9 de agosto de 1999

 

 

A hora H da Tiazinha
Suzana Alves enfrenta o dilema de manter o sucesso e deixar para trás o personagem que lhe deu fama, fortuna e uma carreira que não existia

Alessandra Nalio
de São Paulo

Era uma vez uma moça de 20 anos chamada Suzana, que andava com a Bíblia na bolsa nas ruas do bairro de Freguesia do Ó, na zona norte de São Paulo, e tentava arrancar na carreira de modelo. Um dia, ela aceita, nos corredores de uma emissora de televisão, a proposta de vestir-se com corpete e cinta-liga para encarnar num programa para jovens uma dançarina com apetrechos sadomasoquistas. Em vez de algemas, cera de depilação, mais uma máscara para preservar a identidade. Assim nasceu Tiazinha, o furacão moreno que transformou-se, do dia para a noite, em um dos mais assediados símbolos sexuais do Brasil.

Com vida própria, a personagem ganhou um círculo de amigos notórios, como Xuxa, Adriane Galisteu e Luciano Huck, que são tratados como "Xu", "Dri" e "Lu", numa demonstração de intimidade. O dono do programa H foi um dos mentores da criatura. "Ninguém tirava da cabeça do Lu que ele era meu dono", diz Suzana. "Eu é que rebolo e fico nua." Tiazinha desentendeu-se com o ex-patrão, mas vendeu 1,2 milhão de exemplares da revista masculina Playboy, em março, e manteve a chama do programa. Mas a criatura Tiazinha engoliu a menina da Freguesia, a ponto de ela se ver obrigada a livrar-se da máscara.

Desmascarada, ela brindou na terça-feira 3 seus 21 anos, numa festa para 250 pessoas na boate Lounge, no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo. Dentro de um vestido Versace prateado e cercada por mais de 20 fotógrafos, Suzana recebeu artistas, jogadores de futebol e pagodeiros. Estava feliz por ser celebrada com seu próprio rosto. Há dois meses ela faz análise para não se confundir com a sadomasoquista Tiazinha. "Não sou pervertida. Sou romântica, quero me casar e ter filhos", ela afirma.

"Ela traçou uma carreira inversa. Começou como um personagem e depois se tornou pessoa", explica a psicóloga Oriana White, diretora da CPM Research. Suzana insiste em não acreditar que o fetiche estava na máscara. Mas a estréia de um programa só seu na Rede Bandeirantes - As aventuras da Tiazinha, um seriado diário de dez minutos inspirado em histórias em quadrinhos - já foi adiada por três vezes e não tem data para ir para o ar. A explicação da emissora é de que há muitos programas novos. "Se ela não voltar o quanto antes à tevê poderemos ter problemas", preocupa-se seu advogado, Sérgio D'Antino.

Ela interpretará, com máscara, a fotógrafa Ditiara, uma mestiça criada numa tribo indígena que desenvolveu superpoderes com o pajé da aldeia - além de voar, ela poderá disparar raios com seu chicotinho. Dois episódios já foram gravados. "É muito dark, o humor é muito pesado, mas na TV tem cada barbaridade que é bem capaz que aquilo faça sucesso", afirma um participante da equipe de produção, que duvida que o seriado emplaque.

FRACASSO MUSICAL O CD Tiazinha Faz a Festa, lançado em março, é um dos maiores fracassos da gravadora Sony Music este ano. De um milhão de discos esperados, ficou na tiragem de 250 mil cópias e encalhe de 40 mil. As lojas estão liqüidando de R$ 19 por R$ 7,99. "Ela tirou a máscara rápido demais", acredita um diretor da gravadora.

Mesmo com o futuro ainda incerto, Tiazinha continua faturando. Faz shows por todo o País, cobrando de R$ 10 mil a R$ 15 mil - dependendo do pedido. A marca Tiazinha está em mais de 100 produtos licenciados, de lingeries a pirulitos. Segundo José da Rocha Neto, 35 anos, administrador de sua grife, a previsão de faturamento é de R$ 30 milhões até o final do ano. "A marca é forte, um fenômeno", disse. Suzana tem garantido um contrato para posar nua novamente numa das próximas edições da Playboy. As fotos serão inspiradas no livro Her Book Sex (1992) de Madonna, em sua fase sadomasô, e poderão ser publicadas de novembro de 1999 a março de 2000.

FRUTOS DO SUCESSO Com o dinheiro que já ganhou em 11 meses de carreira, Suzana comprou o apartamento da família, na Freguesia do Ó, e um sítio para o pai no interior de São Paulo. Está acertando a compra de uma cobertura em Perdizes, bairro de classe média alta em São Paulo. E de aniversário se deu um carro Audi A6, que custa R$ 90 mil. Sua mãe já havia ganhado um Palio Weekend com motorista, além de uma recauchutagem geral no corpo. "Minha filha é muito boa, fiz lipoaspiração para tirar toda a banha da minha barriga e ainda ajeitei o meu nariz", diz Lúcia, 43 anos. Durante as férias em sua cidade natal, Cajazeiras, na Paraíba, no início do mês, a mãe foi assediada. "Era convite para almoçar, para jantar e entrevistas para todos os lugares. Me senti a própria Tiazinha", brincou.

Suzana quer fazer um curso de cinema nos Estados Unidos. "Assim que arrumar um tempo, vou comprar um apartamento lá, onde ficarei estudando", diz. Já está dando os primeiros passos com Nancy Miranda, a mesma que educou as vozes de Carolina Ferraz e Raul Cortez. Nancy é rígida e diz que o primeiro CD não é bom. "Quase não se ouve sua voz e sim um monte de remixes", afirma a professora. Suzana tem pressa e planeja para o final do ano um show, Tiazinha Faz a Festa - O Musical. Bailarinos e um strip-tease estão no roteiro. Para a dirigir o espetáculo, Suzana quer a empresária de Xuxa, Marlene Mattos. Se nada der certo, resta ainda um plano: aposentar a Tiazinha e retomar o curso de jornalismo - falta um ano para concluir. E, quem sabe, tornar-se uma comportada apresentadora de telejornal. Será que você ainda verá Suzana Alves dar um boa-noite ao fim do Jornal Nacional?