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Você não o conhece. Mas ele cuida do seu dinheiro
Quem é Bolivar Tarragó, gestor de um fundo de R$ 12 bilhões com recursos do FGTS, que subsidiam empresas, mas rendem pouco para o trabalhador

Denize Bacoccina

Tarragó, na avenida paulista: seu último investimento foi um aporte na Foz do Brasil, da Odebrecht

O trabalhador que cruza com o economista Bolivar Tarragó na avenida Paulista nem imagina a importância que ele tem para a sua vida. Vice-presidente da Caixa Econômica Federal, Tarragó é responsável pela gestão dos novos investimentos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço. É ele quem escolhe que projetos e que empresas recebem o dinheiro do trabalhador.

A última operação aprovada pelo fundo foi a compra de ações da Foz do Brasil, unidade de negócios em engenharia ambiental da Odebrecht, por cerca de R$ 600 milhões. "Tentamos diversificar setores e tipos de operação e estamos priorizando a participação acionária", disse à DINHEIRO.

No total, o FI-FGTS tem 15 operações, a maioria no setor de energia - incluindo R$ 7 bilhões em debêntures do BNDES e R$ 1,5 bilhão em papéis da usina Santo Antonio, outro negócio ligado à Odebrecht. O fundo investiu ainda em ações das usinas Ijuí, Lavrinhas, Queluz, Foz do Rio Claro e na Alupar Holding.

Até agora, já foram investidos R$ 12,2 bilhões em debêntures ou participações acionárias. A escolha dos projetos se dá, segundo Tarragó, pelo retorno do empreendimento, nas áreas permitidas pela legislação - portos, rodovias, ferrovias, hidrovias, energia e saneamento. Por contrato, o fundo tem que render pelo menos 6% ao ano, mais TR. Nos últimos 12 meses, rendeu 10,5%. O curioso é que o trabalhador tem a sua conta corrigida em 3% ao ano, mais TR. Nos últimos meses, com a TR negativa em alguns meses, deu só 4,5%.

O FI-FGTS foi criado há um ano com um volume de R$ 15 bilhões, de um total de R$ 17 bilhões que havia sido aprovado pelo Conselho Curador do FGTS. Além dos R$ 12,2 bilhões já liberados, os projetos já analisados e aprovados por Tarragó somam mais R$ 3,2 bilhões. "Os recursos praticamente já se esgotaram.

De um mês para cá, passamos a ser mais rigorosos na seleção dos projetos e tivemos que recusar alguns porque não havia mais dinheiro", diz o vice-presidente da Caixa. A torneira deve voltar a se abrir em breve. Há duas semanas, o governo conseguiu aprovar no Congresso o aumento do limite para R$ 24 bilhões, o equivalente a 80% do patrimônio líquido do fundo no fim do ano anterior. Se a mudança for aprovada pelo Conselho Curador, esses recursos não devem ficar muito tempo parados no caixa do FGTS.

Tarragó tem outra pilha de projetos, ainda em análise, que somam R$ 16 bilhões. Desses, ele acredita que um terço se enquadra nas exigências e deve ser atendido. "Há uma grande necessidade por recursos de longo prazo", afirma. No total, o passivo do FGTS é de R$ 160 bilhões. É este o saldo das contas vinculadas, o que teria que ser pago se todos os trabalhadores fossem demitidos hoje ou conseguissem o direito de sacar os seus fundos.

Já o volume depositado soma R$ 190 bilhões. Parte da diferença é que está sendo utilizada nos projetos de infraestrutura. O grosso dos recursos continua sendo utilizado no financiamento de habitação - cerca de R$ 67 bilhões - e outros R$ 28 bilhões em obras de saneamento. O restante fica aplicado em papéis do governo, disponível para os saques. Na avaliação do secretário-executivo do Conselho Curador do FGTS, Paulo Furtado, o fundo de investimento é bom para o trabalhador, porque ajuda a dinamizar a economia.

"Ele foi criado para fomentar os investimentos e com isso gerar mais empregos", afirmou à DINHEIRO. "No futuro, podemos ter cota vendida ao trabalhador com um rendimento diferenciado." Enquanto isso não acontece, o trabalhador vê seu dinheiro financiando, de forma subsidiada, as grandes empresas do País, enquanto seu rendimento muitas vezes é até negativo.

 

 


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