Bolsa
O pedágio da Bovespa Para combater a valorização do real, o governo decidiu taxar em 2% os investimentos estrangeiros, mas os efeitos no câmbio e nas ações ainda são incertos
Denize Bacoccina e Marcio Kroehn
Nas últimas semanas, enquanto o dólar não parava de cair, multiplicaram-se as reclamações no setor produtivo sobre os riscos de um real forte demais, com danos para a balança comercial e a saúde da indústria brasileira.
Na segunda-feira 19, o governo resolveu agir: decretou um imposto sobre operações financeiras (IO IO F) de 2% sobre todo o capital estrangeiro que entrar no País, exceto para investimento direto. No dia seguinte ao pedágio, a Bovespa despencou 2,88% e o dólar subiu para R$ 1,75. Parecia que o tiro tinha acertado.
Mas o efeito foi passageiro e dois dias depois já era claro que o governo mirou no alvo errado. Ao tentar forçar a cotação da moeda americana, conseguiu afugentar o capital estrangeiro da bolsa brasileira de forma temporária, sem o efeito desejado no câmbio. Na quarta-feira 21, a moeda americana recuou para R$ 1,72 e a Bovespa fechou com alta de 0,28%, depois de variar durante o pregão, tendo até subido quase 3%.
"Criamos um pedágio para evitar uma bolha", disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que defendeu a decisão, mas não descarta novas medidas. O que não ficou claro ainda é se existe uma bolha na bolsa brasileira. Ou simplesmente uma recuperação condizente com o momento econômico. Na véspera do anúncio, o Ibovespa estava em 67 mil pontos.
Um pouco menos do que o recorde de 73 mil pontos verificados em maio de 2008, mas mais do que o dobro dos 29 mil pontos de um ano atrás. Com a queda do primeiro dia, o valor das companhias listas diminuiu R$ 55 bilhões, segundo a Economática. Mas no dia seguinte a bonança voltou e o mercado operou em alta durante todo o dia."Não existe bolha na bolsa brasileira. A alta dos últimos meses é consistente.
O consumo já estava bom antes da crise, porque o potencial de crescimento da economia brasileira é enorme", disse à DINHEIRO o presidente-executivo da BM&FBovespa, Edemir Pinto. A preocupação da BM&FBovespa é a migração de liquidez do Brasil para Nova York, onde grandes empresas brasileiras como Petrobras, Vale, Gol e Vivo negociam ADRs (American Depositary Receipts). No total, são 29, que respondem por mais da metade dos R$ 4,96 bilhões movimentados diariamente.
A medida não desagradou apenas aos analistas e investidores do mercado de capitais. Tanto a Confederação Nacional da Indústria (CNINI) quanto a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESIESIESP) apoiaram a medida num primeiro momento, até por uma questão política. Mas, depois da euforia inicial, perceberam que o imposto pode não depreciar o câmbio e ainda afugentar capital crucial para financiar seus investimentos.
O próprio ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, disse que a medida era inócua para o exportador. "Acho que a medida tem mais efeito na arrecadação", afirmou. "O que nós queríamos era que os investimentos não custassem 20% antes de começar a produzir e não que houvesse uma taxação do investimento especulativo."
O dinheiro dos IPOs é mais barato que a captação por outros meios, empregado na economia real e em atividades produtivas. O Santander, que recebeu R$ 14,1 bilhões com a sua abertura de capital no mês passado, pretende usar a maior parte dos recursos para aumentar sua carteira de crédito.
Companhias imobiliárias que estão captando recursos na bolsa vão usá-los para investir na construção de imóveis. "A medida tem pouca efetividade prática, o custo indireto é maior do que o bloqueio dos dólares", afirma Alexandre Póvoa, sócio do Modal Asset Management.
Especulativo ou produtivo
O dinheiro estrangeiro está presente em 70% das aberturas de capital, em média, na bolsa brasileira. Confira alguns exemplos de como estão sendo destinados esses recursos
PETRÓLEO - a OGX captou R$ 6,7 bilhões na bolsa (63% de estrangeiros) para buscar petróleo em águas profundas.
EDUCAÇÃO - a Anhanguera Educacional e o Sistema de Ensino Brasileiro (SEB) levantaram quase R$ 1 bilhão (mais de 80% com estrangeiros) para a expansão das redes de ensino.
IMOBILIÁRIAS - a Rossi Residencial e a MRV Engenharia conseguiram R$ 928,1 milhões e R$ 722 milhões, respectivamente, para investir boa parte no programa Minha Casa, Minha Vida. Os estrangeiros ficaram com mais de 70%.
AGRONEGÓCIO - a SLC Agrícola usa os R$ 369 milhões (78% de capital estrangeiro) levantados na bolsa para aumentar o número de terras produtivas.
SANEAMENTO - a Copasa, de Minas Gerais, expande seus sistemas de saneamento básico com os R$ 460 milhões (77% obtidos com investidor internacional) que vieram da bolsa. |
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