Daniel Wainstein
Metas Solleiro, presidente do time, vai estender o projeto ao Rio
  COMENTE A REPORTAGEM


Campo dos sonhos
do Pão de Açúcar

Líder do varejo monta time de futebol para dar oportunidade de carreira a meninos carentes

O empresário Abílio Diniz, são-paulino de carteirinha, pode acabar ganhando a fama de vira-casaca. Ele vem torcendo, desde 2003, para um outro time, bem menos conhecido, mas que também já acumula alguns títulos dignos dos maiores clubes brasileiros. Trata-se do Pão de Açúcar Esporte Clube, que agrega equipes nas categorias sub-15, sub-17, sub-20 e prepara, para 2006, sua chegada à seleta esfera dos profissionais. O projeto tem como objetivo inicial tirar garotos habilidosos com a redonda da vida difícil das favelas e oferecer o futebol como alternativa à marginalidade. Porém, Diniz não esconde as ambições de transformá-los em ídolos de grandes torcidas. “Eu não quero apenas meninos no projeto. Quero meninos muito bons de bola”, disse Fernando Solleiro, diretor de Recursos Humanos do Pão de Açúcar e responsável pelo projeto.

Estabelecida a missão era hora de desenhar a estratégia. A idéia de Solleiro era realizar um torneio em São Paulo, com 2,3 mil garotos, para selecionar 72 e montar o primeiro esquadrão. Mas quando as inscrições para o campeonato “Super Copa CompreBem” foram abertas, em 2003, um susto: 72 mil meninos vislumbraram a oportunidade de realizar o sonho de crescerem no futebol. “Fizemos minicampeonatos até chegar aos 2,3 mil iniciais”, lembra Solleiro, que assumiu a posição de presidente do clube. Mesmo assim, depois de selecionados os 72 garotos da primeira equipe, sobrava a dúvida: como ajudar também os outros? Foi criada então a Escola de Varejo, em que mais 180 meninos aprendiam técnicas de gerência dos supermercados e poderiam receber uma vaga em uma das lojas da rede Pão de Açúcar. O projeto ganhou um outro nome, mais amplo: “Craques em todas as posições”. O padrinho do torneio de futebol foi o lateral Cafu, que é um símbolo da persistência, pois foi reprovado em sete ‘peneiras’ antes de ser aceito no São Paulo.

Os garotos eleitos para integrar as primeiras equipes do Pão de Açúcar Esporte Clube tinham entre 14 e 16 anos. Hoje, 150 deles treinam no Centro de Treinamento (CT) Pão de Açúcar de São Paulo, um terreno de 51 mil metros quadrados, com quatro campos e alojamento para quem mora fora da capital paulista ou muito longe do CT. “Todos estudam. É obrigatório para participar”, afirma Solleiro. Inicialmente, o clube tinha somente as categorias sub-15 e sub-17. Mas os meninos cresceram. E, assim, a classe sub-20 foi criada para abrigar os garotos. Foram 11 jogadores da classe sub-20 que, em maio, disputaram um campeonato na Holanda. “Em menos de um ano de trabalho, já estávamos jogando fora do País. É um resultado excelente”, comemora Solleiro. Enfrentando times como Ajax, Paris Saint-Germain, Bayer Leverkusen e PSV, os brasileiros ficaram em terceiro lugar. Em 2006, o campeonato se repetirá e o Pão de Açúcar já está confirmado, junto com três novos integrantes: Milan, Barcelona e Boca Juniors.

Para dar mais visibilidade aos garotos e a possibilidade de ascensão na carreira, que é gerenciada pelo clube de Abílio, o Pão de Açúcar Esporte Clube firmou uma parceria com o Juventus, em São Paulo, e estuda uma união com o América, no Rio de Janeiro – o time do empresário chegou à capital carioca neste ano e estuda a implementação de novos CTs em outras capitais, principalmente no Nordeste. Cada espaço desses custa cerca de R$ 1,5 milhão em manutenção por ano. Manter um time competitivo na divisão profissional dos campeonatos regionais pode custar outros R$ 2 milhões anuais. Mas dinheiro não é exatamente um problema para Abílio Diniz. “Ele quer que os garotos cresçam e consigam uma situação melhor na vida através do esporte ou da escola de varejo. É para isso que investimos tanto”, diz Solleiro. “E desse modo vamos ter um craque que saiu dos CTs do Pão de Açúcar na seleção brasileira, na copa de 2010”, garante o executivo-torcedor.