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Meu vizinho é louco e tem uma bomba
Como as empresas da Coreia do Sul convivem com a ameaça de um ataque nuclear

Hugo Cilo, de Seul

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Rotina de apreensão: trabalhadores sul-coreanos fazem treinamento de sobrevivência, enquanto acompanham as negociações de paz com os vizinhos do Norte

Dias atrás, o alarme de emergência soou na fábrica da Cosy Electronics, em Paju, na Coreia do Sul. Os 3,6 mil funcionários esvaziaram o prédio em poucos minutos, e ficaram confinados por quase meia hora em três andares subterrâneos, onde estão encaixotados os estoques. Mas não havia nenhum problema real.

Tratava-se de um treinamento, como os que são realizados para casos de incêndio ou terremotos. A diferença é que desta vez o objetivo é outro. A companhia sul-coreana preparava os funcionários para uma eventual ofensiva militar dos vizinhos do Norte, que estão a menos de dez quilômetros dali com fome de guerra, arsenal duas vezes maior do que o da Coreia do Sul e um míssel nuclear capaz de alcançar o Estado americano do Alaska. A Cosy não é uma exceção.

O medo dos funcionários da fabricante de eletrônicos reflete a precaução com que as empresas do país têm acompanhado as oscilações de humor do líder norte-coreano Kim Jong-il. A cidade de Paju, que poderia ser comparada a uma zona franca de Manaus, abriga ainda a maior fábrica de tevês de LCD do mundo, da LG, além de um centro de produção da Samsung e centenas de fábricas fornecedoras de componentes.

Um ataque ao polo industrial seria um golpe na jugular da economia coreana, essencialmente exportadora. Treinamentos como este têm ocorrido frequentemente desde o início do ano, quando as ameaças tornaram-se uma rotina. O receio ficou mais concreto depois que o governo de Pyongyang, capital da Coreia do Norte, disse que considera uma declaração de guerra o fato de Seul ter aderido à iniciativa de não proliferação de armas nucleares, o que lhe permite, por exemplo, apreender navios norte-coreanos suspeitos de transportar armamento proibido.

a adesão da Coreia do Sul à iniciativa de não proliferação nuclear provocou as ameaças do líder do Norte, Kim Jong-IL

E mais: na contramão da economia dos dois países, o Norte é militarmente mais poderoso que o Sul. Hoje, a Coreia do Norte mantém 1,12 milhão de soldados, 3,5 mil tanques de combate, 1,5 mil aviões de guerra e 420 navios. Já a Coreia do Sul possui 587 mil soldados, 2.330 tanques, 790 aviões e 162 navios.

Apesar do clima de apreensão, no entanto, as empresas mantêm um discurso pacificador. "Acreditamos mais em uma futura reunificação do que em um combate. Somos da mesma raça, falamos a mesma língua e há um esforço para consolidar a paz na península coreana", disse à DINHEIRO o vice-presidente de comunicação corporativa da LG, Paul Chung.

"Um ataque só aceleraria o colapso do governo norte-coreano. E não interessa a ninguém", completou o professor de ciências políticas da Universidade Nacional de Seul, Lee Mun-Woong. De fato, a maioria dos analistas sul-coreanos considera a atitude bélica do regime de Kim Jong-il uma estratégia.

Pyongyang vive uma guerra interna pela sucessão do líder comunista, e procura ofuscar os problemas econômicos com provocações ao Conselho de Segurança da ONU. A comunidade internacional, incluindo a China e a Rússia, condena firmemente as recentes declarações do regime e prepara uma nova resolução e mais sanções. Por enquanto, um alento aos sul-coreanos. E também às empresas.

 

 


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