"Bancos são uma eterna fonte de instabilidade" por Milton Gamez, de Istambul
Martin Wolf, comentarista econômico do Financial Times
Poucas pessoas têm tanta influência no debate global quanto o inglês Martin Wolf. Suas ácidas e provocantes colunas no jornal Financial Times fazem a cabeça de banqueiros, financistas, acadêmicos e autoridades no mundo todo desde 1996.
Economista formado em Oxford, Wolf tem dois livros publicados sobre globalização e é uma estrela com luz própria nos encontros do FMI e do Banco Mundial. Em Istambul, no início de outubro, ele falou à DINHEIRO e disse que o Brasil é um ótimo candidato para a próxima crise financeira.
Defendeu ainda o redesenho do sistema. "Ele teria que ser menor do que é hoje", provoca. "E, enquanto houver alavancagem, haverá novas crises." Leia a seguir a entrevista.
DINHEIRO - Como o Brasil irá se sair na próxima crise financeira global?
MARTIN WOLF - Uma regra das crises é que elas ocorrem em regiões que não sofreram com a crise anterior. Portanto, o Brasil é um bom candidato para a próxima. Não que haja algo de errado com o Brasil, mas é assim que funciona. Segundo os economistas Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, somente quatro países não tiveram crise bancária desde a Segunda Guerra. Um deles era a Holanda, que agora passou por uma
DINHEIRO - O que acha de dividir os grandes bancos que oferecem risco sistêmico?
WOLF - Acho que isso não resolve o problema. Ficaria feliz se fossem aumentadas as necessidades de capital dos grandes bancos. Uma das coisas que descobrimos na crise atual é que o elemento crucial não é o tamanho de uma instituição financeira, mas a natureza de suas interações com as outras. É a interconectividade.
O Lehman Brothers permeava muito o sistema, embora fosse muito pequeno. Não é claro que o tamanho das instituições seja a maior fonte de risco de mercados financeiros globais, integrados e complexos. Alguns fundos não regulados foram importantes na disseminação da crise do Lehman. A conectividade pode criar um pesadelo.
Uma instituição que está bem num mês pode estar mal no outro. Ficou claro que o Tesouro e o Federal Reserve não entenderam as implicações da quebra do Lehman para as outras instituições financeiras quando tomaram a decisão. Eles tinham mais informação do que todo mundo e pensaram que estava tudo resolvido. Não estava
DINHEIRO - Os reguladores podem ser os supervisores dos bancos?
WOLF - Não acredito em supervisão. As principais instituições financeiras dos Estados Unidos, como o Citigroup, eram muito supervisionadas. Não adiantou muita coisa. A regulação consiste em definir um conjunto de princípios que, em tese, reduz o risco. A regulação me deixa menos infeliz que a supervisão, mas o problema é que os bancos sempre vão achar um jeito de contorná-la. Não funciona. Uma terceira possibilidade é achar maneiras críveis de liquidar instituições em dificuldade. Talvez adotando uma visão radical.
DINHEIRO - Qual atitude radical?
WOLF - Transformar os bancos numa indústria ilegal. É o que eu gostaria de fazer num mundo ideal. Não há outro jeito de consertar essa situação. Poucos sabem que Ludwig von Mises, o economista mais radical do século XX na defesa do livre mercado, disse que os bancos são uma fraude e deveriam ser considerados ilegais. É uma posição austríaca perfeita. E eles estão certos. Os bancos não poderiam operar sem bancos centrais, não poderiam existir sem o Estado.
DINHEIRO - O que há de errado com os bancos?
WOLF - Fingimos que o sistema financeiro é uma outra fonte de capital, mas, na verdade, ele é uma enorme fonte de instabilidade. Ou vivemos com essa instabilidade ou nos livramos dela. Nesse caso, teríamos um sistema financeiro muito menor. Por mim, tudo bem.
DINHEIRO - Qual é a alternativa?
WOLF - Uma delas seria ter bancos limitados, os narrow banks, que investiriam apenas em ativos de baixo risco, e instituições cujos recursos para operação viriam essencialmente da emissão de ações. Para fazer isso, obviamente, teríamos que nos livrar de todas as tendências tributárias de estímulo do sistema financeiro em torno da dívida. Não há razão lógica para isso, a alavancagem não traz um retorno supernatural para a economia. Estou simplificando o tema, mas teremos crises enquanto permitirmos que o descasamento de prazos e a alavancagem sejam peças centrais no sistema financeiro.
DINHEIRO - O crescimento da economia não seria muito menor sem o estímulo aos bancos?
WOLF - Isso não está claro, precisa ser debatido. A questão é se precisamos desta imensa máquina de transformação de dinheiro para conseguir mais crescimento. Para que esta imensa estrutura de intermediação? Os bancos no século XIX na Inglaterra não faziam o que fazem hoje. Todos os ativos dos bancos eram de curto prazo, basicamente financiavam o comércio. O financiamento de longo prazo vinha do mercado de bônus e de ações. O papel atual das estruturas quase bancárias é novo. Esse desenvolvimento não teria acontecido sem os governos. Nós subsidiamos essas estruturas.
DINHEIRO - Os governos plantaram as sementes da próxima crise?
WOLF - Dado que estamos socorrendo todo mundo e imprimindo dinheiro como loucos, criamos um problema sério de endividamento do setor público. Não dá para fazer isso de novo. Estou assustado.
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