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 PROCURAR EMPREGO NUNCA MAIS Sexta-feira, 08 de abril de 2004
VIRAR ENTREVISTA A SEU FAVOR
Uma entrevista de emprego é um excelente jogo de poder. Vença o entrevistador ou lhe subtraia as armas para se inserir no mercado.

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“Nossas diretivas estratégicas eram: dinamismo, iniciativa,
mobilidade e rapidez de decisão diante de situações não previstas”, General
Vo Nguyen Giap, comandante-chefe do Exército Popular do Vietnã, em
“O Vietnã segundo Giap”.

Marco Roza*

Uma leitora desta coluna me pediu dicas
para tentar virar uma entrevista de
emprego a seu favor.

Ouvi, primeiro, seu plano: “Vou pesquisar o quanto este tipo de empresa paga para a função que estou disputando e pedirei uns cem reais a menos”, me disse com a respiração presa, antecipando o sim
do seu entrevistador e já começando
a gastar mentalmente o salário que
receberia dali a um mês.

“Se o cara tiver dúvida, vou sacar todas as pesquisas de salário, as recomendações de piso do sindicato da categoria, e comparar com o meu currículo que me posiciona muito acima da média de mercado”.

Continuei ouvindo, já prestando atenção ao relógio e tentando buscar uma saída honrosa para avisá-la que a entrevista muito provavelmente fracassaria.

Eis minhas razões, para sua avaliação, leitora ou leitor.

As entrevistas de emprego acontecem num teatro que tem o triste formato de um balcão invertido de Secos & Molhados. (Se você não sabe o que é Secos & Molhados, pergunte para seus pais.) O candidato (ou candidata) é a mercadoria, e se oferece do lado de fora do balcão. Do lado de dentro, ao contrário das boas casas do ramo, fica o comprador. O desempregado-mercadoria veste o seu papel. O entrevistador estimula a mercadoria a falar. E o diálogo se estabelece.

A mercadoria-desempregada, de tanto antecipar a entrevista, já tem tudo na ponta da língua. Prometerá ser um futuro empregado interessado nos destinos da empresa. Aceitará viajar até para o inferno. Trabalhará sábado, domingo e feriado. E ficará surpreso (ou surpresa) quando não conseguir a vaga. Só político arruma emprego com mentiras.

Jogo de poder
Uma entrevista de emprego é um jogo de poder. E não uma peça teatral improvisada. O entrevistador tem a responsabilidade de conseguir o melhor talento pelo melhor preço. A última coisa que pode fazer é contratar pessoas boas de conversa e péssimas no futuro desempenho da função. Portanto, o entrevistador também tem a perder se contratar errado. Você deve se lembrar disso e usar a situação a seu favor.

Como?
Antes de ir para a entrevista avalie suas necessidades e tente encaixar o futuro emprego (mesmo que venha a durar um mês) na solução de seus problemas de sobrevivência imediatos. Pese também suas chances. E não tente melhorar a probabilidade de sua contratação com mentiras. É desgastante e inútil. Aceite apenas as entrevistas que se encaixam no seu perfil.

A busca por uma nova vaga deve ser apenas uma de suas atividades. Monte sua agenda em torno de sua vida. Gaste seu tempo em visitas a amigos, em conversas com pessoas que estejam desbravando novos projetos, na sua integração aos trabalhos voluntários da igreja ou da escola de seus filhos.

Com uma rotina ampliada, ao se deparar com o entrevistador, você estará à vontade para impor todo o peso de suas qualificações, de uma maneira leve e sutil. Insinuando em cada gesto que, se aquela empresa perder seu talento, o responsável será o entrevistador. É tremendamente difícil desempenhar este papel. Mas é aí que está o segredo do grande teatro.

Você entra no jogo de poder, controlando cada músculo, insinuação e proposta. É uma mercadoria, mas em vez de falar o que imagina que o entrevistador quer ouvir, você o transcende, ao provar na prática que é mais humano que ele (ou ela).

Pode ser que até surja a vaga, em função do seu desempenho. Mas para cada entrevista que seja aparente perda de tempo e que para as pessoas despreparadas para a vida se transforme em frustração, para você ficará o gostinho da interação, da dúvida bem colocada, da informação recolhida sobre a empresa e do setor econômico em que ela está incluída, como detalho em Procurar emprego nunca mais, com prefácio de Joelmir Beting.

Você passa a usar cada entrevista para alimentar seu projeto de vida, sua busca incessante de renda e trabalho. Se, no esforço, tropeçar num crachá, parabéns. Caso contrário, você usa o cafezinho, a cadeira e o palco que lhe oferecem nestas simulações de seleção para realizar um ajuste fino no seu discurso, na sua postura e na sua capacidade de vender suas idéias.

E o salário?
Voltemos à leitora. O quanto ela deveria pedir de salário? Na entrevista, o melhor é realçar suas qualidades. Quem está interessado em comprar é que deve fazer o preço.

Na grande maioria das vezes, o valor do salário da função já está definido. Portanto, não dê o gostinho extra ao entrevistador de humilhá-lo com uma proposta inferior, ou ir correndo para contar para a chefia que o convenceu a aceitar um salário menor, caso sua sugestão seja inferior à prevista na planilha.

E, lembre-se, comece a montar seu Plano B (clique em colunas anteriores), no instante em que for aceito no novo emprego.

Trabalho e Sabedoria

O homem como referência de seu mundo – Li Universo baldio, do Nei Duclós (do selo Francis, da W11 Editores). Levei uma tremenda porrada poética, no meio da testa, e estou ainda catando os cacos. Se você gosta de ler o mundo pela alma de personagens complexos, corra até a livraria mais perto de sua casa ou encomende nos grandes sites. Depois, tranque todas as portas, recolha-se a um ofurô (se tiver) ou consiga aquele estado de relaxamento que só a epiderme alheia e querida permite, e mergulhe no Universo baldio. Não deixe seu analista saber desta sua terapia alternativa. Mas se ele reclamar, demita-o. Com o dinheiro economizado, compre mais Nei Duclós e saia pelo mundo distribuindo reflexões, que impressionaram gênios como Raduan Nassar e Mario Quintana.

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Edu Simões / W11 editoresCréditos:
Marco Roza é jornalista. Trabalhou na Folha de São Paulo, Folha da Tarde, Notícias Populares, Jornal da Tarde, Diário do Grande ABC e DCI. Em Londres, trabalhou para o Central Office of Information, órgão de divulgação do governo inglês. É diretor da Marco Direto Marketing - MDM, e se especializou em Marketing da Diferença®, em que pesquisa para
seus clientes como agregar ou ressaltar as diferenças que são percebidas pelos consumidores.

Email: marcoroza@mdm.com.br.
Telefone: 0800-11-1239
Procurar emprego nunca mais é editado pela W11 Editores
(011-3812-3812)

 

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