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  O sucesso está no equilíbrio, Editora Campus/ Elsevier, R$ 37


Seja WOW!

Em seu recém-lançado livro, o consultor Robert Wong dá dicas de como buscar o sucesso, desde que ele seja exatamente aquele que você almeja e em que acredita

Por Laila Mahmoud

Robert Wong dispensa apresentações. Ex-presidente de uma das gigantes de recrutamento, a Korn/Ferry, ele já foi considerado pela revista The Economist um dos 200 melhores headhunters do mundo. Mas não é aconselhando mais trabalho que ele, hoje sócio da empresa de educação corporativa Partnership and Learning, pretende ser conhecido. Prova disso é: O Sucesso está no equilíbrio (Editora Campus/Elsevier). Em seu “livro bate-papo”, como esse ex-workaholic confesso define sua obra, ele fala de sucesso, intuição e como se diferenciar no trabalho sem esquecer da vida pessoal. E, para isso, fala de sua experiência pessoal no assunto. Em entrevista à DINHEIRO Online, Wong, sempre pregando a autoconfiança e o autoconhecimento, dá dicas sobre o que considera fundamental na busca do equilíbrio e o quanto os diversos conceitos de sucesso podem depender mais do que vem de fora do que de dentro de você.

Qual sua motivação de escrever justamente um livro com esse tema?
Eu trabalho há mais de 25 anos com executivos e empresários e notei que muitos deles possuíam aparente sucesso, riqueza material, poder, status, imagem, mas que, no fundo no fundo, quando se abrem, eles têm uma intranqüilidade, uma insatisfação, uma ansiedade e, alguns, até uma angústia de não se sentirem plenamente realizados.

A busca desenfreada pelo sucesso fez a gente esquecer quem somos?
Exatamente. Eles conhecem tanta coisa: o mercado, o concorrente, os funcionários, os amigos, mas talvez o conhecimento mais fundamental para esse equilíbrio é o autoconhecimento que lhes falta. Eu também passei pelo desequilíbrio. Só pode falar de desequilíbrio quem passou por ele. Eu já fui workaholic, já exagerei no auge da minha carreira e em outros momentos, de maior ou menor desequilíbrio.

Como era sua rotina nessa época?
Eu viajava 70% do meu tempo, trabalhava até altas horas da noite, no final de semana levava trabalho para casa, tinha pouco tempo para me cuidar, dar atenção à família e aos filhos. Sempre que voltava do exterior trazia presentes para os meus filhos. Em uma das viagens eu chamei os meninos e disse: “papai trouxe presente para vocês!” e o mais velho falou só “Valeu, falou!”. Aí eu falei: “Eu fui correndo, comprei os presentes que sei que você gosta, quase perco o avião e você me diz: ‘valeu, pai’?” E ele, na candura, da adolescência, falou: “Pai, posso falar a verdade? No fundo a gente não quer o presente, só quer você!”. E aquilo foi um soco no estômago, um baque. E ele falou: “E sabe o que mais, pai? Às vezes dá a impressão de que você nos dá presente para compensar o fato de que você não pode ficar mais tempo conosco”. Nessa época eu tinha 45 ou 46 anos, estava no auge do sucesso profissional e disse: “Puxa, o que estou fazendo?”. Então comecei a pensar muita coisa e relatos desses executivos e colegas e parece que era a mesma novela, a mesma história se repetindo. E vi que estava todo mundo desequilibrado.

Existe um capítulo do meu livro que fala do natural e do normal. A gente tende muito a ser normal, desempenhando papéis. Precisamos ser mais naturais. Quais são as criaturas mais alegres, mais felizes, mais realizadas? São as crianças. Porque elas são mais naturais que normais. Elas dão mais importância ao ser do que ao estar. Mas eu não posso ser natural o tempo todo nem devo ser normal o tempo todo, porque nós vivemos em sociedade, temos de ter equilíbrio o tempo todo.

E qual seria a forma mais eficiente de o executivo se aproximar, no cotidiano profissional dele, mais do natural do que do normal?
É ouvir sua voz interna. Ouvir o coração. Decida mais coisas pelo coração porque ele é sábio. Se você acredita em reencarnação, dá para dizer que ela (intuição) é muito vivida. Ela tem emoção, é a voz da sua alma. E não só racional. É ser mais pró-ativo que reativo. E isso faz uma baita diferença.

