A queixa argentina Carlos José Marques, diretor editorial
Ao que tudo indica, para a Argentina relação comercial não deve ser uma via de mão dupla - nem nas regras, nem nos direitos, nem nos deveres.
Vale para empresários nativos guiar suas custosas unidades fabris sem preocupação com eficiência, encharcadas de subsídios e instrumentos protecionistas, enquanto aos parceiros internacionais resta uma montanha de restrições, ferindo de morte o teoricamente livre comércio do Mercosul.
Não faz muito tempo, o governo daquele país impôs uma infindável lista de barreiras contra produtos brasileiros. Retardou importações daqui para lá. Criou mecanismos de controles alfandegários. Embaraçou o comércio de ao menos 14% das mercadorias da pauta brasileira, com prejuízos significativos ao parque nacional.
Depois de um hiato de meses, eis que o Brasil decidiu finalmente, com algum atraso, pagar na mesma moeda. As autoridades daqui estabeleceram novas exigências nas licenças não automáticas, tal e qual o parceiro, para produtos como maçã, alho e farinha de trigo - campeões de venda daquele país. De imediato, o governo de Cristina Kirchner classificou como "inaceitável" a imposição. Exatamente assim!
A senhora Kirchner considerou razoáveis as limitações impostas na Bacia do Prata a mercadorias "made in Brazil" como calçados, têxteis, móveis, eletrodomésticos e autopeças. Mas achou uma afronta qualquer reciprocidade nesse aspecto. Com a visão limitada pelos próprios interesses, o governo argentino apontou que as medidas contra seus produtos podem acarretar desvio de comércio para terceiros países e travar o fluxo comercial bilateral.
Esqueceu de registrar que o seu mercado, independentemente da nova ação brasileira, já reviu as prioridades na direção da China. Apenas como registro da mudança de foco nos laços comerciais, nos oito primeiros meses de 2009, o Brasil recuou 37,7% em faturamento e 44,5% em quantidade de artigos vendidos à Argentina, enquanto a China teve um incremento de 65,4% em valores e 33,2% em quantidade de mercadorias para lá.
O desastre foi de tal monta que fabricantes brasileiros já perderam a liderança no comércio regional do Mercosul de calçados, confecções e têxteis. A queixa argentina de agora é um murmúrio diante do grito de insatisfação dos produtores nacionais.
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