9 de agosto de 1999

 

 

"Cansei de novelas"
Autor critica grupos gays e diz que Suave Veneno Ú seu pen˙ltimo trabalho

Rosângela Honor,
do Rio de Janeiro

 

Aos 20 anos, o pernambucano Aguinaldo Silva desembarcou no Rio de Janeiro disposto a criar uma nova história para sua vida. Naquela época, o inquieto repórter não imaginava que sua trajetória tomaria um rumo totalmente diferente algum tempo depois, mais precisamente em 1978, quando foi indicado para escrever a série para televisão Plantão de Polícia. O sucesso foi tanto que ele não parou mais. Hoje, aos 56 anos, é um dos novelistas mais importantes e bem pagos do País: ganha mais de R$ 60 mil por mês. Em seu currículo, estão algumas das novelas de maior audiência da TV Globo, como Roque Santeiro, Tieta, Pedra Sobre Pedra, Fera Ferida e Vale Tudo. E a responsabilidade de ter abordado no horário das 20h temas fortes, como pedofilia, aborto e homossexualismo. Mas Aguinaldo Silva está cansado de escrever novelas e tomou uma decisão radical: só assinará mais uma, depois de Suave Veneno. "Perdi um ano da minha vida para escrever Suave Veneno. Não posso perder um ano a cada dois." Homossexual assumido, ele recebeu Gente para falar sobre preconceito, casamento entre gays e, claro, novelas.

Por que a reação negativa ao romance vivido por duas lésbicas em Torre de Babel não o desencorajou a abordar o homossexualismo novamente?
Estamos no final do milênio. Achei que não era possível que as pessoas continuassem com a cabeça fechada em relação ao homossexualismo. Em Suave Veneno, cada passo dessa história foi pensado. No começo, os personagens usavam uma linguagem cifrada de homossexuais. Hoje, as gírias gays são constantes.

Na novela há o homossexual aceito pela sociedade e o caricato. Isso é proposital?
Na verdade, o personagem do Luís Carlos Tourinho, quando foi escrito, não era assim. Mas ele tem uma veia de comédia fantástica e foi por esse caminho. Achei que ficou legal. É aquela idéia clássica do Gordo e Magro, Batman e Robin, duplas de personagens que se completam. As pessoas dizem que o personagem do Tourinho é caricato e que não existe homossexual assim. Existe e a gente sabe que existe.

Com os homossexuais de Suave Veneno você agradou ao público e irritou os grupos gays...
Esses grupos de homossexuais mais radicais, como é caso de um grupo gay da Bahia, acham que o homossexual é um tipo padrão e que todos deveriam ser como o Luís Mott, parecidos com ele, senão vira um criminoso. Ele é um senhor que acha que não é efeminado, que já foi casado, tem duas filhas e pensa que todo homossexual tem que ser igual a ele, senão é uma caricatura do homossexualismo. Isso é uma postura tão preconceituosa quanto a dos pitboys que ficam na Farme de Amoedo, em Ipanema, batendo nas bichas que dão pinta.

Você é um dos poucos novelistas que assumem a própria homossexualidade. Sofreu preconceito?
Pelo menos que eu percebesse, não. Nunca tinha me passado pela cabeça trabalhar em televisão quando a Globo me chamou para fazer o seriado Plantão de Polícia, que se passava numa redação de jornal. Já o terceiro ou quarto episódio que escrevi foi O Crime do Castiçal, uma história de um desses matadores de homossexuais. Isso em 1979, quando tinha censura e o Petrônio Portela era ministro da Justiça. Esse programa foi ameaçado de censura, a Globo mandou gente a Brasília e a história acabou sendo liberada para ir ao ar.

Você já foi acusado de legislar em causa própria?
Não, eu não faço proselitismo. É o caso do personagem do Heitor Martinez, o Claudionor, que é heterossexual e que não vai terminar com o Uálber. Eu estaria fazendo proselitismo se fizesse os dois terminarem juntos. Eu mostro os personagens, coloco-os dentro de um momento de vida que é muito forte. Em Tieta, existia o personagem Coronel da Tapitanga, vivido por Ary Fontoura, que era pedófilo. Que comprava menininhas para criar. É uma história que não existia no livro do Jorge Amado, que foi inventada por mim e que era delicadíssima. Era pedofilia. As pessoas viram aquilo e não ficaram chocadas. Pode-se falar de qualquer coisa na televisão e nas novelas, desde que se leve em conta que se está escrevendo para 60 milhões de pessoas. Agora mesmo, a personagem da Glória Pires em Suave Veneno fez um aborto. A Igreja não teve nenhuma reação.