E como isso é possível no mundo profissional? O executivo ainda precisa aprender a ouvir sua intuição?
Sem dúvida nenhuma. A gente faz muitas coisas ou deixamos de fazer pensando no que os outros vão pensar de nós. E você não arrisca, fica amarrado, fica prisioneiro de uma situação. E se a sua intuição for bem calibrada e uma coisa que já desenvolveu, ela dá idéias incríveis. Eu posso assegurar que as grandes descobertas do ser humano foram um exercício mais da intuição do que do intelecto. A informação só tem valor quando vira conhecimento e o conhecimento só tem valor se virar experiência. Mas quem cria mesmo é nossa alma, nossa inteligência, porque a alma é uma força criadora. É como um computador. Se eu não colocar algo dentro, ele não vai bolar do nada. Então a gente tem que libertar essa questão da alma. Isto é, em vez de ficar cerceando, censurando, reprimindo, é dar asas à imaginação, é deixá-la livremente pensar. Infelizmente nossa sociedade tem medo de almas livres.

E qual o papel da religiosidade, da espiritualidade na carreira do executivo para trazer a intuição de volta? Você acha saudável para o executivo se aproximar novamente da espiritualidade?
Eu não só acho importante como fundamental. Grandes invenções e descobertas foram frutos não de um exercício mental, mas de quando alma e mente se conectam. Você pode ver: todo lance novo foi um lampejo da criatividade quando alma e mente se encontram. Até dá para fazer coisas muito boas usando só a mente, não vou negar, mas quanto mais você libertar a alma, mais consegue criar. A linguagem é uma coisa divina e a única coisa divina que nós temos, que é a imagem e semelhança de Deus, é a alma. Agora, se é importante na empresa? É imprescindível. Infelizmente nós temos muito na sociedade, não só empresas, mas instituições religiosas, governos, que em vez de libertar, prendem. Eu até cito em meu livro que meu pai e minha mãe, que eram orientais, em vez de nos beijarem, nos abraçarem - uma forma de criar vínculos ou prender uma pessoa à outra - estavam sempre me educando. Educar não é prender uma pessoa à outra, mas fazê-la aprender. E aprender é o oposto de prender, é soltar, é liberdade, é dar asas à imaginação, ou desprender.

E você acredita que as estruturas organizacionais das empresas estão buscando essa nova maneira de interagir com o funcionário, menos burocratizada?
Elas falam, mas não são todas que fazem. O ser humano, até pela natureza, controla. Porque isso é fruto da insegurança. Eu posso controlar você ou seu corpo. Se eu te amarrar, eu te aprisiono, você está sob meu controle. Eu posso aprisionar sua mente, através de dogmas como “você é uma pecadora”, “você tem de se confessar para mim”, “você vai para o inferno”, “olha o medo”, “olhas os terroristas” e coisas como essa. E através de medo e culpa, especialmente, eu controlo sua mente. Agora, o que eu não posso controlar é sua alma, que é atemporal, é onipresente, onisciente. Por isso que as instituições, e não estou dizendo só a igreja, mas governos têm medo da alma livre. É uma ameaça. Quem foi perseguido? Todos esses grandes pensadores foram aprisionados, torturados, descartados porque eles ousaram enfrentar o status quo, o pensamento vigente.

E no mundo executivo, você tem algum exemplo de empresa que conseguiu libertar as pessoas para aprender e não apenas as prendeu?
Algumas empresas do setor de informática, eu não conheço muito bem, mas a Microsoft, a Apple, o Yahoo!, onde você precisa de criatividade. Você vê isso na sociedade: crianças que foram muito controladas, especialmente meninas, quando elas podem soltar as amarras da casa, dos pais, da escola, viram pessoas que Deus me livre!, algumas até malucas. São insaciáveis. Porque não souberam como dosar. Nos EUA, não se pode beber com 21 anos. Lá, se você for pego, tem penas pesadas. Então eles não podem beber mas bebem escondidos. E quando estão na faculdade, tomam porres, ficam bêbados! Eles não souberam ter uma liberdade amadurecida, responsável. Na Europa, as pessoas bebem desde criança, como parte natural do crescimento, do seu dia-a-dia, e então não acham que precisam beber. Tudo que é cerceado, reprimido, parece que você quer mais. É contra-producente essa proibição. Então você fala: “todo mundo tem que ser padrão, pensar como todos, ser igual”, não é legal. Você tem que dar condições para o camarada usar sua imaginação.

