16 de agosto de 1999

 

 

O anjo endiabrado
Estrela da próxima novela das oito, Ana Paula Arósio freqüenta boates gays, diz que dormiu depois de fumar maconha e quer desfazer a imagem de bonequinha de luxo que a acompanha desde os tempos de modelo

Gisele Vitória e Rodrigo Cardoso
de São Paulo


(foto: Edu Lopes)

Há poucas semanas, a atriz Ana Paula Arósio, 24 anos, chegou com três amigos a uma boate de público GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), em São Paulo, e logo se lançou na pista de dança. No ritmo do som bate-estaca do ambiente alegrado por esfuziantes drag queens, ela abaixou-se bruscamente e rasgou sua calça jeans do bumbum ao zíper. Com a mesma desenvoltura com que escolhe duas ou três peças de roupa na hora de sair à noite, amarrou a blusa de um amigo na cintura e exauriu-se até às cinco da manhã.

Desde que terminou, em abril, o relacionamento de dois anos com o ator Tarcísio Filho, dançar à noite em pistas de boates gays é sua principal diversão. "Outro dia perguntei a minha filha: 'Você precisa freqüentar esse tipo de ambiente? Andam dizendo que você é homossexual!'", comenta sua mãe, Claudete Aparecida, 54 anos. Ana Paula diz que tem vários amigos homossexuais e que é nas boates gays que descansa do frenético assédio dos fãs e da imprensa. "Lá ninguém me incomoda e eu adoro drag queens", diverte-se, como uma espécie de Leila Diniz do novo milênio. "Não sei se teria uma relação com alguém do mesmo sexo. Acho que não. Eu gosto de homem, o que vou fazer?"

Ana Paula é uma antiestrela: não quer saber se seu comportamento pode chocar os que esperam dela uma imagem irretocável, como as divas de outros tempos. É mais comum vê-la entremeando ruidosas gírias e palavrões do que medindo palavras. "Ando comendo como uma porca. Mas não dá para ficar balofa no vídeo", ela diz, lambuzando de ketchup um misto quente. A um mês de estrear como protagonista da próxima novela das oito, Terra Nostra, de Benedito Rui Barbosa - uma história de 300 capítulos que conta em três fases a saga de uma família de imigrantes italianos -, a atriz é o trunfo da Rede Globo numa superprodução para alavancar a audiência no horário nobre.

A responsabilidade de cumprir uma aposta cara não lhe tira a liberdade de ser quem é. Por trás do rosto de anjo que está estampado em outdoors em todo o País, há uma mulher jovem que busca intensamente prazeres e emoções. "Não sou linear como uma personagem de teatro infantil", ela diz.

Misto das sobrancelhas espessas do pai, o ex-mecânico de máquinas Carlos Arósio, 60 anos, com os olhos azuis da mãe, ex-secretária de uma fábrica de macarrão, Ana Paula se diverte passando por feia. Talvez porque seu rosto seja bonito a ponto de incomodar. "Sinto que as pessoas ficam desconfortáveis frente a frente comigo", diz. Uma estudante de artes cênicas a intercepta na lanchonete do teatro Ruth Escobar, em São Paulo, onde encerrou a temporada da peça Harmonia em Negro: "Oi, tudo bem? Pode assinar aqui?", pede. Em segundos, a encara: "Oi, tudo bem!?", repete, atrapalhada. "Nossa, como você é bonita!" Ana Paula sorri. O mal-estar revela mistérios que põem em pé de igualdade beleza e feiúra em excesso. "Enquanto for o rostinho bonito, ótimo. Melhor do que ser a gostosona que todo mundo quer comer", ela ironiza.


