04/10/2005
 
Telemig: o candidato tem dois jogos em triagem via internet


Diretora de recrutamento da EDS para a América Latina, Gláucia Teixeira explica que essa foi uma das melhores maneiras para evitar contratações arbitrárias, em outras palavras, o famigerado QI – "quem indica". O método de seleção é utilizado pela empresa também nos processos de promoção. “Quanto mais bem feita a seleção, menos trabalho você tem no desenvolvimento e na retenção”, diz Gláucia. Mas há uma parte ruim nessa história, o tempo de contratação aumentou em pelo menos três semanas, diz a executiva.

Também a Gyotoku, quarta maior fabricante de revestimentos cerâmicos do País, busca dinâmicas inovadoras. Há seis meses ela decidiu amarrar os candidatos lado a lado por barbantes, nos pulsos e nas pernas e pedir que, unidos, tomassem café. Fátima Ferreira, a chefe de RH da empresa, afirma que a dinâmica não é excludente e é mais uma das que procura identificar características como parceria. “Somos uma família, temos de trabalhar em equipe e nos comunicar interpessoalmente”, afirma. “Nessa dinâmica, só vai ser possível tomar o café se eu facilitar que o outro tome”. Nesse tipo de avaliação muda também as regras para outro quesito conhecido: o traje. Fátima pede que os candidatos venham com roupa esporte. Saias e saltos altos tendem a inviabilizar as estripulias de brincar com bexigas ou imitar animais. Mesma advertência não foi feita pelo Núcleo Brasileiro de Estágios (NUBE) antes de uma seleção para uma empresa brasileira de cosméticos com cerca de 1 mil funcionários e mais de 1,5 mil franquias. Nela, os que acreditavam que um traje mais formal fosse a primeira garantia de uma entrevista de sucesso se enganou. Ithia Farah, psicóloga coordenadora de RH do NUBE, explica que foram selecionados 14 estudantes para participar de um projeto cujo alvo era o público jovem. A empresa pretendia adequar de suas lojas à faixa etária dos 18 aos 24 anos e, para isso, selecionou estudantes de diversas “tribos”, desde que tivessem o melhor desempenho em diversas funções. Roupa jovem e despojada acabou contando pontos. Segundo Ithia, a inovação nos processos seletivos está relacionada à mudança do perfil do jovem. “Os estudantes querem resolver cases”, afirma. Seme Arone Jr., diretor do NUBE, completa: “a melhor dinâmica é quando se consegue deixar as pessoas à vontade”.

Recrutamento escrito nas estrelas
Se há recrutamentos que exigem cada vez mais polivalência dos candidatos, há os que pedem habilidades “de nascença”. Mapa astral, radiestesia e numerologia, combinados a conhecidas dinâmicas de RH, acabam servindo para selecionar, de cara, ao menos metade dos candidatos. É o caso da Pneutop, revendedora de pneus. Para a empresa, a análise da data e hora de sua fundação, comparada com as do nascimento do candidato, é decisiva para ser admitido. Todos os 200 funcionários tiveram suas vibrações radiestésicas analisadas. Para os cargos de diretoria, o processo é mais rigoroso: são feitos mapas astrais com análises mais aprofundadas. “Temos uma vibração específica”, justifica Ricardo del Bianco, diretor comercial da Pneutop. Mas ele mesmo não acreditava muito nessas avaliações. Em sua contratação, achou curioso os selecionadores pedirem seu horário de nascimento. Hoje, acredita que o método é eficaz até para identificar a iminência de furtos na empresa, previsões que afirma terem se concretizado. Del Bianco, que se considera “meio cético, meio místico”, defende essas avaliações como importantes ferramentas para momentos de conflito às quais a equipe de RH recorre. “Hoje, cada vez mais o mercado restringe o espaço para erros”, analisa. E completa: “a energia aqui dentro é diferente, somos uma empresa de sorte”, conclui.

O caso da Pneutop não é único. Existem consultorias especializadas em seleção que se valem do mapa astral, como a LF & Ghisi. Lá, a numerologia e sobretudo o mapa astral são fundamentais para a triagem dos candidatos nos processos seletivos, segundo explica a consultora Luiza Ghisi. Ou como ela prefere, consulttora, assimmesmo, com dois T. “Escrevemos assim porque vibra dinheiro, negócios e sucesso”, explica. Segundo ela, nem todos seus clientes exigem a seleção por mapa astral, mas ela, de qualquer forma, é aplicada para balizar suas triagens. Embora não haja estatísticas quanto à eficácia do método, Luiza diz que os pedidos de recolocação foram reduzidos em um terço e 90% dos avaliados pelo método astrológico se reconhecerem na avaliação. E os outros 10%? “Esses têm um problema de percepção que em qualquer outra avaliação se repete”, defende.

É preciso ir com calma
Mas é preciso tomar cuidado com o “oba-oba” da inovação a todo custo. Elas não podem ser aplicadas irrestritamente e de maneira isolada, dizem os especialistas. Segundo Ricardo Farah, consultor e professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), essa não é uma prática ainda comum do mercado e é preciso ter uma certa coerência.“Não dá para pegar uma determinada dinâmica e, sob pressão, observar o comportamento de um candidato. Tem de haver um conjunto de ferramentas de seleção”, justifica Farah. Para ele, o processo de entrosamento do candidato passa por três fases: a inclusão, o controle e a abertura, sendo que essa terceira a fase em que a pessoa pode ser melhor avaliada de acordo com sua postura cotidiana.

Já para César Augusto Lessa Pinheiro, processos que ocultam informações do candidato tendem a gerar níveis de abandono maiores. “A experiência mostra que quanto mais eu elimino a sensação de competição, mais criteriosamente ele se mostra e eu o avalio. Quanto menos tenso, mais vontade e criatividade ele vai demonstrar”, conclui. Em tempos de desemprego e competição desenfreada, uma seleção com tal naturalidade é que de fato surpreenderia o candidato.

Um brasileiro, um emprego e o reality show chinês

 
ZTE: O samba do brasileiro conquistou os chineses e a vaga de gerente

O processo de “deixar o candidato à vontade”, recomendado pelos especialistas, pode se mostrar um conceito relativo no mundo das seleções. Pelo menos é o que mostrou a empresa ZTE, uma das maiores empresas de telecomunicação chinesas. Ela selecionou há dois meses seu gerente de marketing em um reality show com mais de 1 bilhão de telespectadores. Pela primeira vez utilizando um recrutamento menos convencional, a empresa justifica a opção de televisionar o processo com o fato de este ser um cargo que “requer conhecimento e familiaridade com os públicos” da empresa, segundo Michelle Zhou, diretora da divisão de celulares da ZTE. A comissão que selecionou o vencedor, dentre os dois brasileiros e o chinês participantes, era formada pelo presidente sênior da ZTE, por Michelle e por uma profissional chinesa de RH. O escolhido, Marcio Roberto de Lucca, conquistou jurados e público com tiradas criativas como sambar após cada venda nas ruas. Apesar do sucesso, a empresa não tem previsão para repetir a seleção dessa forma. É bom lembrar ainda que a ZTE foi convidada pela CCTV-2, emissora chinesa que exibiu o programa, o que implicou em não haver custos adicionais a ela.

 
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