9 de agosto de 1999

 

 

O gal„ da favela
O ator Eduardo Tornaghi trocou a fama e o dinheiro para se dedicar a creches e grupos de teatro de comunidades carentes do Rio

Adriana Barsotti
do Rio de Janeiro

Eduardo vive com menos de R$ 500 por mês. Não tem emprego fixo. Anda de ônibus, mas, quando o orçamento aperta, vai a pé. Nessas ocasiões, chega a percorrer dez quilômetros de sua casa, no Leme, zona sul do Rio, até a favela Santa Marta, em Botafogo, onde é voluntário três vezes por semana. Às segundas-feiras, o dia começa mais cedo para Eduardo. Ele levanta às 4h e enfrenta uma viagem de mais de uma hora para chegar a São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, onde dá lições de higiene a professoras de uma creche comunitária.

Eduardo é Eduardo Tornaghi, o ator que fez o público feminino suspirar na década de 70 em Dancin' Days e A Moreninha, entre outras novelas. Seu último grande papel na tevê foi em O Todo Poderoso, em 1980, na Bandeirantes. De lá para cá, fez apenas pequenas participações no antigo seriado Caso Verdade e, mais recentemente, no Você Decide, ambos na TV Globo. Convites não lhe faltaram. Mas Tornaghi estava decidido a não voltar. Rico e famoso, abandonou a carreira no topo e fez opção pela pobreza. "Ganhei muito dinheiro como ator, mas queria trabalhar no movimento popular", explica.

APOIO AOS SEM-TERRA O ator pôs, então, o pé na estrada. Viajou pelo País em busca do povo. Em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, orgulha-se de ter trabalhado no primeiro acampamento de sem-terra do País. Dois anos depois, em 1982, interrompeu temporariamente sua empreitada para ficar sócio do ator Luiz Armando Queiroz no Teatro do Bexiga, em São Paulo. O negócio custou-lhe uma estafa e todas as economias. Em 1985, Tornaghi voltou ao Rio. Longe dos estúdios da Globo, foi ensinar teatro a meninos de rua no Largo da Carioca, no Centro. Foi o único a aceitar um convite do governo do Estado do Rio para dar aulas de interpretação em presídios. "Ganhava, na época, um quarto do salário-mínimo", recorda-se. Eduardo é irmão da mais conhecida promoter carioca, Ana Maria Tornaghi. "Acho fantástico o trabalho que ele desenvolve", afirma Ana Maria. "Só acho uma pena ele não ter sido só um pouquinho egoísta para conciliar a carreira com o altruísmo."

Hoje, aos 48 anos, casado há quatro com uma antiga admiradora, Selma, que conheceu há 20 anos, e prestes a ser pai pela primeira vez, Tornaghi divide seu tempo ensinando a profissão a moradores do morro Santa Marta e orientando professoras de uma creche em São Gonçalo. Em nenhum dos dois ofícios é remunerado. Garante seu sustento substituindo atores em peças de teatro ou fazendo pequenas turnês pelo interior do País. "Aceito qualquer cachê", conta. "Quando me oferecem R$ 500, acho ótimo", diz. "Vivo com menos do que isso."

DRIBLE NOS TRAFICANTES Não é só o aperto financeiro que Tornaghi enfrenta para levar adiante seus projetos. No Santa Marta, ele tem que driblar o tráfico de drogas para conseguir dar suas aulas. "Os traficantes vivem nos oferecendo apoio", conta. "Recuso a ajuda deles sutilmente, para não criarem problema." Além disso, a companhia volta e meia fica desfalcada. A jornada de trabalho do elenco, que inclui pedreiros, empregadas domésticas e seguranças, muitas vezes os impede de comparecer aos ensaios. Os textos escolhidos pelo ator falam invariavelmente sobre a fome e a miséria e criticam a política de saúde e educação do País. Nas aulas, o professor é exigente. Pede ao grupo que repita as cenas até ficar satisfeito. Repreende os que não decoram o texto. Mas sabe dosar o rigor com doses de carinho. "Vocês hoje estão afinados, hein?", afaga. "Eu o olhava com timidez, mas agora sei que ele é tão popular, tão bom com a gente", afirma a doméstica Maria de Lurdes de Jesus, 50 anos, que já atuou numa montagem de Morte e Vida Severina, dirigida pelo ator. "Ele nos ajuda a fazer realidade em vez de ficção", afirma o desenhista José Henrique Silva, 41 anos.

O rompimento com o passado não foi total. Até hoje Tornaghi ainda é reconhecido e dá autógrafos. "Ficar ao meu lado hoje não dá mais ibope", afirma o ator. "Quem ainda se aproxima, está sendo sincero", constata. Mas ele não disfarça o saudosismo. "De vez em quando, tenho uns ataques de ausência", admite. "A TV é parecida com o vício em drogas."