Então uma estratégia para libertar as amarras que essas instituições colocam poderia ver da própria formação do indivíduo?
Perfeitamente. Inclusive os dez mandamentos dos cristãos (e eu fui criado na religião católica) tem sete que começam com a palavra não. “Não matarás”, “Não darás falso testemunho”... Porque em vez de falar isso não se coloca no positivo? Em vez de “não matarás”, “celebrarás a vida”. Em vez de “não mentirás”, “pratique a verdade”. Coloquei no final do meu livro os códigos dos indígenas americanos e, dos vinte códigos, apenas dois falam não, mas de uma forma muito suave. Nós fomos infelizmente criados numa sociedade muito repressora, de censura. E isso não é muito legal. E as crianças nascem criativas, imaginativas, desinibidas, destemidas, espontâneas e naturais. E em vez de desenvolvermos essas características mais e mais, fazemos o oposto. Os pais, até bens intencionados, em vez de desenvolverem os dons das crianças, acabam refreando e matando esses dons. E elas vão ficando adultos inibidos, temerosos, sem imaginação, com pouca criatividade e muitos complexos. Isso é altamente negativo para o desenvolvimento de um ser humano, da comunidade, do país e do planeta.

E nesse sentido está o que você chama de Fator Wow. (no livro, Wong diz que o Fator Wow é “a atitude que vai gerar a diferença de maneira continuada”, inclusive a frente dos seus concorrentes). Existe algum exemplo de executivo que soube usar o fator Wow! e demonstrou toda essa criatividade?
Existem muitos exemplos. As Casas Bahia são um. Ele ousou, foi mexer com os segmentos C D e E enquanto as outras estavam concentradas nos A, B e C. E ele hoje tem prestações equivalentes a um real por mês. Isso é Wow!: ousar, acreditar e fazer acontecer. A TAM, a Gol e a própria Daslu são bons exemplos também. Não no que se refere às questões de contabilidade, mas ela acreditou em um sonho e tocou para a frente. A TAM acreditou que não são os próprios funcionários que têm de atender bem o cliente, o próprio patrão tem de dar o exemplo. Estar na pista esperando os passageiros chegarem é demonstrar genuíno interesse, em vez de só interesse. E a Gol acreditou que você não só tem equipamento bom, mão de obra boa mas tem de ter preço competitivo. Não é que abaixando preço você vai perder dinheiro. Pelo contrário: ele demonstrou que esse diferencial atrai mais. Passagem aérea é no fundo vender tempo. Se eu não vender um assento, eu o perdi para sempre. Então ele fazia mais barato e tinha quase 100% de lotação, a preço médio menor, mas de qualquer forma não tomava um baita prejuízo.

E o cultivo desse “fator Wow!”? Porque em situações ideais seria ótimo passar para as crianças os valores que permitissem que elas fossem adultos criativos e destemidos, mas para alguém que tenha a formação convencional, participando dessas instituições, muitas vezes burocráticas ao extremo, como fazer?
Para você atingir a excelência, tem de partir de premissas excelentes. Então você tem de acreditar que você é excelente. E nós somos excelentes, ao menos nossa alma é. O corpo e a mente podem até estar em declínio, mas a alma é o que mais está progredindo. Se você usa essa premissa, consegue chegar à excelência porque age e pensa como excelente, pratica e vive a excelência e tudo isso se torna um círculo virtuoso. Em vez de fazer mais um relatório, você faz um relatório Wow!, em vez de escrever mais um livro, escreve um livro Wow!, em vez de abraçar, fala: vou abraçar Wow!, em vez de transar, você faz um amor Wow! e vê a diferença que isso faz na sua vida. Não é [para se preocupar] se tem condições, dinheiro ou tempo para isso. Só tem uma questão fundamental: sua atitude. Sua iniciativa para pensar assim e agir assim. Custa o mesmo dinheiro.

E você fala em seu livro sobre as pessoas sem talento mas dedicadas e as talentosas mas preguiçosas...
O ideal é ter competência, trabalho e a atitude certa. Isso tudo junto, mais o fator Wow!, gera um vencedor, sem dúvida.

Você afirma no livro que o executivo só deve “embarcar” na empresa se estiver em absoluta consonância com seus objetivos, ainda que esteja desempregado. Mas é possível um executivo não obedecer essa regra e ainda assim viver uma experiência interessante?
Tudo é uma questão não do desafio, ou do momento, ou do tempo. A questão reside em uma palavra: a sua atitude. Você vê o copo cheio ou vazio? Você vê o problema ou a oportunidade? Você se vê como vítima ou responsável pelo que está acontecendo?

