Delfim Netto, economista
"Pré-sal é a agenda do século 20, não do 21" por Leonardo Attuch

Dias atrás, Delfim Netto sofreu um baque. Teve dores e colocou dois stents no coração. Aos 81 anos, foi a primeira vez que se internou num hospital. "Nunca fiz check-ups por uma razão simples: quem procura, acha", disse ele à DINHEIRO. O susto, ao menos, serviu para que Delfim renovasse seu sentido de urgência.
O ex-ministro, que já foi o czar da economia brasileira, diz que o País deve buscar uma nova agenda de desenvolvimento e sustenta que ela não deve estar ancorada nas descobertas do pré-sal. "A idade da pedra não acabou por falta de pedra e a do petróleo não vai terminar por falta de petróleo", afirma o professor, que aposta numa revolução energética. Leia a seguir sua entrevista.
DINHEIRO - Como o sr. avalia o momento atual da economia global?
DELFIM NETTO - A crise está passando e eu acredito que os Estados Unidos sairão dela melhor do que entraram. Estou cada vez mais convencido de que o objetivo básico do presidente Barack Obama é reconquistar a autonomia energética americana. E isso abre uma nova agenda industrial. A agenda das inovações do século 21. O erro é imaginar que os Estados Unidos estão morrendo. Na verdade, eles estão renascendo. Basta olhar a dimensão do programa de energia deles.
DINHEIRO - Se a era do petróleo pode chegar ao fim, o Brasil erra ao concentrar todas as suas fichas nas descobertas do pré-sal?
DELFIM - Imagine como um governo teria que ser virtuoso para descobrir o pré-sal e ainda assim não bater tambor. Seria exigir demais. Se o papa descobrisse um poço dessa dimensão faria a mesma coisa. Mas o pré-sal não pode ser a concentração de todos os nossos investimentos. E por quê? Porque a agenda do futuro é a da transformação energética. E o fato é que uma boa parte da energia fóssil será substituída pela renovável.
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DINHEIRO - O sr. acredita que a origem da crise possa ter sido o rombo externo dos Estados Unidos, causado pelas importações maciças de petróleo?
DELFIM - Na verdade, a causa maior foi o extraordinário desenvolvimento desses instrumentos financeiros, sem que os bancos centrais soubessem o que estava acontecendo. Outro ponto foi o fato de os Estados Unidos terem virado lata de lixo do mundo, comprando tudo o que os outros produziam. Durante seis anos, eles fizeram um rombo externo de US$ 5,4 trilhões. E eles importam dez bilhões de barris de petróleo por ano. Isso foi um dos detonadores da crise.
DINHEIRO - Se os Estados Unidos serão capazes de se renovar, a aposta num mundo pós-americano e multipolar deve ser desconsiderada?
DELFIM - Na minha opinião, eles continuarão na liderança por muito tempo. Potência tem que ter três atributos: autonomia alimentar, autonomia energética e autonomia militar. Qual é o único país que pode reunir as três condições? Só eles. Veja a Rússia. Tem autonomia energética, uma autonomia militar meia-boca e não tem autossuficiência alimentar. A China está bem no campo militar e tem limitações nas outras duas áreas. A Europa não tem mais nada.
DINHEIRO - E o Brasil?
DELFIM - Apesar da limitação militar, o Brasil está na dianteira em duas frentes: a de alimentos e a de energia. E não deve perder isso por conta do pré-sal. A idade da pedra não acabou por falta de pedra. E a idade do petróleo não vai acabar por falta de petróleo.
DINHEIRO - O sr. aposta na retomada do crescimento nos Estados Unidos?
DELFIM - Aposto que, em dois anos, eles já estarão crescendo mais do que o resto do mundo. A possibilidade de inflação lá é mínima. E os que falam em risco de solvência do Tesouro americano podem comprar papel chinês, papel brasileiro, se quiserem.
DINHEIRO - Mas não parece que a saída está sendo simples demais, como se bastasse imprimir dinheiro?
DELFIM - O erro é imaginar que eles sairão da crise pelo estímulo monetário e fiscal. O que fará os Estados Unidos sair do buraco é a mudança da agenda industrial, que passa pelo campo energético. Crescimento é inovação mais crédito. E isso acontecerá predominantemente lá, ajudando a resolver o problema fiscal americano. Com energia limpa, eles poderão reduzir a conta da importação de petróleo e também a conta militar.
DINHEIRO - O sr. então é um entusiasta do etanol?
DELFIM - Cada vez mais. De acordo com o Scientific National Bureau, só as florestas americanas, se fossem adaptadas para produzir etanol a partir de tecnologias de vanguarda, poderiam responder por 65% de todo o combustível líquido dos Estados Unidos. Eles vão transformar carvão em combustível líquido, sem emitir gás carbônico. Até os árabes estão comprando terras no Brasil para produzir etanol. Fora isso, o carro elétrico está cada vez mais próximo.
DINHEIRO - Como o Brasil deve se posicionar?
DELFIM - Se nós usarmos só o présal, vamos ficar no século 20. Se formos capazes de compreender a nova agenda, entraremos no século 21 com os quatro motores ligados.
DINHEIRO - O pré-sal, na sua opinião, estaria reforçando tendências estatizantes deste governo?
DELFIM - Estado que presta é o Estado indutor. Estado produtor é uma porcaria. Ponto.
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