9 de agosto de 1999

 

 

O dono da Rede TV!
Amilcare Dallevo, o homem que comprou a TV Manchete, criou o sistema que permite aos espectadores participar do Você Decide e do Fantástico

Erica Benute
de São Paulo

Foi com dinheiro da Rede Globo que o dono da Rede TV!, Amilcare Dallevo Júnior, 41 anos, começou a montar o patrimônio que lhe permitiu comprar, no dia 17 de maio passado, as cinco concessões da TV Manchete. Dono de uma pequena empresa de desenvolvimento de tecnologia em informática, ele criou um sistema pelo qual o público participaria da televisão de forma interativa e em tempo real. O produto ideal para testar a novidade era o Carnaval de 1993: o telespectador votaria em sua escola preferida durante os desfiles no Sambódromo do Rio de Janeiro. "Foi um sucesso e iniciamos ali uma parceria que dura até hoje", diz Dallevo.

A jogada deu tão certo que o empresário abriu a Tecplan, uma empresa específica apenas para vender a novidade às concorrentes da Globo. "Chegamos a trabalhar simultaneamente com todas as emissoras: Hebe, no SBT, Ana Maria Braga, na Record, e Copa do Mundo, na Bandeirantes", afirma. Hoje a Tecplan supera a empresa original de Dallevo, a Tecnet, especializada em desenvolvimento de softwares, e responde por 60% do faturamento do grupo, R$ 78 milhões no exercício passado, segundo o empresário. Muitos desses serviços operavam no sistema 0900, que foi proibido. De todas as tevês clientes da Tecplan, apenas a Globo continua fiel: as escolhas do filme do Intercine, da programação do Fantástico e do final do Você Decide são feitas pelo produto de Dallevo.

Órfão aos 11 anos, o novo dono das concessões da Manchete começou a trabalhar aos 14 na mesma empresa em que seu pai, Amilcare Dallevo, dedicara-se anos como vendedor. Com dificuldades na renda da família, Alice, sua mãe, bateu à porta da revendedora Volkswagen Sodicar, pedindo uma colocação qualquer para o filho. "Fui ser perfurador de cartões de computador, uma coisa que hoje nem existe mais", lembra. Formado em engenharia elétrica pela Escola Politécnica de São Paulo, ele deixou seu primeiro emprego depois de oito anos para ingressar no setor de automação bancária do banco Itaú. Acumulando cada vez mais conhecimentos na área de informática, foi contratado um ano e meio depois pelo Citibank para cuidar da gerência de telecomunicações. "Percebi que telecomunicações e informática eram dois mundos que iriam se juntar", diz ele, que por diversas vezes ajudou pessoalmente os técnicos do Centro de Processamento de Dados (CPD) do banco a desenvolver soluções que ainda não existiam no Brasil.

Dallevo tinha 27 anos quando deixou o Citibank e alugou uma salinha para fazer funcionar sua primeira empresa, a Tecnet. Foi lá que ele desenvolveu um sistema hoje comum, mas pioneiro à época: emissão de contas telefônicas por ramais. Graças a isso, as empresas podiam gerenciar suas despesas telefônicas sabendo qual departamento gastava mais. "Eu era o dono, o técnico, o vendedor, a telefonista, o porteiro e o moço do cafezinho da Tecnet", lembra. Dois anos depois, a empresa já tinha grandes clientes como Embratel, Grupo Ultra, Itaú e Citibank - e ganhou sede própria, um prédio de cinco andares. Hoje, sentado à frente de um computador Pentium II, numa cobertura da avenida Juscelino Kubitschek, um dos endereços mais valorizados de São Paulo, Amilcare Dallevo Júnior tem sob sua responsabilidade dois mil funcionários - 400 de suas duas empresas de tecnologia e serviços de informática, Tecnet e Tecplan, e outros 1.621 herdados da antiga TV Manchete.

Dallevo não acha estranho ter uma rede de televisão e prestar serviço à concorrente. "São coisas distintas", explica. "Tenho uma empresa de tecnologia em software, a Tecnet, outra de prestação de serviços, a Tecplan, e agora há uma terceira que tem uma emissora de televisão, a Omega. Quem presta serviços à Globo é a Tecplan." A Omega Produções foi criada em 1997, em parceria com Marcelo Fragalli de Carvalho, dono da TVI. Nessa época, eles compraram o horário de domingo da Manchete, para produzir o Domingão Total, um programa de auditório comandado por Sérgio Mallandro e Virgínia Novick. "Foi daí que eu conheci a família Bloch e comecei a entender melhor de televisão", diz Dallevo.

