo Henrique Cardoso separou-se de Ana Lúcia Magalhães Pinto.

Mas as meninas, pela idade, são as mais suscetíveis à exposição por integrarem a família presidencial. Joana já teve de enfrentar críticas ao governo na escola. Em certa ocasião, ouviu de filhos de empresários que seus pais reclamavam da forma como o avô comanda a economia. "As meninas às vezes se chateiam com alguma coisa, o que não se torna problema, porque elas não estão em idade de dar importância a eventuais críticas feitas ao avô", diz Paulo Henrique, hoje diretor do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, uma ONG com sede no Rio de Janeiro.

O convívio que eles têm com o avô, FHC não teve. O menino Fernando Henrique Cardoso não chegou a conhecer os pais de seus pais. Seu avô paterno, marechal Inácio Batista Cardoso, nascido em 1860, morreu antes que o neto nascesse, em 1931. "Mesmo depois de morto, a presença dele era muito forte nas conversas de casa", recorda FHC, que guarda histórias de outro marechal, Floriano Peixoto, com quem seu avô trabalhou na Presidência da República.

Embora Fernando Henrique não tenha acompanhado a inclinação familiar para o Exército, o neto Pedrinho mostra interesse: "Ele adora fardas e tudo relacionado com o mundo militar", conta José Gregori, secretário de Direitos Humanos e amigo da família há quatro décadas. No desfile de 7 de setembro de 1998, Pedrinho não deixava passar uma só banda sem que batesse continência.

A primeira-dama, Ruth Cardoso, faz outro papel. É ela quem conta histórias, leva as crianças ao cinema ou dá o devido puxão de orelhas. Principalmente na hora da televisão. Ruth desaprova a erotização da programação das emissoras. Por isso, os menores têm hora certa de ficar na frente da telinha.

O convívio com o poder cria, porém, situações folclóricas para as crianças. Em 1997, quando Júlia, com 8 anos, viu uma foto do avô tirada em Portugal, vestido de toga e capelo para receber uma homenagem na Universidade de Coimbra, ela improvisou: "Mamãe, o vovô virou rei?".

Colaborou Neuza Sanches, de São Paulo