Ana Paula vestida de caipira, aos cinco anos, na festa junina da pré escola

É o que pensa. Um empresário brasileiro já ofereceu sem pudores para sua mãe uma fazenda em troca de uma noite com Ana Paula. Claudete lembra que, em festas promovidas por agências de modelos, já teve de distribuir bolsadas em marmanjos que insistiam em apertar o bumbum da filha. Um sheik árabe uma vez quis comprá-la e um paulistano parou o trânsito para lhe entregar um buquê de flores. Há quatro anos, quando ainda morava com os pais e o irmão Marcos, hoje com 19 anos, Ana Paula viu da janela do sobrado em Interlagos, bairro da zona sul de São Paulo, um caminhão estacionar. Era um fã com um cavalo de presente. Claudete conseguiu convencer o rapaz de que a horta de seu quintal era pequena demais para criar cavalos - a paixão de Ana Paula.

VÍTIMA DE MANÍACOS Quem a vê risonha diante de delírios alheios não tem idéia de seus apuros. Aos 15 anos, dois homens tentaram raptá-la no metrô de Paris. Enquanto os marginais, com trajes punks, puxavam-na pelo braço esquerdo, sua mãe fazia o mesmo com o direito e tentava aos berros chamar a atenção dos passageiros. Em outra ocasião, Ana Paula ficou quinze dias sem freqüentar o colégio e trabalhar por causa de um maníaco que ligava todos os dias e ameaçava seqüestrar alguém da família, caso ela botasse o pé fora de casa. "Meu medo era tanto que pedia para uma vizinha comprar pão para mim", lembra Claudete.

Há um mês, a atriz foi surpreendida por um saco com arroz vindo da platéia ao final da peça Harmonia em Negro, estrelada por ela e pelo ator Cássio Scapin, 33 anos. Na saída do teatro, seguranças revistaram o autor do pequeno atentado e descobriram um revólver na cintura. "Eu vi o cara na platéia. Sou escolada com doido. E até comentei com o Cássio que tinha alguém estranho ali", diz. Mesmo assim, ela não se mostra apavorada. "O que posso fazer?", indaga.

Ana Paula está tarimbada em freqüentar divãs de psicoterapeutas. Hoje, consegue falar com tranqüilidade da tragédia que antecipou sua maturidade. "Estar viva é um milagre", diz. Aos 20 anos, ela assistiu ao suicídio do noivo, o empresário Luiz Carlos Tjurs, que se matou aos 29 anos por ciúmes com um tiro na boca, em 3 de novembro de 1996. "O Luiz queria me matar. Ele apontou o revólver para mim várias vezes e, no fundo, eu pedia a Deus para ele terminar logo com aquilo."

MORTE DE PERTO Impressionante pensar que os olhos de Ana Paula puderam observar com atenção detalhes aterrorizantes da morte. "Já viu como é fácil apertar um gatilho?", diz. "Se deixar aquela travinha levantada, não precisa fazer força. Basta uma tremidinha e a arma dispara." O noivo já havia tentado se matar outras vezes. Nos meses em que namorou o empresário, Ana Paula conviveu com o perigo da morte, mas estava apaixonada. "Minha filha deveria tê-lo conhecido melhor. Só depois soubemos que o Luiz tinha problemas", lamenta a mãe da atriz, sem querer estender o assunto.

No início de agosto, na semana de descanso antes de recomeçar as gravações de Terra Nostra, no Rio - gravou em São Paulo, no Museu do Imigrante, e em Southampton, sul da Inglaterra -, Ana Paula, por falta de tempo para dedicar ao dentista, extraiu quatro dentes sisos de uma só vez, numa maratona odontológica de 90 minutos. O esforço é como se marcasse o início de sua arrancada profissional. A partir de agora, estará concentrada na personagem Giuliana. "O Benedito (Rui Barbosa, autor da novela) me avisou: 'Fofinha, você vai ter que trabalhar muito'", diz. Não representa pouco o investimento que a Globo está fazendo em sua carreira. A novela é a produção mais cara desde O Rei do Gado. Cada capítulo custará, em média, 30% mais que os R$ 90 mil das novelas de horário nobre. Ana Paula foi escolhida antes da equipe de direção. "Ela é iluminada. Uma atriz completa, vibrante e intensa. E um belo par de olhos", diz o diretor Jaime Monjardim. "Tem tudo para brilhar em Hollywood."