Com base nos contatos comerciais desta época, Dallevo procurou o presidente das Organizações Bloch, Pedro Jack Kapeller, em dezembro passado. "Iniciamos uma conversa, interrompida em janeiro quando a igreja Renascer arrendou a Manchete, e retomada em fevereiro, quando começamos a auditoria com a Lehman Brothers", afirma. Passadas três mil horas de trabalho, contabilizadas em salas e apartamentos do hotel Glória, vizinho do prédio da Manchete, no Rio, Dallevo chegou a uma conclusão: o grupo Bloch tinha muitos problemas financeiros e a compra da tevê, que sozinha tinha R$ 330 milhões em dívidas, não seria viável. Ocorreu-lhe então fazer uma oferta apenas para a compra das concessões.

Seguiram-se então três viagens a Brasília para conversas com o ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, e uma histórica reunião de 19 horas entre ele, Pedro Jack Kapeller e os respectivos advogados, na sede da TV Manchete. Ao final, Kapeller assinou a transferência das concessões no Rio Janeiro, São Paulo, Recife, Belo Horizonte e Fortaleza. Dallevo se comprometeu a pagar R$ 7,5 milhões, em sete anos, aos acionistas da Bloch e assumiu R$ 170 milhões em dívidas com o FGTS, o INSS e os salários atrasados dos funcionários. "Se ficássemos com o nome Manchete teríamos de assumir as dívidas", diz. Essa é também a razão pela qual Dallevo não teme problemas judiciais com o ex-sócio de Kapeller na tevê, o empresário Hamilton Lucas de Oliveira. "Qualquer processo será contra a TV Manchete, uma empresa que não nos pertence."

Durante os quatro meses de negociações, o engenheiro teve pelo menos um alento: tantas eram as viagens para o Rio que ele pôde praticar seu único hobby, pilotar helicópteros. Esta é uma paixão recente na vida de Dallevo. "Nunca tinha andado de helicóptero até oito anos atrás, quando nasceu meu terceiro filho e aluguei um para ir ao Guarujá visitar minha família, que estava de férias", conta. De lá para cá, tirou brevê de piloto e comprou dois aparelhos: um Agusta Power italiano 1997 de oito lugares, avaliado em US$ 3 milhões, capaz de fazer São Paulo-Rio em uma hora e 15 minutos, e um Long Ranger da americana Bell, que ele mesmo pilotou no caminho entre a fábrica, em Boisi, no estado de Idaho, e o Brasil. "Foram 35 dias de viagem com paradas no Caribe, Guianas e um sobrevôo fantástico sobre a Floresta Amazônica."

O novo nome da antiga rede Manchete foi definido após uma pesquisa feita pela agência Fischer & Justus, que ofereceu 40 opções aos consultados. A ampla maioria optou pelo nome Rede TV!, que, a médio prazo, Dallevo pretende reduzir apenas ao sinal de exclamação. Neste primeiro ano de operações, ele planeja investir R$ 100 milhões. Câmeras digitais Sony, por exemplo, desembarcam essa semana no Brasil e um galpão de 800 metros quadrados para quatro estúdios de gravação foi comprado no condomínio de Alphaville, o mesmo onde Dallevo mora. Todos os diretores superintendentes foram contratados, faltando só o responsável pela área comercial.

Em dois anos, todo o grupo será centralizado numa nova sede também em Alphaville, projetada pessoalmente pelo arquiteto Oscar Niemeyer. É também no prazo de dois anos que Dallevo pretende voltar a sua forma. Sob os cuidados do preparador físico Nuno Cobra, o mesmo que treinava Ayrton Senna, ele confessa estar muito acima do peso ideal de 80 quilos para os seus 1,84m. "Sou positivo", define-se Dallevo. "Quando corro, penso que já cumpri metade do caminho e que só falta a outra metade." Na corrida para se tornar o mais novo empresário de televisão do País, até agora ele conseguiu a concessão. A partir do dia 15 de setembro, quando a sua programação entrar no ar, os espectadores poderão finalmente ver o que Dallevo tem para mostrar.

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