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Esse almoço não sairá de graça
A economia americana, enfim, voltou a crescer. Mas agora um outro desafio se impõe: o de gerir uma dívida do tamanho do PIB

Denize Bacoccina

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ap photo/rick bowmer
Depois do banquete: Barack Obama liberou trilhões para o resgate dos bancos, mas terá de gerir uma dívida de US$ 15 trilhões
photo/mark lennihan
Garçom, a conta: Timothy Geithner, do Tesouro, e Ben Bernanke, do Fed, não decidiram se é hora de retirar os estímulos

A quinta-feira 29, trouxe a notícia mais desejada dos últimos meses: a recessão acabou nos Estados Unidos, onde a economia cresceu 3,5% no terceiro trimestre. A notícia é boa, sem dúvida, mas ainda é cedo para comemorar o fim da crise.

A retomada do crescimento foi estimulada pelo consumo, com alta de 22,3% na compra de bens duráveis, como veículos. Que foram vendidos dentro do programa Carro Por Sucata, com um bônus para quem trocasse o carro usado por um novo.

A má notícia é que o programa já acabou e o desempenho não deve se repetir neste trimestre. "Já avançamos muito, mas ainda temos um longo caminho para restaurar nossa economia", disse o presidente Barack Obama. E o fato é que a conta está chegando. Após liberarem US$ 1,3 trilhão para resgatar bancos, é alta a fatura que está sendo entregue ao presidente Obama, ao presidente do Federal Reserve Ben Bernanke e ao secretário do Tesouro, Timothy Geithner.

Afinal, como dizia Milton Friedman, não existe almoço grátis. Na previsão mais conservadora, do Congresso, o déficit público passa de 3,2% no ano passado para 11,2% este ano. A proporção da dívida pública em relação ao PIB salta de 40,8% no ano passado para 61,4% no ano que vem. Mas o Fundo Monetário Internacional já fala numa dívida de até 100% do PIB.

"Na emergência, os americanos aceitaram uma deterioração muito forte nas contas públicas e terão que administrar isso durante muito tempo", diz o economista Fernando Sampaio, da LCA. Déficits não são novidade na economia americana. Eles apareceram ainda no primeiro mandato do presidente George W. Bush e se agravaram com as guerras. A diferença é que antes eles existiam num cenário de forte crescimento econômico e absoluta confiança na moeda americana. Hoje, com o crescimento fraco esperado para os próximos meses, essa confiança já começa a ser questionada.

"Eles estão ficando parecidos com o Brasil dos anos 80", diz o economista Paulo Guedes, fazendo referência à época em que o País deu calote. Pode ser exagero, mas há alguns anos ninguém ousaria tal comparação.

O economista- chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, acha que, apesar da situação precária das finanças públicas americanas, a dependência do dólar ajudará a sustentar a moeda americana. "O risco existe, mas o volume de dólares e títulos do Tesouro nas mãos de outros países é tão grande que ninguém vai se arriscar a mexer com isso", diz ele.

Eric Fonseca, gestor da New Foundland Capital Management, diz que ainda não existem pressões inflacionárias, mas já percebe no mercado sinais de aumento da taxa de juros de longo prazo nos EUA. "Em algum momento, eles terão de elevar o rendimento dos papéis do Tesouro", diz ele. Se houve um consenso sobre a necessidade de pacotes para estimular as economias, a preocupação agora é com o momento da retirada desses estímulos.

Na terça-feira, a Noruega subiu a taxa de juros, de 0,25% para 1,5%. Foi o primeiro na Europa. Nos EUA, os planos de resgate foram bilionários. O Federal Reserve tem em mãos cerca de US$ 900 bilhões em hipotecas e um dilema. Se vender os ativos com prejuízo, vai ouvir chiadeira do contribuinte.

Se vender com lucro, as reclamações partirão dos clientes e dos bancos privados. E se a economia não mantiver o ritmo, o presidente Obama terá que pedir mais dinheiro ao Congresso, dificilmente contando com a mesma boa vontade dos republicanos. É aí que a aposta no fim da recessão pode se revelar precipitada.

 

 


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