Quem paga a conta da fome global? Por Ibiapaba Netto

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Se o mundo não inventar um novo jeito de fazer agricultura, as populações mais carentes pagarão com a falta de alimentos disponíveis
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Os dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura (FAO, sigla em inglês) são implacáveis. Em 2050 o mundo terá cerca de 9,2 bilhões de habitantes - três bilhões de pessoas a mais do que hoje. É como se duas novas Chinas se formassem até lá.
Muito antes disso, em 2025 seremos pouco mais de oito bilhões de "terráqueos" e o pior de tudo: a oferta de terra para produzir comida será a mesma de hoje. Na verdade, desde a década de 1950, a área plantada no mundo não aumentou tanto assim.
Saltamos de 1,3 bilhão de hectares para 1,5 bilhão e, por causa das áreas de preservação e pela própria expansão das cidades, não há para onde crescer. O jeito é produzir mais no mesmo espaço e aí que está a dificuldade. Há em curso uma série de pesquisas para desenvolver novos cultivares mais produtivos e resistentes a tudo quanto é tipo de problema.
A Syngenta, por exemplo, uma multinacional americana, está buscando em fungos do Mar Morto um gene que dê ao milho a resistência necessária para que a planta cresça em áreas de pouca chuva. São os chamados Organismos Geneticamente Modificados (OGM), ou simplesmente os transgênicos. Isso viabilizaria, por exemplo, a agricultura em boa parte da África. Por ano, centenas de milhares de dólares são despejados nessas pesquisas e a iniciativa privada já elegeu esse tipo de tecnologia como a provável salvadora da lavoura, literalmente.
Ocorre que a transgenia está longe de ser uma unanimidade e tem suscitado debates acalorados em todo o mundo. O time dos contrários argumenta que ainda não há provas definitivas sobre a segurança alimentar desses produtos. Para os favoráveis, a história é exatamente oposta: não há, de fato, nenhum estudo que comprove qualquer tipo de dano à saúde humana, e os riscos ambientais são plenamente conhecidos.
Na prática, Alemanha, França, Hungria e Grécia suspenderam a compra de um determinado tipo de milho modificado. E uma onda antitransgênicos parece ecoar pelo planeta. Mas o fato nu e cru é que, sem a adoção de um jeito novo de se fazer agricultura, o mundo viverá um período de escassez de alimentos sem precedentes e terá de fazer escolhas num futuro não tão distante.
Especula-se que haverá dois grandes mercados: países ricos comprarão apenas alimentos convencionais, pagando mais por isso. Nações menos abastadas ficarão com as commodities transgênicas até que se prove, ou não, os seus reais efeitos. No Brasil, a Elma Chips contratou recentemente uma área de 100 mil hectares em Mato Grosso para o plantio de milho convencional. A empresa está assustada com a possibilidade de ter de colocar a identificação da presença de OGMs no rótulo de seus produtos.
Mesmo sendo um caso isolado, já demonstra uma tendência para produtos de maior valor agregado. Seja qual for a escolha, o Brasil está preparado para produzir e não poderá ser cobrado por órgãos mundiais, como a própria FAO, de não colaborar com o aumento da produção de alimentos no mundo. O País tem sido atacado internacionalmente por causa de suas emissões de CO2 na agricultura e de metano na pecuária.
Tais acusações fazem parte da briga global entre os fornecedores de alimento. Na busca de um modelo "ideal", o mundo pode deixar escapar um sistema viável e, quando se der conta, a fome já estará instalada. As escolhas vindouras não serão fáceis para a humanidade e as empresas brasileiras que se dispuserem a entrar nessa corrida podem aproveitar a grande oportunidade deste século que é justamente ganhar dinheiro plantando o alimento que o mundo quer comer. Falta só definir qual o modelo, porque os tratores brasileiros já estão com os motores ligados.
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