Entre o dia em que, há 12 anos, uma caça-talentos a viu atrás de um carrinho de supermercado, em São Paulo, e a estréia de Terra Nostra, Ana Paula foi alçada à condição de ex-modelo e atriz de talento em Hilda Furacão, minissérie da Globo, em 1998. Antes, fez três novelas no SBT (Éramos Seis, Razão de Viver e Os Ossos do Barão), três peças de teatro (Batom, Fedra e Harmonia em Negro) e dois filmes brasileiros (Forever e Os Cristais Debaixo do Trono, que não estreou). "Ela está preenchendo um espaço que andava vago. O de uma atriz belíssima, talentosa e inteligente", diz Cássio Scapin. No time de estrelas da Globo - onde recebe salário em torno de R$ 30 mil mensais -, o sucesso lhe rendeu um polpudo contrato de três anos com a Embratel. Para defender o código de discagem 21, ela ganhou, segundo informações de publicitários, R$ 1 milhão, o que corresponde a um rendimento mensal de R$ 35 mil. O contrato prevê que Ana Paula seja uma moça bem comportada. Não pode falar de política, nem em quem votou ou criticar o presidente Fernando Henrique Cardoso. Também não pode posar nua.

MACONHA E COCAÍNA Mesmo com uma vida profissional precoce, cursou dois anos de Letras, na Universidade de São Paulo (USP). No mesmo ano em que prestou o vestibular, havia sido aprovada para Psicologia na Faculdade Mackenzie e para História na Pontifícia Universidade Católica paulista. Mas sua opção profissional já parecia ter sido tomada aos 15 anos, quando trabalhava 17 horas por dia, no Japão. Nessa época, Ana Paula dividia estúdios com modelos que cheiravam cocaína e "davam uns tapinhas" em cigarros de maconha nos intervalos das sessões de fotos. "Já fumei maconha, mas não achei graça. Dormi depois", diz a atriz. "O resto, nunca experimentei. As modelos me viam como menininha e não me ofereciam cocaína. Quando passaram a oferecer, já tinha visto gente entrar pelo cano e sabia o que queria."

A infância interrompida por maratonas em estúdios não precipitou, segundo ela, a iniciação sexual. "Perdi a virgindade só depois dos 19", afirma. Aos 16 anos, mesmo com um namorado 11 anos mais velho freqüentando a casa dos pais, ela ainda brincava com Barbies. Enquanto fotografava em estúdios de Nova York, sua mãe corria as ruas à procura de roupas para suas bonecas, que guarda até hoje. "Assim, nunca esqueço seu lado infantil", diz Claudete. Como toda jovem de 19 anos ainda virgem, ela se preocupou com a estréia. "Imagina eu, velhona, dizer que não tinha transado e que ainda ia descobrir o que era o tal do orgasmo. Você nunca sabe o que é, mas também não admite." Desde que menstruou pela primeira vez, foi atormentada por ciclos irregulares, cólicas irremediáveis e uma tensão pré-menstrual que a incapacitava. Até que, há um ano, descobriu numa conversa com a atriz Milla Christie, ex-mulher do ginecologista Malcolm Montgomery, que poderia optar por não menstruar. Hoje, por meio de uma microcápsula alojada na região lombar, ela regula a dosagem de hormônios, impedindo a menstruação. "Virei um homem", comenta. "Não tenho mais alterações de humor."

Logo que tornou-se paciente do médico, surgiram boatos de um romance. Ana Paula sorri: "Sempre vão inventar alguma coisa". Há três semanas, surgiram notícias de que o novo namorado da atriz era o empresário Eduardo Peres, diretor da Multiplan, no Rio. Peres, conhecido de Ana Paula, ligou para a atriz brincando que ela estava impedindo-o de arrumar namorada. "Essa história queimou meu filme no Rio", diz ele. A atriz desconversa sobre o fim do namoro com Tarcisinho: "Acabou, mas nos adoramos". O ator, igualmente discreto, só faz elogios. Para ele, a atriz tem uma forte presença cênica, é trabalhadora e dedicada. "A gente marca às 9h e às 7h ela já está na porta", diz. "Ela não dá conta do que provoca nas pessoas. Parece um menininho e é fascinante porque não manipula sua imagem."

