| VIRAR
ENTREVISTA A SEU FAVOR |
| Uma
entrevista de emprego é um excelente jogo de poder. Vença
o entrevistador ou lhe subtraia as armas para se inserir no
mercado. |
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“Nossas
diretivas estratégicas eram: dinamismo, iniciativa,
mobilidade e rapidez de decisão diante de situações
não previstas”, General
Vo Nguyen Giap, comandante-chefe do Exército Popular do Vietnã,
em
“O Vietnã segundo Giap”.
Marco
Roza*
Uma
leitora desta coluna me pediu dicas
para tentar virar uma entrevista de
emprego a seu favor.
Ouvi,
primeiro, seu plano: “Vou pesquisar o quanto este tipo de
empresa paga para a função que estou disputando e
pedirei uns cem reais a menos”, me disse com a respiração
presa, antecipando o sim
do seu entrevistador e já começando
a gastar mentalmente o salário que
receberia dali a um mês.
“Se
o cara tiver dúvida, vou sacar todas as pesquisas de salário,
as recomendações de piso do sindicato da categoria,
e comparar com o meu currículo que me posiciona muito acima
da média de mercado”.
Continuei
ouvindo, já prestando atenção ao relógio
e tentando buscar uma saída honrosa para avisá-la
que a entrevista muito provavelmente fracassaria.
Eis
minhas razões, para sua avaliação, leitora
ou leitor.
As
entrevistas de emprego acontecem num teatro que tem o triste formato
de um balcão invertido de Secos & Molhados. (Se você
não sabe o que é Secos & Molhados, pergunte para
seus pais.) O candidato (ou candidata) é a mercadoria, e
se oferece do lado de fora do balcão. Do lado de dentro,
ao contrário das boas casas do ramo, fica o comprador. O
desempregado-mercadoria veste o seu papel. O entrevistador estimula
a mercadoria a falar. E o diálogo se estabelece.
A
mercadoria-desempregada, de tanto antecipar a entrevista, já
tem tudo na ponta da língua. Prometerá ser um futuro
empregado interessado nos destinos da empresa. Aceitará viajar
até para o inferno. Trabalhará sábado, domingo
e feriado. E ficará surpreso (ou surpresa) quando não
conseguir a vaga. Só político arruma emprego com mentiras.
Jogo
de poder
Uma entrevista de emprego é um jogo de poder. E
não uma peça teatral improvisada. O entrevistador
tem a responsabilidade de conseguir o melhor talento pelo melhor
preço. A última coisa que pode fazer é contratar
pessoas boas de conversa e péssimas no futuro desempenho
da função. Portanto, o entrevistador também
tem a perder se contratar errado. Você deve se lembrar disso
e usar a situação a seu favor.
Como?
Antes de ir para a entrevista avalie suas necessidades e tente encaixar
o futuro emprego (mesmo que venha a durar um mês) na solução
de seus problemas de sobrevivência imediatos. Pese também
suas chances. E não tente melhorar a probabilidade de sua
contratação com mentiras. É desgastante e inútil.
Aceite apenas as entrevistas que se encaixam no seu perfil.
A
busca por uma nova vaga deve ser apenas uma de suas atividades.
Monte sua agenda em torno de sua vida. Gaste seu tempo em visitas
a amigos, em conversas com pessoas que estejam desbravando novos
projetos, na sua integração aos trabalhos voluntários
da igreja ou da escola de seus filhos.
Com
uma rotina ampliada, ao se deparar com o entrevistador, você
estará à vontade para impor todo o peso de suas qualificações,
de uma maneira leve e sutil. Insinuando em cada gesto que, se aquela
empresa perder seu talento, o responsável será o entrevistador.
É tremendamente difícil desempenhar este papel. Mas
é aí que está o segredo do grande teatro.
Você
entra no jogo de poder, controlando cada músculo, insinuação
e proposta. É uma mercadoria, mas em vez de falar o que imagina
que o entrevistador quer ouvir, você o transcende, ao provar
na prática que é mais humano que ele (ou ela).
Pode
ser que até surja a vaga, em função do seu
desempenho. Mas para cada entrevista que seja aparente perda de
tempo e que para as pessoas despreparadas para a vida se transforme
em frustração, para você ficará o gostinho
da interação, da dúvida bem colocada, da informação
recolhida sobre a empresa e do setor econômico em que ela
está incluída, como detalho em Procurar emprego
nunca mais, com prefácio de Joelmir
Beting.
Você
passa a usar cada entrevista para alimentar seu projeto de vida,
sua busca incessante de renda e trabalho. Se, no esforço,
tropeçar num crachá, parabéns. Caso contrário,
você usa o cafezinho, a cadeira e o palco que lhe oferecem
nestas simulações de seleção para realizar
um ajuste fino no seu discurso, na sua postura e na sua capacidade
de vender suas idéias.
E o salário?
Voltemos à leitora. O quanto ela deveria pedir
de salário? Na entrevista, o melhor é realçar
suas qualidades. Quem está interessado em comprar é
que deve fazer o preço.
Na grande maioria das vezes, o valor do salário da função
já está definido. Portanto, não dê o
gostinho extra ao entrevistador de humilhá-lo com uma proposta
inferior, ou ir correndo para contar para a chefia que o convenceu
a aceitar um salário menor, caso sua sugestão seja
inferior à prevista na planilha.
E, lembre-se, comece a montar seu Plano
B (clique em colunas anteriores), no instante em que for aceito
no novo emprego.
Trabalho e Sabedoria
O
homem como referência de seu mundo – Li Universo
baldio, do Nei Duclós (do selo Francis, da W11 Editores).
Levei uma tremenda porrada poética, no meio da testa, e estou
ainda catando os cacos. Se você gosta de ler o mundo pela
alma de personagens complexos, corra até a livraria mais
perto de sua casa ou encomende nos grandes sites. Depois, tranque
todas as portas, recolha-se a um ofurô (se tiver) ou consiga
aquele estado de relaxamento que só a epiderme alheia e querida
permite, e mergulhe no Universo baldio. Não deixe
seu analista saber desta sua terapia alternativa. Mas se ele reclamar,
demita-o. Com o dinheiro economizado, compre mais Nei Duclós
e saia pelo mundo distribuindo reflexões, que impressionaram
gênios como Raduan Nassar e Mario Quintana. 
Colunas anteriores
Créditos:
Marco Roza é jornalista. Trabalhou na Folha
de São Paulo, Folha da Tarde, Notícias Populares,
Jornal da Tarde, Diário do Grande ABC e DCI. Em Londres,
trabalhou para o Central Office of Information, órgão
de divulgação do governo inglês. É
diretor da Marco Direto Marketing - MDM,
e se especializou em Marketing da Diferença®, em
que pesquisa para
seus clientes como agregar ou ressaltar as diferenças
que são percebidas pelos consumidores. |
Email:
marcoroza@mdm.com.br.
Telefone: 0800-11-1239
Procurar emprego nunca mais é editado pela W11
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