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O
dono da Rede TV!
Amilcare Dallevo, o homem que
comprou a TV Manchete, criou o sistema que permite aos espectadores
participar do Você Decide e do Fantástico
Erica Benute
de São Paulo
Foi com dinheiro
da Rede Globo que o dono da Rede TV!, Amilcare Dallevo Júnior,
41 anos, começou a montar o patrimônio que lhe permitiu
comprar, no dia 17 de maio passado, as cinco concessões
da TV Manchete. Dono de uma pequena empresa de desenvolvimento
de tecnologia em informática, ele criou um sistema pelo
qual o público participaria da televisão de forma
interativa e em tempo real. O produto ideal para testar a novidade
era o Carnaval de 1993: o telespectador votaria em sua escola
preferida durante os desfiles no Sambódromo do Rio de Janeiro.
"Foi um sucesso e iniciamos ali uma parceria que dura até
hoje", diz Dallevo.
A jogada deu
tão certo que o empresário abriu a Tecplan, uma
empresa específica apenas para vender a novidade às
concorrentes da Globo. "Chegamos a trabalhar simultaneamente
com todas as emissoras: Hebe, no SBT, Ana Maria Braga, na Record,
e Copa do Mundo, na Bandeirantes", afirma. Hoje a Tecplan
supera a empresa original de Dallevo, a Tecnet, especializada
em desenvolvimento de softwares, e responde por 60% do faturamento
do grupo, R$ 78 milhões no exercício passado, segundo
o empresário. Muitos desses serviços operavam no
sistema 0900, que foi proibido. De todas as tevês clientes
da Tecplan, apenas a Globo continua fiel: as escolhas do filme
do Intercine, da programação do Fantástico
e do final do Você Decide são feitas pelo produto
de Dallevo.
Órfão
aos 11 anos, o novo dono das concessões da Manchete começou
a trabalhar aos 14 na mesma empresa em que seu pai, Amilcare Dallevo,
dedicara-se anos como vendedor. Com dificuldades na renda da família,
Alice, sua mãe, bateu à porta da revendedora Volkswagen
Sodicar, pedindo uma colocação qualquer para o filho.
"Fui ser perfurador de cartões de computador, uma
coisa que hoje nem existe mais", lembra. Formado em engenharia
elétrica pela Escola Politécnica de São Paulo,
ele deixou seu primeiro emprego depois de oito anos para ingressar
no setor de automação bancária do banco Itaú.
Acumulando cada vez mais conhecimentos na área de informática,
foi contratado um ano e meio depois pelo Citibank para cuidar
da gerência de telecomunicações. "Percebi
que telecomunicações e informática eram dois
mundos que iriam se juntar", diz ele, que por diversas vezes
ajudou pessoalmente os técnicos do Centro de Processamento
de Dados (CPD) do banco a desenvolver soluções que
ainda não existiam no Brasil.
Dallevo tinha
27 anos quando deixou o Citibank e alugou uma salinha para fazer
funcionar sua primeira empresa, a Tecnet. Foi lá que ele
desenvolveu um sistema hoje comum, mas pioneiro à época:
emissão de contas telefônicas por ramais. Graças
a isso, as empresas podiam gerenciar suas despesas telefônicas
sabendo qual departamento gastava mais. "Eu era o dono, o
técnico, o vendedor, a telefonista, o porteiro e o moço
do cafezinho da Tecnet", lembra. Dois anos depois, a empresa
já tinha grandes clientes como Embratel, Grupo Ultra, Itaú
e Citibank - e ganhou sede própria, um prédio de
cinco andares. Hoje, sentado à frente de um computador
Pentium II, numa cobertura da avenida Juscelino Kubitschek, um
dos endereços mais valorizados de São Paulo, Amilcare
Dallevo Júnior tem sob sua responsabilidade dois mil funcionários
- 400 de suas duas empresas de tecnologia e serviços de
informática, Tecnet e Tecplan, e outros 1.621 herdados
da antiga TV Manchete.
Dallevo não
acha estranho ter uma rede de televisão e prestar serviço
à concorrente. "São coisas distintas",
explica. "Tenho uma empresa de tecnologia em software, a
Tecnet, outra de prestação de serviços, a
Tecplan, e agora há uma terceira que tem uma emissora de
televisão, a Omega. Quem presta serviços à
Globo é a Tecplan." A Omega Produções
foi criada em 1997, em parceria com Marcelo Fragalli de Carvalho,
dono da TVI. Nessa época, eles compraram o horário
de domingo da Manchete, para produzir o Domingão Total,
um programa de auditório comandado por Sérgio Mallandro
e Virgínia Novick. "Foi daí que eu conheci
a família Bloch e comecei a entender melhor de televisão",
diz Dallevo.
