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Abram os olhos e não ouçam o FMI
O Fundo quer convencer países como o Brasil a abrir mão de suas reservas e voltar a atuar como bombeiro. É melhor passar longe

Milton Gamez, enviado especial a Istambul

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ANDRÉ DUSEK
Posição de força, em Istambul: no encontro anual do FMI, o ministro Guido Mantega entregou proposta para que o Brasil empreste US$ 10 bilhões ao Fundo, enquanto Meirelles foi um dos nomes mais elogiados, pela solidez da economia nacional

Esqueça Viena, o berço da psicanálise. Se há um lugar ideal para se deitar num divã e tratar de uma crise de identidade de proporções globais, esse lugar é Istambul - pelo menos se o paciente for Dominique Strauss-Kahn. O principal executivo do Fundo Monetário Internacional encontrou na capital turca o ambiente ideal para tocar nas feridas da instituição. E de lá propôs uma nova receita (mais uma do FMI): a de que países emergentes, como o Brasil, deixem de acumular reservas internacionais, tendo a garantia de que, numa eventual crise, serão prontamente socorridos pelo Fundo. A experiência pretérita recomenda uma certa cautela. Na década de 90, países que seguiram o receituário do FMI, como Rússia, Argentina e o próprio Brasil, acabaram de pires na mão. O jogo só começou a mudar quando essas nações decidiram caminhar com as próprias pernas, acumulando divisas internacionais. "O melhor caminho é autoproteção", disse Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, à DINHEIRO, na manhã da terça-feira 6, o último dia do encontro. "É um equívoco achar que os países deixarão de acumular reservas.

Essa "autoproteção" brasileira deu tanto resultado que, lá mesmo em Istambul, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, se deu ao luxo de anunciar que o Brasil comprará direitos especiais de saque no valor de US$ 10 bilhões. "Agora estamos emprestando dinheiro ao Fundo", disse o ministro à DINHEIRO. Criado após a Segunda Guerra Mundial com o propósito ambicioso de manter a estabilidade econômica global e, com ela, ajudar a criar um clima de paz e prosperidade, o FMI sempre teve como foco principal a busca do equilíbrio da conta-corrente dos países e das moedas internacionais. Por isso, Strauss-Kahn quer ampliar o mandato da organização, reforçar seu capital de US$ 750 bilhões para pelo menos US$ 1 trilhão e, assim, garantir sua sobrevivência. Sua principal proposta é criar uma espécie de seguro para os países com políticas econômicas responsáveis, que seria usado para o rápido acesso a fundos em tempos de crise. Isso, na prática, transformaria o FMI numa espécie de banco central mundial.

Em vez de os países acumularem individualmente enormes doses de reservas cambiais, como fazem a China (US$ 2 trilhões) e o Brasil (US$ 225 bilhões), eles teriam uma espécie de cheque especial pré-aprovado. O FMI assumiria o papel de emprestador global de última instância. Apesar de lógica (as grandes reservas contribuíram para a liquidez mundial excessiva e financiaram as recentes orgias financeiras nos Estados Unidos e na Europa), essa ideia parece mais um devaneio do que uma possibilidade concreta. Na miríade de interesses dos países dos cinco continentes não será fácil convencer gregos e troianos a dar superpoderes ao FMI. Nem deveria ser. Por uma razão simples: a proposta esbarra na soberania nacional e na autonomia dos cada vez mais poderosos bancos centrais. O do Brasil, inclusive. Meirelles criticou a proposta e teve o apoio de nomes de peso como Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia em 2001, e Guillermo Ortiz, presidente do Banco Central mexicano.

Outro problema seria a velocidade e a intensidade de utilização dos recursos durante uma emergência cambial. Não é aceitável no mundo de hoje deixar nas mãos da burocracia do FMI a decisão de quando usar o dinheiro nem quanto. Nem mesmo com o futuro aumento do poder dos países emergentes no FMI, com a redistribuição de 5% das cotas que será feita até janeiro de 2011. Quem abrirá mão dessa autonomia, que se revelou útil na crise quando os bancos centrais rapidamente orquestraram injeções de liquidez maciças para estancar o pânico global? "A partir do momento que você passa a utilizar reservas multilaterais, você perde autonomia, passa a depender de julgamentos de terceiros. É o caso dos bancos em dificuldades quando tomam recursos no Banco Central", insiste Meirelles. É difícil imaginar que os Estados Unidos, o Brasil ou a União Europeia aceitarão abrir mão de poder cambial, fiscal e monetário para um super FMI, justamente agora que os Estados mostraram a sua força intervencionista e evitaram - ao menos por enquanto - o mal maior.

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