VIDA RURAL O descanso de Ana Paula é em cocheiras de cavalos, com botas de fazendeiro. O pecuarista Adaldio José de Castilho, 63 anos, dono de uma fazenda em Novo Horizonte (SP), conta que o ator Tarcísio Meira, seu colega de classe, lhe telefonou em 1997 e disse: "O Tarcisinho está namorando a Ana Paula Arósio. A menina parece que gosta mais de cavalo do que de meu filho. Você pode mostrar alguns animais a ela?". Hoje, Ana Paula freqüenta a fazenda. Lá, acorda às 5h para tirar leite de vaca, limpar a cocheira e escovar a caixa d'água dos cavalos. "Se fosse um animal, seria uma égua", diz Ana Paula. Às 6h30, sai para cavalgar, fotografa os bichos e as paisagens - seu hobby - e volta no fim da tarde. A atriz, que pagou R$ 48 mil por um de seus 11 mangalargas, já adormeceu na cocheira numa noite de insônia.

Ela negocia sozinha o preço de seus animais e tem o sonho de criá-los numa fazenda que quer comprar. "O problema é que tudo que Ana Paula Arósio compra é três vezes mais caro", ela reclama. Por enquanto, tem um sítio em Itu, no interior de São Paulo, onde cria nove cavalos, e um apartamento em Higienópolis, bairro de classe média alta de São Paulo, no qual mora há três anos com as cadelas cocker spaniel Amanda e Isabel. A correria das gravações a obrigou a levar para a casa da mãe as tartarugas Hilda e Furacão e adiar a compra de um peixe que planejava pôr num aquário vazio na sala. Se seguisse os planos à risca, a estrela da novela que entra no ar dia 20 de setembro teria cursado veterinária e trocado os holofotes por uma vida longe da badalação. Talvez como há pouco tempo, quando Ana Paula abria mão de suas tardes para dar banho em cachorros de gente desconhecida em uma clínica veterinária de São Paulo.

Produção: Patida Mauad. Maquiagem e cabelo: André Veloso. Agradecimentos:
G, Walter Rogrigues, G.P.M.,
Mário Queiroz e Caio da Rocha


O outro lado da estrela

Noite
"Gosto do estilo underground. As pessoas que vivem na noite são desencanadas. Se saio com vocês, não significa que temos que ficar juntos. Quando saio é para me acabar. Amanheci várias vezes na rua e já tive porres homéricos. Bebo há cinco anos e adoro champanhe. Teatro desvirtua qualquer cristão. Não dá para sair do palco e ir para a cama dormir."

Gays
"Acho que não teria uma relação homossexual, mas os gays são corajosos. A primeira vez que vi um beijo entre dois homens achei esquisito. Agora, me acostumei."

Infidelidade
"Pertenço a uma família conservadora. Já tive vontade de ser infiel, mas por princípios e respeito ao parceiro, nunca traí. Mas já fui traída. Você se sente uma trouxa. E não tem salvação. Logo, você joga na cara do parceiro. Foi o que eu fiz."

Política
"Nosso país é propício a uma revolução. Se vivesse na época da ditadura, faria várias besteiras. Acho que seria presa. Não aceito o conformismo."

Namoros
"Quando quero alguém só para me divertir, aí sou meio Leila Diniz. Mas geralmente sou lerdona. Gosto de paquera e amizade antes do namoro."

Sadomasoquismo
"Não curto. Há coisas bonitas como imagem, mas na prática não funcionam."

Sexo
"Sexo precoce traz adultice. Minha primeira transa foi depois dos 19. Lógico que o cara não ia acreditar. E para descobrir o que era o tal do orgasmo? Mas transar é como dirigir. Nunca achava que iria aprender e virar uma coisa automática. Opa, não que eu faça automático."

Drogas
"Já fumei maconha, mas o resto, não. Convivi num meio em que as pessoas se drogavam demais, muitas vezes na minha frente.

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