9 de agosto de 1999

 

 

"Vou matar o motoboy"
Pedrinho Matador já executou 71 pessoas e promete estrangular Francisco de Assis Pereira, o Maníaco do Parque, que cumpre pena no mesmo presídio

Cesar Guerrero
de Taubaté (SP)

O ataque é rápido, a chance de reação, mínima. Com uma das mãos no queixo, a outra agarrada aos cabelos, ele desloca a cabeça da vítima para cima e para o lado, quebrando-lhe o pescoço. A morte é instantânea. Pedro Rodrigues Filho, 44 anos, o Pedrinho Matador, um dos mais cruéis assassinos do País, não precisa de arma para matar. Usa as mãos e a força do seu corpo.

Pedrinho mantém a forma física à custa de quatro horas diárias de ginástica num espaço de sete metros quadrados. Esse é o tamanho da cela individual que ocupa na Casa de Custódia, em Taubaté, no interior paulista. "Faço exercícios para me defender", diz.

ASSASSINO DO PAI Oficialmente, ele matou 71 pessoas, 40 delas dentro das prisões. O próximo de sua lista é Francisco de Assis Pereira, o Maníaco do Parque, que também cumpre pena ali por ter confessado o assassinato de dez jovens. "Se eu chegar perto, a vida dele acaba em dois minutos", ameaça.

O ódio ao motoboy não é pessoal. Pedrinho executou dezenas de estupradores nesses 27 anos em que está preso. O que ele não admite é violência contra mulheres e crianças. Sua mulher foi assassinada por traficantes no sétimo mês de gravidez. Mas ele não gosta de falar sobre o caso. "Só acho que um cara como o motoboy não merece viver."

O diretor da Casa de Custódia, José Ismael Pedrosa, não acredita que Pedrinho consiga cumprir sua promessa. Os detentos passam a maior parte do tempo trancados e tomam banho de sol isolados. "Mesmo que o Pedro consiga sair da cela, ele não vai saber onde encontrar o Francisco", diz o diretor. "Além disso, os dois estão sempre acompanhados por guardas penitenciários."

A Casa de Custódia, ou "Piranhão", na gíria local, é um presídio de segurança máxima. A eficácia de seus métodos de isolamento está comprovada. Desde que foi transferido para Taubaté, há 16 anos, Pedrinho não conseguiu matar ninguém. Não que não tenha tentado. Ele atacou um companheiro na época em que os detentos almoçavam juntos - hoje cada um come em sua cela. Já estava com o pé sobre o pescoço da vítima, quando resolveu acatar o apelo do diretor. "Ele só não morreu porque o doutor Pedrosa chegou e pediu para eu parar", recorda. O homem que mata com frieza mostra respeito pelo diretor e pelos guardas do presídio. Nunca encostou o dedo neles. "Eu só mato canalhas."

Pedrinho começou sua carreira de crimes aos 14 anos, com a morte do prefeito de Santa Rita do Sapucaí, no sul de Minas Gerais, cidade em que nasceu. "O erro dele foi ter acusado meu pai de roubo", explica. Refugiou-se em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, onde começou a roubar bocas-de-fumo e a matar traficantes. Anos mais tarde, executou o próprio pai numa cadeia de Mogi das Cruzes. O motivo: durante uma briga, Pedro Rodrigues matou Manuela, a mãe de Pedrinho, com 21 golpes de facão. A vingança do filho foi ainda mais cruel. Além das facadas, arrancou o coração do pai e comeu um pedaço.

LIVRE EM 2002 O matador costuma estrangular suas vítimas. Mas reconhece que gosta de provocar dor. Numa prisão de Araraquara, no interior de São Paulo, degolou com uma faca sem fio o homem acusado do assassinato de sua irmã. "Ele era meu amigo, mas eu tive de matar."

Os dias são iguais na Casa de Custódia. Pedrinho acorda às 5h, toma café e faz seus exercícios até as 9h. Depois do banho, costuma ler até a hora do almoço. Gosta de Sidney Sheldon, mas está lendo Raízes, do norte-americano Alex Haley. Faz a digestão escrevendo em seu diário. Às 15h, desce para tomar banho de sol no pátio do pavilhão, sempre acompanhado por dois guardas, enquanto todos os outros presos estão recolhidos. Vai dormir por volta de 19h30.

Condenado a 400 anos, Pedrinho deve deixar a prisão em 2002, ano em que completa três décadas de reclusão. "O período máximo que uma pessoa pode ficar presa no Brasil é 30 anos, de acordo com o Código Penal", diz o criminalista Alberto Marino. "O artigo 5.º da Constituição proíbe a prisão perpétua", afirma.

Pedrinho quer a liberdade para refazer sua vida ao lado da namorada, cujo nome ele não revela. Eles se conheceram trocando cartas, há um ano e meio. Depois de cumprir pena de 12 anos por furto, ela foi solta e visitou Pedrinho em Taubaté. O diretor do presídio confirma o encontro: "Ela parecia bem apaixonada".

Para ganhar a vida honestamente fora da prisão, Pedro quer trabalhar em um matadouro. Quando era garoto, em Minas Gerais, trabalhou num pequeno abatedouro de aves. Ele é o primeiro a admitir que não sabe fazer outra coisa.