Qual a sua opinião sobre casais de homossexuais que adotam uma criança?
Quando você resolve adotar uma criança, tem que pensar muito seriamente no que está fazendo. Seja você um homossexual ou não. Acho legal que existam poucos casos permitidos pela Justiça de casais homossexuais que adotam uma criança. Com isso não estou dizendo que sou contra e sim que as pessoas encarregadas de permitir esse tipo de coisa têm que analisar cada caso para não cometer uma injustiça em relação à criança que vai ser adotada.

Mas o filho de seu ex-namorado, com quem você viveu sete anos, morou com vocês. Não é igual?
Não, é muito diferente. Primeiro, porque ele não era um estranho. Ele veio morar com a gente aos 12 anos e saiu daqui aos 19. Segundo, porque a mãe dele era uma presença permanente. Além do mais, o responsável pela educação do garoto era o pai. Até julho do ano passado eu morava com o pai dele. A última novela que escrevi enquanto vivíamos juntos foi A Indomada. Quando a Globo me chamou para escrever esta novela, e por razões contratuais eu tinha que escrever, percebi que não dava para escrever morando com alguém. Foi difícil, mas, depois de sete anos de convivência, sem nenhuma crise, tive que mudar tudo.

Todo esse sacríficio para escrever vale a pena?
Existem no Brasil cinco escritores que podem escrever novela das oito: Sílvio de Abreu, Manoel Carlos, Benedito Ruy Barbosa, Gilberto Braga e eu. Faz bem saber que o nosso trabalho é uma coisa rara, para poucos. E além do mais é o meu ganha-pão. Se parar de escrever novela, tenho que vender minha casa. Então, o que vou fazer? Nesses 12 meses, só saí cinco vezes para ir ao balé - e com sentimento de culpa.

Mesmo assim não pensa em deixar de escrever novelas?
Claro que sim. Suave Veneno é a minha penúltima novela. Infelizmente, meu contrato com a Globo, que vai até 2004, exige que eu escreva mais uma. Na verdade, meu contrato ainda prevê mais duas novelas. Mas, para isso, a Globo teria que me pagar mais caso eu aceitasse. E eu não aceitarei nem que eles me ofereçam o céu. Eu perdi um ano de minha vida para escrever Suave Veneno. Eu tenho 56 anos e não posso ficar perdendo um ano a cada dois.
Mas está planejando se afastar da televisão?
Não. Pretendo ficar escrevendo minisséries. Também gostaria muito de orientar novos autores para ensinar tudo o que aprendi. Se tiver de deixar de ser contratado da Globo hoje, tenho como sobreviver. Não quer dizer que eu tenha ficado rico.

Tem problemas em revelar seu salário?
É mais do que costumam afirmar nos jornais, em torno de R$ 50 mil a R$ 60 mil. Mas não vou dizer exatamente quanto. O Imposto de Renda sabe.

Foi pressionado no início porque a novela não estava com uma audiência esperada?
Na sala do Roberto Buzzoni, que é o diretor de programação da TV Globo, tem uma lista com as 12 novelas que tiveram maior audiência na emissora. Dessas, cinco são minhas: Roque Santeiro, Tieta, Pedra sobre Pedra, Fera Ferida e Vale Tudo, de que sou co-autor. Nenhuma novela vai dar mais 60 pontos de audiência. Acho bom que a programação se abra, se divida. Não que a alternativa da novela seja a baixaria total. Não sou tão radical quanto a Marta Suplicy, que quer algum tipo de censura para impedir isto, mas acho que os donos das emissoras tinham que concluir que esta programação precisa ser revista.

Suave Veneno não está apresentando um número exagerado de cenas de sexo e personagens em trajes íntimos?
As mulheres reclamam se não mostro essas cenas. Mandam cartas, participam de grupos de discussão e perguntam se os atores não vão aparecer nus, sem camisa. Às vezes percebo, ao finalizar um capítulo, que não escrevi nenhuma cena com cama. Como sei que as mulheres vão reclamar, no capítulo seguinte faço quatro cenas de sexo. Os homens também têm verdadeira fixação para que as atrizes apareçam em trajes íntimos. Meus amigos sempre me pedem para mostrar a Luana Piovani sem sutiã. Eu tenho que explicar que não pode. Pedem para exibir mais o corpo da Letícia Spiller. Eu até no outro dia escrevi um capítulo com uma cena de banho de piscina com a Letícia, já que a personagem dela só aparece vestida. É uma pena, mas não posso.