Com base nos
contatos comerciais desta época, Dallevo procurou o presidente
das Organizações Bloch, Pedro Jack Kapeller, em
dezembro passado. "Iniciamos uma conversa, interrompida em
janeiro quando a igreja Renascer arrendou a Manchete, e retomada
em fevereiro, quando começamos a auditoria com a Lehman
Brothers", afirma. Passadas três mil horas de trabalho,
contabilizadas em salas e apartamentos do hotel Glória,
vizinho do prédio da Manchete, no Rio, Dallevo chegou a
uma conclusão: o grupo Bloch tinha muitos problemas financeiros
e a compra da tevê, que sozinha tinha R$ 330 milhões
em dívidas, não seria viável. Ocorreu-lhe
então fazer uma oferta apenas para a compra das concessões.
Seguiram-se
então três viagens a Brasília para conversas
com o ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga,
e uma histórica reunião de 19 horas entre ele, Pedro
Jack Kapeller e os respectivos advogados, na sede da TV Manchete.
Ao final, Kapeller assinou a transferência das concessões
no Rio Janeiro, São Paulo, Recife, Belo Horizonte e Fortaleza.
Dallevo se comprometeu a pagar R$ 7,5 milhões, em sete
anos, aos acionistas da Bloch e assumiu R$ 170 milhões
em dívidas com o FGTS, o INSS e os salários atrasados
dos funcionários. "Se ficássemos com o nome
Manchete teríamos de assumir as dívidas", diz.
Essa é também a razão pela qual Dallevo não
teme problemas judiciais com o ex-sócio de Kapeller na
tevê, o empresário Hamilton Lucas de Oliveira. "Qualquer
processo será contra a TV Manchete, uma empresa que não
nos pertence."
Durante os
quatro meses de negociações, o engenheiro teve pelo
menos um alento: tantas eram as viagens para o Rio que ele pôde
praticar seu único hobby, pilotar helicópteros.
Esta é uma paixão recente na vida de Dallevo. "Nunca
tinha andado de helicóptero até oito anos atrás,
quando nasceu meu terceiro filho e aluguei um para ir ao Guarujá
visitar minha família, que estava de férias",
conta. De lá para cá, tirou brevê de piloto
e comprou dois aparelhos: um Agusta Power italiano 1997 de oito
lugares, avaliado em US$ 3 milhões, capaz de fazer São
Paulo-Rio em uma hora e 15 minutos, e um Long Ranger da americana
Bell, que ele mesmo pilotou no caminho entre a fábrica,
em Boisi, no estado de Idaho, e o Brasil. "Foram 35 dias
de viagem com paradas no Caribe, Guianas e um sobrevôo fantástico
sobre a Floresta Amazônica."
O novo nome
da antiga rede Manchete foi definido após uma pesquisa
feita pela agência Fischer & Justus, que ofereceu 40
opções aos consultados. A ampla maioria optou pelo
nome Rede TV!, que, a médio prazo, Dallevo pretende reduzir
apenas ao sinal de exclamação. Neste primeiro ano
de operações, ele planeja investir R$ 100 milhões.
Câmeras digitais Sony, por exemplo, desembarcam essa semana
no Brasil e um galpão de 800 metros quadrados para quatro
estúdios de gravação foi comprado no condomínio
de Alphaville, o mesmo onde Dallevo mora. Todos os diretores superintendentes
foram contratados, faltando só o responsável pela
área comercial.
Em dois anos,
todo o grupo será centralizado numa nova sede também
em Alphaville, projetada pessoalmente pelo arquiteto Oscar Niemeyer.
É também no prazo de dois anos que Dallevo pretende
voltar a sua forma. Sob os cuidados do preparador físico
Nuno Cobra, o mesmo que treinava Ayrton Senna, ele confessa estar
muito acima do peso ideal de 80 quilos para os seus 1,84m. "Sou
positivo", define-se Dallevo. "Quando corro, penso que
já cumpri metade do caminho e que só falta a outra
metade." Na corrida para se tornar o mais novo empresário
de televisão do País, até agora ele conseguiu
a concessão. A partir do dia 15 de setembro, quando a sua
programação entrar no ar, os espectadores poderão
finalmente ver o que Dallevo tem para mostrar.
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