Como headhunter, de que maneira você avaliaria o currículo de alguém que ficou muito tempo parado?
Todos nós vamos ficar desempregados uma vez na vida ou mais. Isso fatalmente acontecerá com todos. Se você aproveitou essa ocasião para se aperfeiçoar e investir em si próprio, eu digo que esse é o cara que merece uma oportunidade e que tem a atitude certa. Agora, se não aproveitou a oportunidade para investir em si, ele é muito passivo. Eu digo que a diferença entre os vencedores e os perdedores é que um é reativo e o outro é pró-ativo. Eu sempre digo: não procure emprego, porque o emprego é sempre reativo. Ele está lá, pré-determinado, e eu só posso simplesmente reagir nele. Eu não posso dizer: eu quero esse emprego mas não quero fazer essa parte, mas outra, não posso dizer não quero me reportar a esse cara, quero 20 subordinados... Isso não acontece. O emprego já está pré-determinado, eu só posso reagir perante isso, dizer sim e acabou. A palavra de ordem não é emprego, chama-se empregabilidade. A empregabilidade é uma palavra pró-ativa porque não depende do que o mercado tem para oferecer para mim. Depende, sim, do que eu tenho para oferecer ao mercado. Estudando, adquirindo competências, abrindo os horizontes, tendo atitudes mais adequadas, vendo a figura toda e não apenas sendo micro-focado. E todos esses investimentos o cara pode fazer quando está em um meio-termo de empregos, entendeu? Esse sim é um camarada que zelou, investiu em si próprio. Eu tenho até um ditado que uso quando vou fazer palestras para jovens que é o seguinte: os jovens abusam dos velhos. O que eu quero dizer com isso é: “jovem, se você não zelar por si próprio, não cuidar de si próprio, não estudar, não cuidar daquela viagem, não adquirir experiências etc e tal, o velho e a velha que você irá se tornar será abusado. Infelizmente a grande maioria dos executivos que eu conheço são seres abusados porque não cuidaram de si lá para trás e agora estão pagando o preço disso.

E com relação a se fazer percebido após esse período de preparo? Você tem alguma recomendação enquanto headhunter?
Eu acho que você tem de encarar a si próprio como um produto a ser cotado no mercado, mas no bom sentido. O currículo não é mais um currículo, mas passa a ser um folheto de um produto chamado fulano não sei do quê. O networking é preciso, divulgar o produto, me fazer conhecido. Para isso, eu tenho até que investir na embalagem desse produto: será que eu estou fisicamente bem? Eu estou gordo, relaxado, minha pele está ruim? Porque você raramente terá uma segunda chance para causar uma boa primeira impressão.

E entra também a questão da comunicação?
Sim. Não adianta você ser maravilhoso e o mercado não saber disso. Não adianta você ter um belo produto e deixá-lo escondido debaixo do colchão. Tem que divulgar, ou seja, fazer um pouco de selfmarketing, mas com classe, com elegância, isso é vital frisar, para que você possa conquistar esse mercado.

Parafraseando uma frase do livro, a de que os lucros e os resultados não trazem felicidade mas que é ela que possibilitará conquistá-los, dá para dizer que não existe sucesso sem equilíbrio?
Eu não gosto do que é radical: jamais, nunca, sempre. É claro que tem gente desequilibrada com sucesso, se eles entenderem sucesso como dinheiro e poder. Outros acham que sucesso é ter paz interior. Outros, que é ter uma família maravilhosa. Para cada um o sucesso tem uma determinada definição. Evidentemente o equilíbrio para mim é fundamental, porque mais cedo ou mais tarde você vai se dar conta que o preço que você paga pelo sucesso que almeja é alto demais.

E o que você pode ter como sucesso pode não vir de uma crença sua mas do que os outros colocaram em sua cabeça?
Isso é o pior! O sucesso tem de ser seu, não o que os outros pensam!

Mas você vê isso acontecer com os executivos?
Muito. Nós temos uma pressão desmedida da sociedade, da concorrência, da televisão que nos impõe um modelo, de Hollywood, etc. Porque a pessoa tem de ser magra? Se ele está gordo mas bem, ótimo! Porque todos têm de ter o carro último modelo? Isso é ser maria-vai-com-as-outras, é o modelo carneirinho. Eu acho que cada um tem o seu modelo. E é por isso que eu digo: o autoconhecimento é o mais fundamental. Lógico, também dentro de um certo equilíbrio: o cara não vai ficar lá só tentando o autoconhecimento sem se preocupar com o resto, isso é até uma fuga. Até nisso, tem de haver um certo equilíbrio. Você fala: eu já me conheço, isso me basta para tocar minha vida e vamos para a frente.

