10 perguntas para Richard Geoffroy Carolina Guerra

O francês Richard Geoffroy é um dos maiores especialistas em champanhe do mundo. Chef du cave (cargo que o torna responsável por toda a produção da bebida, da qualidade das uvas ao envelhecimento do líquido) do Dom Pérignon, Geoffroy tem sob seus ombros a obrigação de manter o legado de Pierre Pérignon (1670-1715), considerado o pai do champanhe.
Na próxima semana, Geoffroy vem ao Brasil para lançar a primeira garrafa produzida por sua OEnotéche, uma espécie de acervo no qual os vinhos são envelhecidos por mais tempo. Ele também lançará um manifesto para assegurar a qualidade do Dom Pérignon (marca que hoje pertence ao conglomerado de grifes de luxo LVMH). Em dias de fim da colheita, Geoffroy falou com exclusividade à DINHEIRO.
DINHEIRO - O que é a OEnotéche?
RICHARD GEOFFROY - A OEnotéche é uma biblioteca de todos os nossos vinhos. Todo o legado da Dom Pérignon é guardado lá. Por exemplo, nós guardamos uma parte da safra de 1995 para que continuasse envelhecendo. Esse rótulo agora será lançado no Brasil (custará R$ 2.340). Também pretendemos guardar a safra de 2009 para ser aberta apenas no próximo século.
DINHEIRO - A OEnotéche é aberta ao público?
GEOFFROY - Por enquanto, não. Mas consideramos, no futuro, abrir o espaço em horários marcados.
DINHEIRO - Por que fazer um manifesto Dom Pérignon?
GEOFFROY - Tenho que garantir que a tradição de fazer o Dom Pérignon continue. Atualmente, as empresas definem as suas estratégias a curto prazo. O que estamos fazendo é pensar lá na frente, o que é extraordinário.
DINHEIRO - Qual é o segredo do champanhe que é considerado um dos melhores do mundo?
GEOFFROY - Fazer champanhe é uma arte. Nosso trabalho é minucioso. Provamos as uvas de novembro até fevereiro. Esse é o segredo de nosso ato de criação. Se as uvas não atingem o padrão, não declaramos a safra.
DINHEIRO - O sr. está afirmando que, nos anos em que a uva não tem qualidade, não há produção? Não há pressão comercial?
GEOFFROY - Sempre há. Existe uma demanda muito grande por Dom Pérignon. Mas isso faz parte do jogo, é preciso saber lidar com a pressão em qualquer negócio.
DINHEIRO - Recentemente, autoridades francesas decidiram expandir a região de Champanhe e assim mais vinhedos podem ser considerados como locais. Essa iniciativa muda o mercado?
GEOFFROY - Apesar de ainda não ser permanente, acho triste. As pessoas têm que entender que a produção de champanhe é limitada. Os vinhedos não podem se expandir até o céu.
DINHEIRO - Essa demanda restrita é o que explica que alguns champanhes custem milhares de dólares?
GEOFFROY - Em qualquer mercado, o preço é baseado na escassez, na oferta e na demanda.
DINHEIRO - Mesmo assim, com a crise mundial, as vendas de champanhe têm caído. O primeiro semestre de 2009 registrou uma queda de 20%. Como isso afetou a marca?
GEOFFROY - O que eu faço é apenas produzir o champanhe. Mas posso dizer que, pela tradição do Dom Pérignon, não sofremos tanto.
DINHEIRO - O sr. já está preparando um sucessor para o seu cargo?
GEOFFROY - Pretendo ficar muitos anos, mas já tenho alguns candidatos. Antes, porém, eles precisam provar que merecem.
DINHEIRO - Apesar de ter nascido em Champanhe e ser filho de vinicultores, o sr. passou um tempo longe da região para estudar medicina. Por que não seguiu nessa profissão?
GEOFFROY - Durante minha adolescência saí para provar ao mundo e a mim mesmo que eu era capaz. Foi quando me tornei médico. Depois, voltei para minha terra de origem. Olhando hoje, a medicina me auxilia na arte de fazer vinhos. Afinal, as duas são imprevisíveis.
"Em qualquer mercado, o preço é baseado na escassez, na oferta e na demanda"
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