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Os caminhos da diversidade
Como as empresas preparam seus funcionários para conviver com as diferenças sem preconceito e paternalismo

Tom Cardoso

Na corrida anual da Avon de 1997, promovida apenas para os funcionários, ninguém na empresa ousou questionar o favoritismo de uma operária da linha de produção. Além de ter vencido a etapa de 1996, ela havia melhorado o seu tempo durante os treinamentos - aos 27 anos, no auge da forma física, prometia "passear" nos três quilômetros de prova. A favorita só não contava com a determinação de uma novata na empresa, também da linha de produção, quase vinte anos mais velha do que ela, que, além de vencer a corrida, terminou três minutos na sua frente.

Era o segundo desafio vencido por Laurita Maria Soares Clemente em tão pouco tempo. O primeiro foi provar que, quase cinquentona e sem nunca ter tido um emprego na vida, ainda podia ser útil ao mercado de trabalho. Em um país em que até jovens universitários têm dificuldade em conseguir o primeiro emprego, o destino de Laurita, 46 anos na ocasião, estava traçado: viver como dona de casa até o fim da vida, sustentada pelo marido.

A virada aconteceu graças à política de diversidade da Avon, que abre espaço para as chamadas minorias - e Laurita se encaixa nessa categoria pela idade e falta de experiência profissional. "Apostar na diversidade não apenas melhora a imagem da empresa como tem reflexos diretos na produtividade. Um grupo de trabalho que convive com as diferenças terá mais facilidade na hora de resolver conflitos internos e externos, não perderá tempo com questões menores", afirma Reinaldo Bulgarelli, sócio-diretor da Txai Consultoria.

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O primeiro emprego aos 46 a política de inclusão da Avon mudou para sempre a vida de Laurita Clemente

O desafio é como preparar a empresa para a aplicação dessas políticas e como aproveitar o talento desses funcionários. Maria Anália, revendedora autônoma da Natura, é portadora de retinose pigmentar, doença degenerativa na retina.

Aos 54 anos, enxerga pequenos vultos, mas daqui a seis anos, pela evolução da doença, a cegueira será total. Enquanto enxergou relativamente bem, trabalhou. Era analista de crédito de um banco e, por volta de 30 anos, foi obrigada a deixar a empresa.

Aposentada por invalidez, entrou em depressão. Conseguiu dar a volta por cima apenas dez anos depois, em 1993, quando, por sugestão de uma amiga, começou a trabalhar para a Natura. Disciplinada, participou de todos os ciclos de treinamento da empresa até desenvolver um método próprio de trabalho. Nada tão diferente do habitual - ela chega à casa do cliente, abre o demonstrador e pede para ele apontar a página e depois o nome do produto. Mesmo assim, sofre preconceito.

"Ninguém espera que um deficiente visual bata na porta oferecendo algo para vender. Acham que vou pedir algo", diz. Às vezes, a resistência vem de dentro da própria empresa. Por isso, há seis anos, a Natura criou a figura do "padrinho". São voluntários, todos funcionários, que adotam um portador de deficiência e fazem cursos de leitura em braile - e, assim, ajudam na integração do deficiente visual.

"O importante é não estabelecer uma relação paternalista. O deficiente não é alguém que precisa ser protegido, tratado de forma especial. Se for assim, haverá conflito e a integração não será feita", afirma Denise Assis, gerente de RH da Natura. Dos 5.200 colaboradores da empresa, 280 são portadores de deficiência

A inclusão, aliás, só terá sucesso se a própria companhia assumir essa bandeira, como mostra a experiência do analista financeiro Rodrigo Braga, 32 anos. Há quatro anos, ele atua como colaborador da IBM. Quando chegou na multinacional, a política de integração da comunidade gay estava em pleno vapor. Braga, homossexual, foi colocado frente a frente com o gerente do departamento, para conversar abertamente sobre sua opção sexual.

"Nas outras empresas sempre foi muito diferente. Na segunda-feira, quando todo mundo conversava sobre o que havia feito no fim de semana, eu me fechava, pois sabia que alguém no fundo da sala faria algum comentário engraçadinho ou algo do tipo", afirma o analista financeiro. Braga é solteiro, mas, caso namorasse, seu companheiro teria direito a convênio médico e odontológico e seguro de vida.

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