Você diz no livro que as mulheres não ocupam cargos executivos por saberem do preço. Isso acontece quando elas chegam ao cargo ou elas antevêem esse preço? Com que idade elas se dão conta desse preço?
Diziam que elas não chegavam lá por serem menos qualificadas, ou porque elas sofriam um certo preconceito, tinham menos oportunidades. Podem até ser razões, mas, no meu ponto de vista, as mulheres sabiamente não querem pagar o preço. Elas não querem ficar pagando o preço de longas horas, jogos políticos, ausência no lar, não ver os filhos crescendo, puxa-saquismo e perda do equilíbrio para ganhar sempre mais e mais. Algumas até querem, e é interessante que houve um estudo que diz que as mulheres que chegam no topo, infelizmente em vez de usarem seus dotes femininos de coleguismo, de diálogo, de compaixão, de irmandade, assimilam aquele modelo masculino porque é o modelo de autoridade que ela conheceu e elas acham que aquele é um modelo a ser emulado, assimilado ou copiado. Então elas vêm travestidas de um estilo masculino que não é legal. Tanto é que uma pesquisa mostrou que mulheres preferem homens chefes que mulheres chefes. Algumas mulheres, quando viram chefe, exageram os trejeitos masculinos, são mais exigentes, mais autoritárias e mais workaholics que o homem. E até um estudo foi feito mostrando que, nessas mulheres que chegam à presidência, o timbre de voz abaixa e fica mais grave, mais masculinizado. Pegue uma foto de quase todas essas mulheres. Quase todas têm o cabelo cortado bem curtinho.

Já para os homens você vê que é muito raro o filho de um homem seguir os passos dos pais. O filho do Akio Morita, do Matarazzo. O que isso significa? Que eles pensaram: que vida é essa? Meu pai nunca foi presente! Ele pode ter sido um baita executivo mas, como ser humano, como pai, não tem notas tão altas. Inclusive cada geração rejeita o modelo da geração anterior. Desde a Segunda Guerra, as pessoas que lutaram, tiveram uma vida muito sacrificada. A seguinte foi a geração dos babyboomers, nome apropriado porque esses soldados iam para a frente e não sabiam se iam voltar. Esses babyboomers, e eu sou um deles, vimos a vida de sacrifícios de nossos pais e falamos: tudo bem, vamos trabalhar duro como nossos pais, mas queremos alguma recompensa por isso. E os babyboomers são uma geração que tiveram muito sucesso material, porque trabalharam mas receberam os frutos desse trabalho. E os que os seguiram foram os hippies e, depois os yuppies, que queriam suas Montblancs, BMWs e status. Depois dos yuppies veio o culto ao corpo, malhação, bronzeado, corpo todo esculpido e, agora, a geração dos socialmente conscientes, esses jovens que querem trabalhar em ONGs, endireitar o ambiente, o que é muito legal. Então, você vê como é a natureza humana.

Mas a alternância que você descreveu mostra posturas cada vez menos radicais. Você acha que a tendência é as pessoas atinarem para o equilíbrio?
Eu acho que é muito saudável e escrever esse livro é um alerta para isso. Eu acho que o pessoal está com uma sede, fome, vontade de atingir o equilíbrio. Porque se você ficar de pé agora com uma perna para o ar e outra no chão, você vai se cansar logo. A natureza humana é muito sábia, pois ela própria procura o equilíbrio.

Na sua experiência pessoal, além de ter se dedicado menos horas ao trabalho, o que mais acha que pode ser feito?
Quando eu era um garoto, filho de imigrantes, eu disse: poxa, eu quero ser alguém na vida, em inglês, “I wanna be anybody”. Depois, quando eu fui para a faculdade, eu pensei: “I wanna be somebody”, eu quero ser alguém, mesmo. Tanto é que hoje sou um nome reconhecido não só no Brasil, mas mundialmente. Mas depois, eu caí do cavalo, levei uma bordoada da vida, até a experiência que relatei com os meus filhos, e eu descobri que na realidade eu sou um nobody. E essa é uma lição muito impactante de humildade, que é uma coisa muito sofrida, mas ao mesmo tempo muito valiosa. E hoje eu sei que eu sou parte de everybody, e é essa coisa linda, porque nós nos contatamos, e assim estamos interligados. É bacana, quer dizer, eu hoje sou parte de um grupo, de uma sociedade, do planeta Terra, do Universo.

O maior volume de água do mundo está nos oceanos e olha só a natureza como é sábia: ela sabe que, para ele ser o maior de todos, ele tem de estar no nível mais baixo de todas as águas do mundo. A moral da história é que para você ser um homem verdadeiramente grande, você tem de estar abaixo de todos os homens do mundo, tem de estar aí para servi-los, como foi o caso de Ghandi, Albert Einstein, Abraham Lincoln, Thomas Aquino, Jesus e tal.

Eu digo na orelha do livro: leia esse livro com dois ouvidos, mas não fique só dando importância ao que eu estou dizendo, e sim como esses fatos ressoam internamente em você. Porque a minha verdade não é necessariamente a sua verdade. E essa, só você é que sabe.